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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Cultura da Violência


 

Um ensaio filosófico sobre a banalização da crueldade e a construção de uma sociedade que aprende a conviver com a dor alheia.

Quando a violência deixa de nos surpreender

Vamos começar com uma pergunta incômoda: em que momento uma sociedade começa a considerar normal aquilo que deveria causar indignação?

Talvez isso aconteça quando uma criança cresce ouvindo que homem de verdade não leva desaforo para casa; quando uma mulher precisa calcular os riscos de caminhar sozinha à noite; quando um jovem aprende que demonstrar medo é sinal de fraqueza; ou quando assistimos a uma cena de agressão no celular e, poucos segundos depois, continuamos deslizando a tela como se nada tivesse acontecido.

A violência nem sempre começa com um soco, um disparo ou uma guerra. Às vezes, começa com uma palavra, um preconceito, uma humilhação ou um silêncio conveniente. Antes de se transformar em ato, ela pode existir como uma ideia socialmente aceita, uma emoção cultivada ou um comportamento repetido até perder sua capacidade de escandalizar.

É nesse território que encontramos a cultura da violência: não apenas na presença da brutalidade, mas na maneira como aprendemos a justificá-la, reproduzi-la e, em determinadas circunstâncias, até admirá-la.

A questão central, portanto, não é somente por que o ser humano pratica a violência, mas como a sociedade ensina o ser humano a reconhecer a violência como uma resposta legítima aos seus conflitos.

1. A violência como aprendizagem social

O filósofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu oferece uma perspectiva importante para compreender esse fenômeno por meio do conceito de violência simbólica. Trata-se de uma forma de dominação que não depende necessariamente da força física: ela opera por meio de valores, classificações e crenças que fazem as desigualdades parecerem naturais.

Pierre Bourdieu — a violência que se esconde na normalidade

A violência também se manifesta quando determinadas pessoas são ensinadas a aceitar a inferioridade que lhes é atribuída, quando a humilhação é confundida com disciplina ou quando o privilégio de uns é tratado como mérito absoluto.

Pensemos em uma criança que cresce em um ambiente no qual os adultos resolvem divergências aos gritos. Mesmo sem receber uma aula formal sobre agressividade, ela observa, assimila e reproduz comportamentos. Aprende que a pessoa mais forte pode interromper a fala da mais fraca, que o medo garante obediência e que a imposição substitui o diálogo.

Isso não significa que toda criança submetida à violência se tornará violenta. Significa que os ambientes sociais oferecem modelos de comportamento que podem favorecer ou dificultar a reprodução da agressividade.

O mesmo mecanismo aparece em instituições, escolas, famílias, ambientes de trabalho e comunidades digitais. Quando a humilhação é tolerada, o preconceito é naturalizado e a intimidação produz resultados, a violência encontra condições para se reproduzir.

Uma sociedade não precisa ensinar explicitamente a odiar; basta, muitas vezes, recompensar sistematicamente aqueles que humilham e punir aqueles que demonstram vulnerabilidade.

2. Hannah Arendt e a banalização do mal

Hannah Arendt — quando pensar se torna uma obrigação moral

Em sua reflexão sobre a banalidade do mal, Arendt examinou como atos terríveis podem ser praticados por pessoas comuns inseridas em sistemas que favorecem a obediência, a rotina e a suspensão do julgamento crítico.

A contribuição de Arendt ajuda a perceber que a violência não depende sempre de indivíduos que se consideram monstros. Ela também pode ser executada por pessoas que acreditam estar apenas cumprindo ordens, seguindo regras ou fazendo aquilo que todos fazem.

Imagine um funcionário que humilha publicamente um colega porque a cultura da empresa transforma a intimidação em método de produtividade. Ele talvez não se considere cruel. Pode até acreditar que está sendo eficiente. Entretanto, sua participação ajuda a manter um ambiente em que a dignidade humana é sacrificada em nome de resultados.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado às redes sociais. Alguém compartilha a imagem de uma pessoa sendo agredida, acrescenta uma legenda ofensiva e recebe milhares de curtidas. Outros compartilham o conteúdo, não necessariamente porque conhecem a vítima ou desejam seu sofrimento, mas porque querem participar do grupo, divertir-se ou conquistar visibilidade.

