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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Resenha do livro: A profissão de sociólogo: preliminares epistemológicas 1 Pierre Bourdieu, Jean Ciaude Chamboredon, Jean-Ciaude Passeron


 

O livro “A Profissão de Sociológo: Preliminares epistemológicas” da 3ª edição do livro de Bourdieu, Chamboredon e Passeron, não é um livro para leitura na forma simples e corrida, mas sim para uma leitura reflexiva, na forma de um passo de cada vez, num indo e vindo, dialogando com o texto, como em toda discussão conceitual e interpretativa, inclusive nos dando ao direito de explorar invadindo um novo espaço levando conosco toda uma carga de conhecimentos conquistados, assimilada ao longo de minhas experiências e estudos das outras ciências, porém é importante saber de antemão que se entrando numa nova casa denominada por sociologia.

A leitura leva-nos a refletir acerca das práticas de vigilância focadas nas operações conceituais e metodológicas voltados a tentar sanar os entraves epistemológicos que acabam criando dificuldades na construção científica.

Dentre paradigmas da sociologia como em geral, há contrariedades e diferenças entre as correntes na pluralidade e singularidades e, ainda mais se tratando da Sociologia uma nova ciência (já não tão novinha assim, pois surgiu no século XIX como disciplina científica) abrindo espaço dentro do mundo científico, enfrentando desafios pertinentes a sociologia contemporânea e como jovem ciência encarando os desafios inerentes do que é novo em princípio é rejeitado, principalmente quando há questionamento dos velhos paradigmas, paradigmas que procuram explicar a realidade a seu tempo com o conhecimento valido na sua época.

A realidade estudada e explicada pela visão da sociologia, com seus respectivos instrumentos reconfiguram o conhecimento sociológico a partir de instrumentos que darão validade capazes de conferir credibilidade a jovem ciência, com objetividade reduzindo e superando os obstáculos epistemológicos, isto é construído a partir de reflexão e vigilância sobre as verdades universais e os relativismos.

A conquista do espaço no mundo das ciências e, seu relevo junto a sociedade contemporânea ocorre e ocorreu gradualmente, a conquista deste espaço vai além dela própria, pois é a conquista da própria consciência que se da sua importância e, assim o reconhecimento se torna necessária, resultando num maior reconhecimento capazes de transformar a vida social das populações.

 Um ponto muito importante levantado a partir da reflexão é que as pessoas falam palavras muitas vezes sem o nexo devido, sua fala carregada de intenção e imagens, porem com outro sentido epistemológico, a lógica da fala interpretada antes de falada tenta extrair de expressões típicas e muitas vezes até banais, os paradigmas construídos na linguagem comum, e a verdade não é coisa isolada, única e individual, a comunicação se valida através daquilo que é entendido pelo outro a partir daquilo que é dito.

Na linguagem comum e em geral em suas ações as pessoas desconhecem que são motivadas inconscientemente, quando a consciência surge os argumentos aparentemente racionais tentam justificar de maneira lógica decisões tomadas por impulso sem maneira lógica, como por exemplo um empresário pode contratar funcionários levando em conta aspectos irracionais ou até numa relação pessoal podemos ter afinidade ou antipatia gratuita por alguém, sem aparentemente ter qualquer motivo, é o inconsciente funcionando.

Somos alvo constante da mídia, os comerciais de TV manipulam a vontade a partir de objetos de desejo universal ou dirigida a persuasão de um grupo especifico, no entanto, o verdadeiro objeto são aqueles desejantes ou não, que inconscientemente despertarão interesse ou alimentará mais ainda a intenção de adquirir, e do poder ter.

Sabemos que somos seres desejantes e sabemos que somos manipulados, mesmo assim a sociedade age inconscientemente, temos as pesquisas que são ferramentas de trabalho da sociologia, tais pesquisas analisam resultados como por exemplo: “Num comercial de TV, a venda é realizada ou não nos três ou quatros segundos iniciais, assim como num anuncio impresso, 75% das decisões acontecem na leitura do cabeçalho. Numa demonstração promocional, a venda é feita ou não nos três minutos iniciais”. Estes dados são resultados de estudos feito por John Caples, “Tested advertising methods, Englewood Cliffs, NJ, Prentice-HALL.Inc.,1974 “, citados no livro “O Mito do Empreendedor”, (Editora Saraiva, 1986), de Michael E. Gerber. Estes são exemplos de decisões que tomamos diariamente sem termos consciência disto.

