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domingo, 21 de setembro de 2025

Paixões Caóticas

E os dramas individuais: o tumulto do eu nas dobras do social

Na superfície calma dos encontros cotidianos, por trás dos sorrisos protocolares e dos gestos repetidos, há uma torrente. Um redemoinho afetivo que mistura desejo, medo, vaidade, ressentimento e uma necessidade desesperada de reconhecimento. Chamamos isso de vida emocional, mas talvez fosse mais honesto dizer vida em turbulência. As paixões, ao contrário do que sugerem os manuais de autoajuda, não são forças sutis a serem domadas, mas potências caóticas que configuram os dramas individuais e os lançam no teatro social.

A tradição filosófica moderna já apontava essa direção. Baruch Spinoza, em sua Ética, defende que as paixões são afetos que nos capturam e nos fazem agir sem clareza — somos passivos diante delas, perdemos a autonomia. Para ele, o caminho da liberdade passa por compreender as paixões, transformando-as em ações racionais. Mas como fazer isso num mundo em que o social não apenas provoca essas paixões, mas as exalta?

Pierre Bourdieu, com sua noção de habitus, oferece uma lente sociológica para pensar essa captura. Segundo ele, nossos esquemas de percepção e ação são moldados por experiências sociais internalizadas — o que desejamos, tememos ou invejamos não é apenas nosso, é aprendido. Nossos dramas são individuais apenas na forma; no conteúdo, são coletivos. O amor não é apenas uma entrega íntima, é também o reflexo de normas de gênero, de status, de distinção. O ciúme, por sua vez, não é apenas dor de perda, mas um grito pelo valor simbólico do eu ameaçado.

O filósofo romeno Emil Cioran vai mais fundo: “As paixões nos degradam menos do que nos desorganizam”, escreve. Ele entende que o drama de viver não é uma questão moral, mas existencial — somos expostos, expostos demais. As paixões nos jogam contra nós mesmos, e o que chamamos de “drama pessoal” é, na verdade, um colapso entre o que esperamos ser e o que de fato somos quando as estruturas sociais se dissolvem em emoção.

Num tempo de redes sociais, onde as emoções são capitalizadas em likes, e os dramas individuais ganham visibilidade em forma de espetáculo, a velha oposição entre o íntimo e o público colapsa. O indivíduo moderno vive não apenas suas paixões, mas a performance delas. Judith Butler, com sua teoria da performatividade, mostra que não há expressão pura do eu, apenas repetições de gestos culturalmente reconhecíveis. O drama individual, então, é sempre ensaiado num palco que já estava montado antes de nascermos.

O que resta? Talvez uma ética da consciência afetiva. Não a negação das paixões, mas a escuta das suas origens sociais, a tradução dos seus gritos em linguagem crítica. Talvez não sejamos donos dos nossos dramas, mas podemos nos tornar narradores mais lúcidos deles.

Como disse Simone Weil: “O deserto é o único lugar em que podemos ver as coisas como são.” Talvez seja hora de criar desertos interiores para ver, com sobriedade, os rastros caóticos das paixões e dos dramas que, embora nossos, são também espelhos do mundo.


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Signos de Distinção

Entre a Aparência e o Reconhecimento

É curioso observar como, mesmo nas situações mais banais, buscamos destacar algo que nos diferencie. A escolha de uma roupa, o modo como assinamos um e-mail, a marca de celular que exibimos sobre a mesa do café: tudo isso pode parecer trivial, mas carrega uma intenção silenciosa de afirmar quem somos — ou, pelo menos, quem gostaríamos de ser. Esses sinais sutis, às vezes imperceptíveis para quem os ostenta, funcionam como códigos sociais que comunicam pertencimento e hierarquia. São os chamados signos de distinção.