A responsabilidade individual não desaparece diante da pressão coletiva. Pelo contrário, torna-se ainda mais importante.

A banalização da violência começa quando deixamos de perguntar se uma ação é justa e passamos a perguntar apenas se ela é aceita, útil ou popular.

3. A masculinidade, o poder e a obrigação de parecer forte

Uma das manifestações mais persistentes da cultura da violência está associada à construção social da masculinidade.

Em muitos ambientes, meninos aprendem desde cedo que precisam dominar, não demonstrar medo, responder a provocações e defender a própria honra pela força. Chorar pode ser interpretado como fraqueza; recuar de uma briga, como covardia; reconhecer um erro, como perda de autoridade.

Essa educação emocional pode produzir uma contradição profunda: o indivíduo é incentivado a parecer forte, mas não aprende necessariamente a lidar com a frustração, a rejeição, o ciúme ou a insegurança.

A agressão passa, então, a funcionar como uma espécie de linguagem substituta. Onde faltam recursos para expressar sentimentos, surge a tentativa de controlar o outro.

Um exemplo concreto aparece nas relações afetivas marcadas por controle excessivo: exigir senhas, fiscalizar amizades, impedir que o parceiro saia sozinho ou interpretar a autonomia alheia como afronta. Nem toda situação de controle evolui para violência física, mas essas condutas podem integrar dinâmicas de abuso e precisam ser reconhecidas como sinais de alerta.

O problema filosófico está em uma confusão antiga: acreditar que possuir alguém é uma forma de amá-lo, ou que intimidar alguém é uma prova de superioridade.

A força que precisa humilhar para se afirmar talvez seja apenas uma fragilidade que encontrou meios de impor-se.

Romper essa lógica não significa negar conflitos nem abolir a firmeza. Significa construir uma ideia de força que inclua autocontrole, responsabilidade, capacidade de diálogo e respeito aos limites do outro.

4. Byung-Chul Han e a violência em uma sociedade exausta

Byung-Chul Han — a agressividade em tempos de desempenho

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han analisa como a pressão por desempenho, produtividade e autossuperação pode produzir esgotamento e formas de sofrimento psíquico e social.

A violência contemporânea não se apresenta somente como confronto entre indivíduos. Ela também pode assumir a forma de uma pressão permanente para produzir, vencer, destacar-se e provar o próprio valor.

Em uma cultura que transforma a vida em competição, o outro corre o risco de deixar de ser reconhecido como semelhante e passar a ser percebido como obstáculo, concorrente ou instrumento.

Pensemos em um ambiente profissional no qual funcionários são comparados publicamente, erros são tratados como vergonhas e metas impossíveis são impostas sem consideração pelas condições humanas. Talvez não existam agressões físicas, mas há formas de violência psicológica, humilhação e desumanização.

Nas redes sociais, essa lógica ganha outra dimensão. A exposição pública de um erro pode transformar-se em espetáculo; a discordância, em perseguição; a crítica, em tentativa de destruir a reputação de alguém.

É necessário, porém, fazer uma distinção: nem toda cobrança, competição ou crítica constitui violência. O problema surge quando essas práticas passam a negar a dignidade, a autonomia e a integridade de outras pessoas.

A cultura da violência também prospera quando o valor humano é reduzido ao desempenho e quando o sofrimento alheio se torna invisível diante da busca por resultados.

5. A violência como espetáculo e mercadoria

Há uma contradição característica do nosso tempo: nunca tivemos tantas possibilidades de conhecer o sofrimento humano em escala global e, ao mesmo tempo, tantas oportunidades de consumi-lo como entretenimento.

Cenas de agressão, acidentes, conflitos e humilhações circulam em plataformas digitais, muitas vezes acompanhadas de comentários irônicos e reações de aprovação. A dor deixa de ser apenas um acontecimento e passa a disputar atenção.

