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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Vulnerabilidade e Religiosidade

 

Tem momentos em que a vida perde a rigidez — quando algo falha, quando o controle escapa, quando a gente percebe que não dá conta de tudo. A vulnerabilidade chega sem pedir licença. E, curiosamente, é justamente aí que muita gente começa a olhar para o alto, para dentro, ou para algum lugar que não seja apenas o próprio esforço. A religiosidade, nesse sentido, raramente nasce do excesso de força; ela costuma brotar das rachaduras.

O ser humano sempre tentou dar forma ao que o ultrapassa. Em situações de vulnerabilidade — uma perda, uma doença, um medo difuso do futuro — a consciência se expande para além do imediato. Søren Kierkegaard dizia que a angústia é como uma vertigem da liberdade: quando percebemos que não controlamos tudo, somos lançados diante do abismo das possibilidades. A religiosidade pode surgir como uma resposta a essa vertigem — não necessariamente como fuga, mas como tentativa de relação com o infinito.

Mas há um ponto delicado aqui. A vulnerabilidade pode tanto abrir caminhos autênticos quanto nos tornar suscetíveis a ilusões reconfortantes. Sigmund Freud via a religião como uma projeção de desejos humanos — uma espécie de abrigo psíquico contra a dureza do mundo. Para ele, a fragilidade humana alimenta a necessidade de uma figura protetora, quase como um prolongamento da infância.

Entre essas duas visões, talvez exista um espaço mais interessante. A religiosidade não precisa ser apenas um refúgio ilusório nem uma verdade absoluta incontestável. Ela pode ser uma linguagem — uma forma de lidar com aquilo que não conseguimos resolver apenas com razão ou técnica. Em momentos de vulnerabilidade, o ser humano não busca apenas respostas; ele busca sentido, pertencimento, continuidade.

No cotidiano, isso aparece de maneiras simples: alguém que faz uma oração antes de uma decisão difícil, outro que entra em silêncio numa igreja vazia, ou mesmo quem, sem religião formal, conversa mentalmente com algo maior. Não é necessariamente sobre dogma, mas sobre relação — com o mistério, com o limite, com o que escapa.

Paul Tillich falava de Deus como “aquilo que nos concerne de forma última”. Nessa perspectiva, a religiosidade não é apenas crença institucional, mas o modo como respondemos ao que nos toca profundamente — especialmente quando estamos expostos, frágeis, sem garantias.

Talvez o ponto mais honesto seja admitir que a vulnerabilidade não é um defeito a ser eliminado, mas uma condição que nos torna permeáveis a algo maior. A religiosidade, então, não surge apesar da fragilidade, mas através dela. E isso muda tudo: em vez de buscar ser invulnerável, talvez o desafio seja aprender a atravessar a própria fragilidade sem perder a capacidade de sentido.