No cotidiano, eles aparecem em diversas camadas: o adolescente que usa determinado tênis para não se sentir excluído, o trabalhador que ostenta uma gravata de marca, ou mesmo quem prefere dizer que não se importa com moda — gesto que, paradoxalmente, também é uma forma de se distinguir. A distinção, nesse sentido, não está apenas no luxo ou no excesso, mas também na negação dele.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua obra A Distinção, mostrou como o gosto não é apenas expressão individual, mas produto de um contexto social que define o que é “fino”, “culto” ou “legítimo”. O gosto é, assim, uma forma de poder: escolher determinado prato, ouvir certo estilo musical ou decorar a casa de um jeito específico são escolhas que comunicam mais do que preferências pessoais — elas marcam posição em um campo social, desenhando fronteiras invisíveis entre classes, grupos e estilos de vida.

Mas há uma dimensão ainda mais filosófica: os signos de distinção revelam a fragilidade de nossa identidade. Como não conseguimos sustentar apenas com o “ser” a nossa presença no mundo, recorremos ao “parecer”. O sujeito veste, consome e fala como se dissesse ao outro: “olhe para mim, reconheça-me, dê-me um lugar”. Assim, a distinção é também um pedido de reconhecimento.

Na vida contemporânea, essa lógica se intensificou com as redes sociais, onde cada detalhe pode ser transformado em signo: a foto de um prato, a legenda elaborada, a viagem registrada. Se antes o símbolo estava na roupa de gala ou no automóvel importado, hoje ele se multiplicou em microgestos que disputam atenção no fluxo digital. O “like” é a moeda que confirma a eficácia do signo.

Talvez a questão mais profunda seja: até que ponto esses signos de distinção nos aproximam dos outros ou nos afastam? Eles podem ser pontes, quando se transformam em partilha de experiências e afinidades; mas podem ser muros, quando se tornam barreiras de exclusão e desprezo.

Como observou Bourdieu, a luta pela distinção é interminável, porque, assim que um grupo se apropria de um signo, outro precisa inventar um novo para se diferenciar. É um jogo sem fim — e talvez o exercício filosófico esteja em perceber esse movimento e, de vez em quando, suspender o jogo, buscando formas de ser que não dependam tanto daquilo que carregamos como marcas externas.

domingo, 17 de agosto de 2025

O Condicionamento

...e a Realidade Não Escolhida

Acordar pela manhã, escovar os dentes, tomar café, sair para o trabalho. Esses gestos cotidianos — rotineiros, automáticos, sem reflexão — são pequenas amostras do que se pode chamar de condicionamento existencial. Mais do que hábitos, são engrenagens de um modo de ser que se impõe com tal força que nos faz perguntar: essa vida que vivo, fui eu quem escolhi?

A questão não é nova. Mas permanece urgente. Porque por trás do automatismo da vida, há o fantasma do falso eu, termo que D. W. Winnicott, psicanalista britânico, usou para descrever uma espécie de máscara que desenvolvemos para sobreviver à expectativa dos outros. Um eu adaptado, funcional, mas não autêntico. Através dele, tomamos decisões, formamos vínculos, escolhemos caminhos. E, no entanto, somos nós?

O falso eu que decide

Segundo Winnicott, o falso self surge quando a espontaneidade da criança é abafada por exigências externas — pais, escola, sociedade. Ele não é inteiramente negativo: protege, organiza, torna possível a convivência. Mas, quando predomina, suprime o verdadeiro self, aquele que seria a fonte de experiências autênticas. Vivemos, assim, sob um regime de escolhas que não são verdadeiras escolhas, mas repetições.

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, aprofunda esse raciocínio ao falar do habitus: um conjunto de disposições incorporadas socialmente que orienta nossas práticas. Ele argumenta que muito do que fazemos não é resultado de deliberação consciente, mas de esquemas internalizados ao longo da vida. O corpo já sabe como se portar num jantar de negócios ou como se vestir para um funeral, mesmo que nunca nos perguntemos por quê.