Quando a atenção se transforma em moeda, o escândalo pode valer mais do que a compreensão. O conteúdo que provoca indignação, medo ou prazer em observar a queda de alguém pode alcançar grande circulação, independentemente de contribuir para a solução do problema.

Isso não significa que toda divulgação de violência seja prejudicial. Imagens e testemunhos podem documentar abusos, revelar injustiças e mobilizar a sociedade. A diferença está no propósito, no contexto, no respeito às vítimas e nas consequências da exposição.

A pergunta decisiva é: estamos diante da violência para compreendê-la e enfrentá-la ou para experimentar, à distância, a excitação de testemunhar a dor?

Quando uma pessoa agredida se torna apenas um vídeo viral, algo fundamental se perde: sua condição de sujeito, sua história e sua dignidade.

O espetáculo da violência pode criar a ilusão de que conhecer o sofrimento equivale a compreendê-lo. Mas assistir à dor não é o mesmo que reconhecer a humanidade de quem sofre.

6. O paradoxo brasileiro: convivência cotidiana e desigualdade

No Brasil, a reflexão sobre a cultura da violência precisa considerar fatores históricos e sociais, como a escravidão, o racismo, a desigualdade econômica, a violência de gênero e as diferentes condições de acesso à proteção e à justiça.

Não se trata de afirmar que a violência define a identidade brasileira, nem de atribuir a todos os brasileiros os mesmos comportamentos. Trata-se de reconhecer que certas estruturas históricas podem tornar alguns grupos mais expostos à violência e dificultar a responsabilização de quem a pratica.

A violência também se manifesta de maneira desigual: há pessoas cuja vulnerabilidade é socialmente reconhecida e outras cujo sofrimento é minimizado ou tratado com suspeita.

Quando uma vítima é julgada antes de ser ouvida, quando a agressão contra determinados grupos provoca menos indignação ou quando a dignidade humana depende da condição econômica, a sociedade estabelece uma hierarquia implícita sobre quem merece proteção.

Surge, então, uma questão ética fundamental: se a dignidade humana é universal, por que nossa capacidade de indignação parece variar conforme a identidade de quem sofre?

A resposta exige mais do que condenações abstratas. Requer instituições confiáveis, prevenção, educação, políticas públicas, responsabilização proporcional e proteção efetiva às vítimas.

Também exige que deixemos de tratar a violência exclusivamente como um problema individual. O agressor responde por seus atos, mas compreender as condições que favorecem a violência é indispensável para impedir sua reprodução.

7. A educação como ruptura do ciclo

Se a cultura da violência é parcialmente aprendida, existe a possibilidade de aprender outras formas de convivência.

Isso não significa acreditar ingenuamente que a educação, isoladamente, resolverá problemas estruturais. Significa reconhecer que a transformação social também depende das maneiras pelas quais aprendemos a lidar com diferenças, frustrações e conflitos.

Uma educação comprometida com a não violência precisa ensinar mais do que boas maneiras. Precisa desenvolver a capacidade de argumentar sem humilhar, discordar sem desumanizar, estabelecer limites sem ameaçar e reconhecer erros sem transformar a responsabilidade em vergonha insuportável.

Em uma escola, por exemplo, combater o bullying não pode se limitar a punir o estudante que agride. É necessário proteger a vítima, responsabilizar o agressor, envolver a comunidade escolar e questionar as normas do grupo que transformam a humilhação em prestígio.

Na família, isso significa substituir a obediência obtida pelo medo por limites consistentes, diálogo e responsabilidade.

Na esfera pública, significa não confundir firmeza com crueldade, justiça com vingança ou autoridade com arbitrariedade.

A cultura da paz não consiste na ausência de divergências. Uma sociedade democrática é inevitavelmente atravessada por conflitos. O que a distingue é sua capacidade de enfrentá-los sem transformar o adversário em alguém destituído de direitos.

A verdadeira ruptura acontece quando a violência deixa de ser considerada uma solução admirável e passa a ser reconhecida como um fracasso da convivência que precisa ser prevenido, contido e reparado.