Outro exemplo é nos anos 70, a Pepsi lançou um ataque competitivo contra a Coca-Cola, na famosa campanha dos testes cegos. Foram veiculados pela TV, comerciais em que várias pessoas eram testadas, com vendas nos olhos, para escolherem o melhor refrigerante entre os dois. Apesar de a Coca-Cola ser a preferida do público, nos testes com venda nos olhos as pessoas preferiram, numa proporção de 3 a 2, a Pepsi. Isto é o que se pode chamar de uma decisão inconsciente.

Outro exemplo muito presente no dia a dia são as entrevistas de empregos que muitas vezes o recrutador comete erros por se deixar influenciar excessivamente pela aparência das pessoas e deixar de lado aspectos relevantes de sua competência profissional, isto não nos causa tanta estranheza, visto que vivemos numa sociedade dos retoques e filtros fotográficos na busca pela imagem perfeita. Ele defende que as entrevistas de empregos deveriam acontecer inicialmente por telefone ou na leitura de currículos e só na reta final, quando houver apenas dois ou três concorrentes aptos a assumir o cargo, é que deveria haver a entrevista pessoal, é mais ou menos a utilização da habilidade do deficiente visual, guiaríamos pelo histórico da experiência, isto é se a experiência fosse uma das exigências para função e também nos guiaríamos pelas mensagens contidas na voz do candidato, mas será que com tudo isto não idealizaríamos inconscientemente a imagem de alguém e na hora do cara a cara a ilusão mental não estaria a atrapalhar? Como vimos são muitas as teorias, muitas as condicionantes que compõem o quadro num mundo em constantes mudanças, é crucial tentar escapar a modelos prontos.

O sociólogo entende que se estamos inclinados a cometer erros irracionalmente, a maneira de agirmos desta forma não é apenas o resultado da determinação do acumulado das teorias passadas, sabendo disto o sociólogo rompe com os paradigmas do discurso epistemológico, que oferecem a todo tempo o risco de incorrer em modelos prontos. Essa atitude é a forma científica de agir e implica na submissão dos procedimentos metodológicos à uma razão epistemológica cética, questionadora e vigilante.

É questionando a pratica que rompemos com o saber imediato, aquele saber inconsciente e banal, rompendo com as relações aparentes e independente das opiniões e intenções do sujeito que o objeto da investigação, cujos pressupostos foram assimilados inconscientemente.

A tarefa da sociologia é desvendar incansavelmente as diversas modalidades de atuação das diferentes formas de dominação veladas e dissimuladas nos diversos mundos sociais, trazendo à tona fatos que estão escondidos sob o manto da ilusão e das aparências. É necessário, ainda, voltar-se contra a teoria tradicional e repetitiva, posto que estas, pretensamente universais, porem superficiais, porque tiram da lógica do senso-comum seu projeto fundamental, e não mais do estudo cientifico atualizado. Bourdieu propõe uma teoria do conhecimento sociológico capaz de superar as armadilhas do objetivismo, determinismo sociológico, do subjetivismo e voluntarismo individualista.

A sociologia é uma ciência que acaba incomodando, pois rompe com a tradição, tira o véu do senso comum, criticando muitas vezes de forma feroz, colocando problemas e trazendo à baila recalques que são ocultados e escondidos propositadamente, as vezes o sociólogo é acusado de querer destruir o sistema onde ele mesmo está inserido com suas peculiaridades e interesses.

O livro é uma ótima introdução aos conceitos da sociologia, suas reflexões aproximam o leitor ao mundo critico, elevando a capacidade de melhor enxergar o mundo e os fatos que estão escondidos nas mais simples ações cotidianas, extraindo o sujeito da posição que ocupa como apenas um mero reprodutor de informações, o conteúdo é denso, porém tem uma linguagem que permite um bom entendimento, penso que esta leitura seja importantíssima se quisermos entender o que seja a profissão do sociólogo.

Fontes:

Bourdieu, Pierre, 1930- A profissão de sociólogo: preliminares epistemológicas 1 Pierre Bourdieu, Jean Ciaude Chamboredon, Jean-Ciaude Passeron ; tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. - Petrópolis, RJ: vozes, 1999.

https://administradores.com.br/artigos/decisoes-inconscientes

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Politica é participação: e o professor com isto?