Entre o automático e o despertar

A pergunta que se impõe é: como despertar? Como furar o véu do condicionamento?

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Sabedoria da Vida, afirma que a liberdade não é fazer o que se quer, mas tornar-se consciente das forças que nos movem. Para ele, o primeiro passo é observar-se no ato, assistir à própria mente. Quando tomamos consciência de um impulso antes de ceder a ele, abrimos um espaço de escolha verdadeira. Esse espaço é onde o verdadeiro eu começa a respirar.

Essa ideia encontra eco em Viktor Frankl, psiquiatra austríaco sobrevivente de Auschwitz, que afirmou: “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher nossa resposta. E, na nossa resposta, reside o nosso crescimento e liberdade.”

Mas como acessar esse espaço se tudo em nós foi treinado para responder sem pensar?

A sociedade como máquina de condicionamento

A resposta passa pela crítica da sociedade contemporânea. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, argumenta que vivemos sob uma forma sutil de opressão: não mais a repressão externa, mas o excesso de positividade, desempenho e escolha. Somos livres para escolher, mas a estrutura nos leva a escolher sempre dentro de um repertório estreito, que nos esgota.

As redes sociais, o consumo, o culto à produtividade — tudo isso contribui para manter-nos ocupados demais para despertar. A ilusão da escolha constante é um modo eficaz de evitar a verdadeira liberdade: aquela que exige silêncio, vazio, pausa e autoconfronto.

A realidade não escolhida e a escolha por vir

Você diz que talvez não tenha escolhido conscientemente essa realidade. E talvez tenha razão. A maioria de nós chega à vida adulta com uma bagagem de decisões tomadas no escuro: profissão, relacionamentos, ideologias, valores herdados. Somos produto de histórias não contadas e escolhas herdadas. Mas isso não nos condena à repetição.

Como escreveu Søren Kierkegaard, “a angústia é a vertigem da liberdade”. Quando percebemos que poderíamos ter escolhido diferente — e que ainda podemos — algo se move. Angustiante, sim. Mas também libertador. Porque não importa onde estamos, há sempre um pequeno espaço de decisão. Um gesto novo. Um olhar mais lúcido. Um ato contra a corrente.

O começo do gesto

Não somos inteiramente livres, mas também não somos inteiramente prisioneiros. A ideia de que estamos condicionados por um falso eu, por estruturas sociais invisíveis e por automatismos psíquicos é, em parte, verdadeira. Mas a consciência dessa prisão é o começo da fuga.

Talvez a realidade que vivemos não tenha sido escolhida. Mas a realidade que virá — essa pode ser. Desde que não busquemos escolhas grandiosas de uma vez só, mas pequenos desvios. Um pensamento não repetido. Um hábito desfeito. Um "não" dito com coragem. A cada gesto assim, a realidade muda. E o eu desperta.


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Ansiedade da Performance

Exaustos de Nós Mesmos: a obrigação de performar o eu na era digital

Numa manhã qualquer, abrimos o celular e já somos lançados num universo de vidas editadas. Sorrisos, conquistas, corpos, viagens, produtividade — tudo embalado num brilho de sucesso contínuo. Não é mais necessário ser feliz; basta parecer. E parecer muito. De preferência com carisma, autenticidade e filtros bem escolhidos. Nessa maratona silenciosa de aprovação, o eu se transforma num projeto de marketing. Vivemos, muitas vezes, menos para estar e mais para mostrar. E o resultado não é glória — é exaustão.

Retomar este tema para reflexão me parece importante, visto que não temos como negar a inundação de situações reais que a cada dia a quantidade supera a do dia anterior, por isto vamos explorar a questão.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho trouxe um novo tipo de opressão: a autoexploração disfarçada de liberdade. Hoje, somos pressionados a ser produtivos, criativos, positivos, resilientes e excepcionais — o tempo todo. Não há mais um patrão externo exigindo resultados; somos nós mesmos que nos cobramos, num ciclo ininterrupto de superação. “Yes, we can” (Sim, nós podemos) virou sentença. A liberdade de ser se converteu na prisão do dever constante de melhorar.