8. Uma hipótese filosófica: a violência começa quando o outro perde a realidade

Podemos avançar um pouco além das explicações tradicionais.

Talvez uma das raízes mais profundas da violência esteja na capacidade de tornar o outro abstrato.

Não agredimos apenas porque sentimos raiva. Em certas circunstâncias, conseguimos agredir porque deixamos de perceber plenamente a pessoa que está diante de nós. Ela se transforma em inimigo, número, estereótipo, ameaça ou obstáculo.

O outro deixa de possuir uma história própria e passa a representar algo que desejamos eliminar.

Essa abstração pode assumir diferentes formas. O preconceituoso não enxerga o indivíduo, mas a categoria que construiu. O agressor que humilha não reconhece a vulnerabilidade alheia como algo digno de consideração. O grupo que persegue alguém encontra justificativas coletivas para suspender a empatia.

Aqui surge uma possibilidade de reflexão original: a cultura da violência pode ser entendida como uma cultura de empobrecimento da percepção humana.

Quanto menos conseguimos reconhecer a complexidade do outro, mais facilmente o reduzimos a uma caricatura. E quanto mais o reduzimos a uma caricatura, mais simples se torna justificar a violência contra ele.

Isso não significa que a empatia, por si só, seja suficiente para impedir a agressão. Existem interesses, estruturas de poder, incentivos materiais e decisões conscientes que também precisam ser enfrentados. Mas recuperar a capacidade de reconhecer a humanidade alheia constitui uma dimensão essencial da resistência à desumanização.

Talvez o primeiro gesto contra a violência não seja apenas conter a mão que agride, mas questionar a ideia que tornou aquela agressão aceitável.

Uma sociedade não é inocente apenas porque não agride

A cultura da violência não se sustenta somente pela ação de quem agride. Ela também pode ser alimentada por quem transforma a crueldade em piada, por quem confunde dominação com autoridade, por quem se cala diante de uma injustiça para preservar privilégios e por quem considera o sofrimento alheio um preço inevitável da vida coletiva.

Isso não torna todas as pessoas igualmente responsáveis. Existe uma diferença fundamental entre praticar uma agressão, tolerá-la, sofrer seus efeitos e tentar impedi-la. A responsabilidade deve ser examinada de acordo com as ações, as condições e o poder de cada indivíduo.

Entretanto, uma sociedade que deseja superar a violência precisa examinar não apenas seus crimes, mas também os valores cotidianos que os tornam possíveis.

Precisamos perguntar por que a agressividade recebe aplausos, por que a vulnerabilidade provoca desprezo e por que, tantas vezes, a capacidade de impor medo é confundida com a capacidade de inspirar respeito.

A resposta talvez esteja na necessidade de redefinir aquilo que entendemos por força. Uma sociedade verdadeiramente forte não é aquela em que os indivíduos conseguem intimidar uns aos outros, mas aquela em que ninguém precisa recorrer à intimidação para ter seus direitos reconhecidos.

A violência pode nascer de impulsos individuais, mas sua normalização é uma construção coletiva. E aquilo que é construído socialmente também pode ser questionado, transformado e substituído por outras formas de relação.

A grande questão não é se conseguiremos eliminar todos os conflitos humanos, mas se teremos maturidade para deixar de transformar cada conflito em uma oportunidade de destruir o outro.

Talvez a civilização não se revele pela quantidade de leis que produzimos, pela sofisticação das tecnologias que dominamos ou pela força dos instrumentos de que dispomos. Talvez ela se revele, sobretudo, na maneira como tratamos aqueles que poderíamos humilhar, excluir ou ferir sem sofrer consequências imediatas.

Porque o contrário da violência não é simplesmente a fraqueza, assim como o contrário da crueldade não é a passividade.

O contrário da violência é a construção de relações nas quais a força encontra limites, a diferença não exige eliminação e a dignidade humana não precisa ser conquistada pela submissão de ninguém.

Uma sociedade começa a superar a cultura da violência quando deixa de perguntar apenas quem tem poder para ferir e passa a perguntar que condições tornam possível viver sem precisar ferir para existir.

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