A Política desde os gregos é objeto de estudo e parte da educação que forma o cidadão, trata-se de um ramo de estudo da Filosofia que trata da investigação das relações humanas no sentido amplo e coletivo. Temos com importante referencia para estudo Platão e Aristóteles, eles deixaram legados reflexivos, o primeiro nos deu sua contribuição com a obra Republica onde discutiu as possibilidades de uma sociedade justa e ideal e o segundo se tornaria célebre famoso pela política grega, estabelecendo a forma de democracia para os gregos, falar de política começa obrigatoriamente com o estudo destas obras.

O estudo da política ao longo destes milênios desde os gregos passou por muitas mudanças, como o choque das civilizações, novo ordenamento pós-guerra fria, pós segunda guerra mundial, arranjos da política nacional e internacional, primavera árabe, diretas já dando inicio a uma nova fase no Brasil, novas ideologias, abandono de ideologias resultado do jogo de poder, assim vem sendo construída a historia pela razão que o homem vem dando aos interesses pessoais e coletivos.

A educação formal deve ser um agente politizador no sentido de ensinar o individuo a viver em sociedade, o que significa cuidar da vida coletiva, trabalhar na formação política dos indivíduos pela sua conscientização e a realidade que a cerca, a democracia deve ser fomentada, pois esta em permanente construção.

O professor precisa se tornar um agente politizador, sem que ele propicie condutivamente tendência para este ou aquele partido, visto que o aluno tende a ver no mestre um exemplo muitas vezes a ser seguido, assim as ideologias devem ser amplamente estudas e apresentadas de uma forma imparcial, assim como não queremos que nossos filhos sejam levados a esta ou aquela religião, politicamente também não queremos.

O distanciamento das pessoas do cenário político se deve em grande parte as noticias constantes do envolvimento dos políticos em atos de corrupção e a impunidade, há um forte receio das pessoas comuns e de bem em se aproximar destes políticos sob pena de contaminarem ou serem influenciados de alguma forma por um mundo que esta se tornando abominável, muitas vezes associamos as figuras de políticos com seus casacos e gravatas a figuras que povoam a fantasia de um submundo de seres diabólicos com poderes suficientes para oprimir ainda mais os setores mais fracos da sociedade.

Numa outra associação feita com relação a política segue por uma seara de um mundo desconhecido, esta impressão é devido a falta de esclarecimento, este esclarecimento se pautado dentro do ambiente escolar, possivelmente poderá proporcionar domínio pelos signos, códigos e conceitos próprios da política, conforme o viés a sociologia e a filosofia, principalmente, podem apresentar este mundo aos alunos a partir de programas educativos com participação critica e reflexiva.

Convenientemente e conforme o programa, poderá ser apresentado aos alunos que conforme a vontade da sociedade esta poderá se tornar justa, estando sob os cuidados da política a missão de transformar nossa democracia em uma forma participativa de governo, propiciando sua legitimação pela autentica participação política de seus cidadãos.

Assim, ensinar a política no ensino médio é de fundamental importância, uma das tarefas da escola é educar para a cidadania, a cidadania é construída não através de submissão ao que esta posto, mas através do entendimento e participação, para que uma democracia seja forte, teórica e pratica, a democracia deve ser entendida como um processo dinâmico de desacomodação, a educação política resgata os cidadãos de uma situação de acomodação de uma democracia pronta e acabada, a democracia como sabemos é construída e mantida a partir de atitudes positivas do cotidiano, aproveitando e criando espaços.

O ensino da política precisa estar presente nos currículos escolares, a iniciação dos jovens adolescentes dentro de uma realidade pratica de maneira a integra-lo a dinâmica do currículo escolar, proporcionando ao aluno ao longo de seus aprendizados apreensão dos acontecimentos e sua localização espaço-temporal, de forma que ele também possa contribuir em sua própria formação, de maneira integral,, utilizando o método construtivista quando são consideradas suas experiências e inquietações, que conforme Paulo Freire “é o agir em respeito a autonomia do ser do educando”.

Todos nós trazemos como forma de “ser” em nosso interior experiências ou impressões construídas pela observação, como seres humanos somos curiosos, alguns mais do que outros, mas todos somos observadores, o que falta nesta observação é a critica analítica e construtiva, a escola possui as ferramentas e orientação para uso destas ferramentas que ensinam a aprender a aprender, para fazer, ser e ter,

A partir do senso comum é possível construir uma relação com a política e a realidade social, a compreensão de suas “lógicas” nos leva a compreender que esta tudo relacionado, funcionando como partes de um grande processo, neste sentido a educação funciona como uma bússola que ira nos permitir fazer a leitura deste imenso mapa.