No campo da sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender como essa lógica do desempenho se estrutura socialmente. O prestígio nas redes sociais, por exemplo, é uma forma de capital simbólico — aquele que dá visibilidade e reconhecimento. Curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos são novas formas de moeda. Quem acumula, ganha poder. Quem não participa, some. A obrigação de estar sempre visível cria uma economia da atenção em que a subjetividade se curva aos algoritmos. Não basta viver: é preciso performar a própria existência com consistência e carisma.

Essa lógica de espetáculo já havia sido anunciada por Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo. Para ele, o mundo moderno substituiu o ser pelo parecer: tudo se torna imagem, inclusive a dor. O luto, a solidão, a superação — tudo pode e deve ser exibido, com a devida estética. Nesse contexto, a vida só ganha sentido social se puder ser consumida. Assim, cada pessoa se torna uma vitrine, e o “eu” vira mercadoria.

Há também um efeito existencial profundo. Em Ser e Tempo, Heidegger discute a existência inautêntica — quando vivemos segundo o que os outros esperam, e não segundo nossa própria verdade interior. Nas redes, essa inautenticidade se amplifica: passamos a nos moldar de acordo com as expectativas alheias, com o que é mais comentado, compartilhado, desejado. O “eles”, como diz o filósofo, passa a nos habitar. Deixamos de ser para nos tornarmos personagens de um script coletivo.

Esse movimento não se restringe aos jovens ou aos influenciadores. Ele se espalha pelo mundo do trabalho, onde cada profissional precisa “vender sua imagem” com inteligência emocional, marca pessoal e presença digital ativa. Os currículos foram substituídos por portfólios públicos. A naturalidade, pelo networking constante. Mesmo a pausa virou performance: descanso com propósito, viagem com storytelling, silêncio com legenda.

Na juventude, a pressão é pelo destaque. Ninguém quer ser mediano. O ordinário virou sinônimo de fracasso. Na velhice, o dilema é outro: manter-se relevante. Muitos se sentem expulsos de um jogo cuja linguagem já não dominam. A obsolescência social não é mais só tecnológica — é existencial. O tempo se tornou um concorrente, e a idade, um risco de invisibilidade.

Mas talvez ainda haja uma saída. Não grandiosa, não revolucionária, mas sutil e silenciosa. Pode começar com um gesto pequeno: escolher não publicar um feito, não responder uma provocação, não performar o descanso. Recuperar o gosto pelo anonimato, pela insignificância produtiva, pela liberdade de simplesmente existir — sem que isso precise virar conteúdo. Como escreveu o poeta Manoel de Barros:

“O que a gente não inventa, vira.”

E talvez seja isso que nos falte: menos invenção de si e mais vir-a-ser.

Menos brilho e mais verdade.

Menos performance e mais presença.


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Percepção Social

O espelho onde o outro nos devolve

Vivemos imersos em redes de relações, mas nem sempre percebemos que a forma como vemos o outro — e como somos vistos — molda profundamente a realidade social. A percepção social não é uma simples reação ao que os olhos captam; ela é carregada de interpretações, expectativas, estereótipos e afetos. Ela é, como escreveu o sociólogo Erving Goffman, uma espécie de "encenação", onde cada indivíduo apresenta uma versão de si mesmo conforme o palco social em que se encontra. Somos, nesse sentido, atores e espectadores ao mesmo tempo, sempre atentos às reações alheias.

Do ponto de vista filosófico, a percepção social toca uma questão antiga: o reconhecimento. Georg Wilhelm Friedrich Hegel já argumentava, na sua dialética do senhor e do escravo, que o ser humano só se constitui plenamente quando reconhecido pelo outro. A percepção social, então, não é apenas uma forma de conhecer o mundo — é também o campo onde buscamos validação, pertencimento, identidade.

