Um Microconto
O homem entrou no café sempre às
7h17, como se o universo tivesse um compromisso secreto com aquele minuto.
Todas as manhãs, pedia o mesmo:
café sem açúcar e silêncio com pressa. Ninguém nunca lhe perguntou por quê. As
pessoas respeitam hábitos como se fossem leis naturais.
Um dia, o relógio da parede parou
às 7h16.
Ele não percebeu de imediato.
Sentou-se, esperou o café, olhou o nada. Mas algo estava errado: o mundo
parecia não “avançar”. O garçom demorava mais, a luz não mudava, o vapor da
xícara subia como se tivesse esquecido para onde ir.
— O tempo parou — disse o homem,
por fim.
O garçom deu de ombros:
— Ou você começou a notar.
Nesse instante, o homem percebeu
algo mais inquietante do que o relógio parado: ninguém ali parecia precisar do
tempo. Só ele.
Saiu do café e encontrou a rua
normal, os carros, os passos, as pressas. Tudo funcionando como sempre. Mas
quando olhou de volta, o café já não estava mais lá.
Ou talvez nunca tivesse estado.
E então entendeu: havia lugares
onde o tempo não passava — apenas era acreditado.