A geografia possui em seu amago o conhecimento que nos ensina a trafegar espacialmente dentro e fora das linhas dos mapas, compreendendo a topografia e os climas próprios de cada região, a sociologia assim como a geografia possui conhecimentos científicos que permitem a leitura do mundo político, a compreensão das relações é uma das tarefas da sociologia, o professor que esta presente no cotidiano dos alunos é uma das referencias do aluno, a outra referencia é a escola como instituição que garante ao aluno a possibilidade deste aluno construir sua cidadania.

O domínio das ferramentas que permitem ao aluno fazer a leitura do mundo político, lhe possibilita analisar e refletir acerca da realidade vivida, este aluno que esta entrosado, consegue superar as barreiras dos limites do senso comum, passando para outra etapa munido de armas, tais armas lhe darão condições de enfrentar uma guerra que é travada no cotidiano, assim o aluno deixa de ser uma pessoa passiva e passa a ser militante consciente, fazendo escolhas mais coerentes.

 

sábado, 27 de novembro de 2021

A AMPULHETA e os Devaneios Filosóficos

 

AMPULHETA, nosso conhecidíssimo relógio de areia é o número oito e o infinito presentes na vida de todo ser humano, o monge de Charters, Luitprand que viveu no século VIII, este monge foi responsável por esta brilhante invenção inicialmente criada para a medição do tempo, o nome ampulheta tem origem na língua romana, de onde vinha o vocábulo ampulla, que quer dizer redoma, até hoje este objeto é alvo de admiração e com o passar do tempo lhe foram atribuídos muitos sentidos e metáforas bastante utilizadas em nosso cotidiano.

A ampulheta é objeto da criatividade humana adquirindo em sua abstração as mais variadas significações e com o tempo muitas convenções foram criadas como por exemplo a representação abstrata do número oito que na tradição judaica representa a conclusão da criação e o início de um novo ciclo, na cabala africana representada pelo jogo de búzios trata-se da luta para se chegar ao topo em busca de poder e prestigio, podendo ser um caminho tempestuoso e até incontrolável.

Já a ampulheta deitada está associada ao símbolo do infinito, representando o ilimitado num fluxo sem início e sem fim, sem nascimento e morte envolvendo a dualidade física-espiritual, terrena-divina, aos ciclos a que nossas vidas estão sujeitas, entre erros e acertos nada é definitivo, ou seja,  “Não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe...”, nesta analogia dos erros e acertos a ampulheta com seu compartimento duplo, mostra os estágios entre alto e o baixo, assim como a necessidade de que o fluxo ocorra constantemente.

Em nossas abstrações poderíamos olhar a ampulheta e associa-la ao símbolo Yn e Yang, de certa maneira o corpo duplo da ampulheta poderiam ser o Yin Yang como o princípio das dualidades presentes na natureza, onde o positivo não vive sem o negativo e vice e versa, em sua dualidade percebemos que a vida também é esta composição de forças opostas necessitando uma da outra para existir, o mundo é composto por essas forças opostas e achar o equilíbrio entre elas é essencial, a ampulheta com seu gargalo cuida de refinar a passagem das energias ora de um lado ora do outro, o movimento do girar da ampulheta dá a vida a energia como um pulsar de um coração nos empurrando sempre em direção de mais vida.

Neste processo de renovação da vida é regida pela experiência do viver sem perder de vista o tempo de kairós, o tempo da oportunidade, a oportunidade é como cavalo encilhado que não pode ser simplesmente ignorado, como cada granulo de areia passando de um lado a outro que só retornará como o escoar de toda a areia, então mesmo sabendo que algumas oportunidades exigirão luta e muito trabalho é importante estar atento as oportunidades.

A Vida acontece em nós no intervalo de tempo entre o primeiro e o último grão de areia, não deixe de amar mesmo quando a relação parecer sem sentido ou monótona, a vida não é monótona ela é como a areia fluindo lado a outro dos cones de vidro, a vida está em constante movimento e transferências de momento a outro, e naturalmente recebe a ação da gravidade que empurra a areia para baixo, cabe a nós virarmos a ampulheta num movimento de renascimento e renovação, uma nova oportunidade, a oportunidade que nos damos quando mudamos nossa maneira de ver as coisas e o mundo, através de nossas atitudes do dia a dia de vida é que darão a sinfonia para esta orquestra maravilhosa tocar em harmonia, não deixe de amar, nosso tempo aqui é breve e o intervalo de tempo aqui é desconhecido.