Maurice Merleau-Ponty, filósofo da fenomenologia, chama atenção para o corpo como meio de percepção do mundo. Quando alguém cruza a rua ao nos ver, por exemplo, ou desvia o olhar num elevador, seu corpo comunica uma leitura social — muitas vezes inconsciente — de quem somos. Assim, a percepção social acontece tanto no discurso quanto no gesto, no olhar e no silêncio.

Na sociologia contemporânea, Pierre Bourdieu fala em “habitus”: um conjunto de disposições incorporadas que guiam nossa percepção do mundo social. O modo como julgamos alguém pela roupa, pela fala ou pelos modos, não é apenas preconceito individual — é o reflexo de uma estrutura social que nos treinou para “ver” as pessoas de determinadas formas. A percepção social, nesse caso, perpetua desigualdades porque naturaliza distinções simbólicas.

Em resumo, a percepção social é o filtro pelo qual navegamos o mundo e nele nos inserimos. Ela revela tanto nossas ideias sobre o outro quanto sobre nós mesmos. Ela pode aprisionar — quando cristaliza estereótipos —, mas também libertar — quando nos abre para enxergar o outro em sua complexidade. Como alerta Frantz Fanon: “Não sou prisioneiro da ideia que os outros têm de mim.” Mas, para isso, é preciso primeiro perceber que essa ideia existe — e nos afeta.


Valor Social

Entre o que se mede e o que se reconhece

Na vida cotidiana, falamos de “valor social” como se fosse uma moeda invisível que cada pessoa carrega no bolso. Ela circula nos corredores das empresas, nas rodas de amigos, nas redes sociais e até nos silêncios familiares. Só que, diferente do dinheiro, o valor social não é emitido por um banco central: ele nasce de relações, percepções e narrativas que a comunidade constrói sobre cada um de nós. É, portanto, tanto uma medida de prestígio quanto uma forma de pertencimento.

Se pensarmos na lógica econômica, o valor se associa ao que pode ser trocado, quantificado, precificado. Mas no plano sociológico, especialmente no que Pierre Bourdieu chamaria de capital simbólico, o valor social se manifesta como reconhecimento — algo que não depende apenas do que fazemos, mas de como nossa ação é interpretada pelos outros. Assim, alguém pode ter alto valor social em um bairro, por ser “aquele vizinho que sempre ajuda”, mas nenhum valor num espaço corporativo que só reconhece títulos e cargos.

A questão se torna mais complexa quando percebemos que o valor social não é fixo. Ele é dinâmico, podendo se transformar de acordo com o contexto histórico, a mudança das normas coletivas e até a maneira como se narram nossas histórias. Um professor, por exemplo, podia ter alto valor social no início do século XX pelo seu papel moralizador; hoje, sua posição é frequentemente corroída por discursos que desvalorizam a educação, mesmo que sua importância social permaneça inquestionável.

O filósofo brasileiro José de Souza Martins observa que a modernidade cria zonas de visibilidade e invisibilidade social. O valor de alguém, nesse sentido, não é apenas o que ele é, mas também se a sociedade lhe oferece luz para existir publicamente. Há, portanto, um jogo político no reconhecimento: quem controla os holofotes, controla o valor.

Vamos pensar em três situações do cotidiano que ajudam a ilustrar essas mudanças:

  1. No trabalho — Um funcionário que sempre resolve problemas internos, mas não aparece em relatórios ou reuniões de destaque, pode ter alto valor social entre colegas diretos, mas quase nenhum para a diretoria, que só reconhece resultados documentados e visíveis.
  2. Na comunidade — Um líder comunitário que organiza mutirões e media conflitos pode ser visto como essencial para o bairro, mas invisível para políticas públicas que medem importância apenas por cargos e representações oficiais.
  3. Nas redes sociais — Uma artista com poucos seguidores, mas admirada e respeitada no circuito cultural local, pode ser ignorada pela lógica digital, que atribui valor quase exclusivamente a números de curtidas e engajamento, ignorando a profundidade do impacto real de sua obra.

No mundo hiperconectado, o valor social também se tornou um produto de curadoria pessoal. A exposição em redes sociais cria uma espécie de bolsa de valores da imagem, onde curtidas e seguidores funcionam como indicadores instáveis de prestígio. Só que, como toda bolsa, ela é sujeita a crises: um escândalo, uma mudança de algoritmo ou uma nova tendência podem transformar “alta” em “baixa” da noite para o dia.

A pergunta final talvez seja: até que ponto buscamos valor social para pertencer e até que ponto o fazemos para nos distinguir? A sociologia mostra que as duas forças são inseparáveis. Pertencer nos dá segurança; distinguir-se nos dá sentido. Entre esses polos, o valor social não é apenas um reflexo do que fazemos, mas do que a sociedade, no fundo, deseja que sejamos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Cultura Burguesa

“O que é cultura quando já não há necessidade de criar, mas apenas de preservar a aparência de civilização?”

É possível estar dentro de uma cultura e, ao mesmo tempo, não vê-la? Como o peixe que ignora a água, a cultura burguesa se tornou, para muitos, o pano de fundo invisível da vida cotidiana. Ela não se apresenta apenas em obras de arte, modas ou ideologias explícitas, mas está na lógica com que organizamos nosso tempo, atribuímos valor às coisas, elegemos o sucesso e suportamos o fracasso. Este ensaio propõe uma análise filosófica e sociológica da cultura burguesa como forma dominante de subjetivação, poder e estética na modernidade, revelando seu percurso histórico, suas contradições e seus efeitos sobre o indivíduo e a coletividade.

I. Origens: a burguesia como classe revolucionária

No século XVIII, a burguesia foi o motor de uma das maiores transformações históricas da humanidade. Ao romper com a ordem feudal e absolutista, encarnou a promessa da liberdade individual, da propriedade privada e do progresso racional. Marx e Engels, no Manifesto Comunista, reconhecem o papel histórico da burguesia como a classe que “revolucionou continuamente os meios de produção” e dissolveu “todas as relações fixas e enferrujadas”. Para eles, a burguesia foi inicialmente uma força libertadora — mas ao custo de subordinar todas as esferas da vida à lógica do capital.

Se antes cultura era expressão de um ethos aristocrático, de uma identidade orgânica entre arte e religião, com a ascensão da burguesia, a cultura começa a adquirir feições utilitárias, reprodutíveis, domesticáveis. A arte se torna mercadoria, a educação um investimento, o gosto uma forma de distinção.

II. Cultura como distinção: Bourdieu e o gosto burguês

Pierre Bourdieu, em A Distinção, lança uma das críticas mais incisivas à cultura burguesa moderna: ela se legitima como “cultura superior”, mas é, antes de tudo, uma cultura de dominação simbólica. O que chamamos de “bom gosto” ou “refinamento” nada mais é do que a estetização de um privilégio de classe. A burguesia cultiva, organiza e reproduz uma forma de vida que se pretende universal, mas é profundamente excludente. O acesso a museus, concertos, literatura clássica ou mesmo a determinados modos de falar e se vestir são formas sutis de marcar diferença e afirmar superioridade.

No cotidiano, essa lógica se traduz em micropráticas: o tipo de café que se bebe, a escolha da escola dos filhos, o bairro onde se mora. A cultura burguesa não é só o que se consome, mas o modo como se habita o mundo — com um constante esforço de distinção.

III. O sujeito burguês: liberdade ou performance?

O sujeito burguês, desde Kant, é aquele que pensa por si mesmo, que assume sua autonomia e age conforme sua razão. Mas essa imagem entra em crise com o avanço do capitalismo tardio. A racionalidade instrumental descrita por Max Weber transforma o mundo num sistema de engrenagens, em que tudo é mensurado, planejado, avaliado. A cultura burguesa se torna então uma performance permanente — onde o eu precisa dar certo, mostrar resultado, ter um plano.

Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que a cultura burguesa contemporânea trocou o dever pelo desempenho. Não se é mais reprimido por um pai severo, mas por si mesmo — pela obrigação de estar sempre produtivo, saudável, informado, conectado, interessante. O sujeito burguês moderno, longe de ser livre, está aprisionado num espelho onde só vê a si mesmo como projeto de sucesso.

IV. Estetização da vida: da arte à aparência

A cultura burguesa desenvolveu um culto à estética que transcende a arte. Walter Benjamin já havia diagnosticado esse movimento em A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, mostrando como a aura da arte foi dissolvida pela sua industrialização — e como a cultura burguesa reagiu estetizando tudo: desde o urbanismo até a política.

Hoje, essa estetização é visível nas redes sociais, nos interiores instagramáveis, nos rituais do consumo gourmet. Tudo é aparência, tudo é curadoria de si mesmo. A cultura burguesa não precisa mais de museus, pois ela transformou o cotidiano em vitrine. Mas essa estética esconde uma fragilidade: o medo do vazio, da insignificância, da falência simbólica.

V. Resistência e alternativas

Mas a cultura burguesa, embora hegemônica, não é invulnerável. Ela é constantemente desafiada por formas culturais marginais, populares, periféricas, indígenas, afrodescendentes. Essas culturas não apenas denunciam as exclusões do modelo burguês, mas propõem formas outras de viver, de estar no mundo, de narrar o tempo.

Boaventura de Sousa Santos fala da “sociologia das ausências”, que busca dar visibilidade a experiências e saberes silenciados pela razão ocidental burguesa. A cultura burguesa, com seu racionalismo, seu individualismo e seu culto ao sucesso, se mostra, cada vez mais, como uma cultura da escassez simbólica. Frente às crises ecológicas, sociais e espirituais do presente, talvez seja hora de buscar outros modos de cultura — menos performáticos e mais relacionais.

Cultura como escolha de mundo

A cultura burguesa não é apenas uma forma de viver, mas uma forma de escolher o mundo — um mundo onde o valor é mensurado em status, desempenho e estética. Ela teve sua função histórica, mas também carrega contradições que hoje se tornam insuportáveis para muitos.

Se a cultura é o solo onde se semeia o sentido, talvez devamos perguntar: que tipo de cultura pode florescer um mundo mais justo, mais sensível, mais habitável?

Como escreveu Nietzsche: "É preciso ter o caos cá dentro para gerar uma estrela dançante." Talvez esteja na hora de permitir que outras estrelas brilhem — mesmo que à custa de romper com a velha e segura elegância burguesa.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Paradoxo do preconceito

Ele é sempre ruim ou pode ajudar a construir conhecimento?

Preconceito é uma palavra que costuma carregar um peso negativo — e não à toa. Quando pensamos em preconceito, lembramos de injustiças, exclusões, julgamentos apressados. Mas e se a história for um pouco mais complexa? E se parte do preconceito for, paradoxalmente, necessária para que a gente entenda o mundo?

Esse é o paradoxo do preconceito: ele pode ser tanto um erro social perigoso, quanto uma ferramenta provisória do pensamento humano.

 

Preconceito como base do conhecimento

Vamos por partes. Antes de se tornar algo negativo, o preconceito é, em sua essência, um juízo antecipado — uma ideia formada antes da experiência direta. E isso é, em muitos casos, inevitável.

Por exemplo: você está caminhando no mato e vê algo se mexendo entre as folhas. Parece uma cobra. Você não espera para conferir se ela é venenosa ou inofensiva. Age com base num julgamento rápido, que pode salvar sua vida. Isso é um preconceito instintivo, e faz parte do nosso kit de sobrevivência.

Esse tipo de julgamento também aparece em situações mais sutis: desconfiamos de um beco escuro, ficamos atentos a alguém que fala com agressividade, temos receio de um alimento com cheiro estranho. Nosso cérebro está o tempo todo fazendo “atalhos” para economizar energia mental. Isso é natural.

O filósofo Hans-Georg Gadamer dizia que não começamos a entender nada do zero. Todo conhecimento novo parte de pré-compreensões que já temos. O problema é quando essas ideias prévias deixam de ser provisórias e viram certezas inflexíveis.

 

Preconceito como obstáculo social e moral

E é aí que o preconceito se torna um problema sério. Quando esse julgamento rápido vira uma convicção fechada sobre o outro — sem espaço para escuta, sem chance de revisão — ele não ajuda mais, ele atrapalha.

Imagine um professor que defende a inclusão e critica o racismo, mas na hora de selecionar candidatos para uma bolsa, exclui automaticamente quem tem sotaque do interior ou quem estudou em escola pública, porque “não se encaixa no perfil”. Sem perceber, ele está praticando exatamente o tipo de exclusão que diz combater.

Ou alguém que luta contra a homofobia, mas faz piadas com religiões. Ou a pessoa que se orgulha de ser “tolerante”, mas não aceita nenhuma opinião diferente da sua. É o paradoxo de combater o preconceito com preconceito.

Outro exemplo comum é a famosa frase: “Não sou preconceituoso, até tenho amigos [desse grupo].” Como se a exceção justificasse a regra. A pessoa não percebe que está tentando negar um sistema inteiro de discriminação com base em um caso isolado — o que, na verdade, reafirma o preconceito.

 

Reconhecer para transformar

O sociólogo Pierre Bourdieu explicava que os preconceitos mais perigosos são justamente os que não reconhecemos como preconceito — porque já estão naturalizados. Eles se escondem no “jeito certo de falar”, na “aparência profissional”, no “quem tem cara de liderança”. Ele chamava isso de violência simbólica: quando ideias arbitrárias parecem naturais, como se fossem parte da ordem do mundo.

Já o filósofo Immanuel Kant lembrava que nossa mente opera com estruturas que antecedem a experiência, mas que o verdadeiro conhecimento exige revisão constante dessas estruturas. Ou seja: preconceitos existem, mas precisam ser colocados à prova.

 

O ponto de partida não pode ser o ponto final

O preconceito pode ser um ponto de partida provisório do pensamento, uma forma de navegar rapidamente pelo desconhecido. Mas ele não pode ser o ponto final. Quando vira uma sentença definitiva sobre os outros, ele deixa de ser ferramenta e passa a ser prisão.

Por isso, o verdadeiro antídoto contra o preconceito não é só “não ter preconceito” — isso é impossível —, mas reconhecer os próprios vieses, questioná-los e estar disposto a mudá-los.

Como escreveu Albert Camus:

“Nomear um preconceito já é começar a se libertar dele.”


quinta-feira, 17 de julho de 2025

Ideologia do Trabalho

O que nos move e o que nos esgota

Nunca saímos do momento presente! Esta frase não sai da minha mente, ela fica martelando a cabeça o tempo todo, eis que meus pensamentos me conduziram naquilo que a maioria das pessoas faz que é trabalhar, o ser humano de maneira geral adquire valor através do trabalho, pelo menos é assim que nosso mundo entende, mas nem sempre o trabalho foi visto como valor. Já foi castigo divino, obrigação de escravos, necessidade dos pobres. Hoje, ele se confunde com identidade: quem é você? “Sou dentista.” “Sou entregador.” “Sou gerente.” O verbo “ser” aparece antes mesmo de qualquer outra coisa — como se o que fazemos definisse quem somos. Na verdade, penso que estamos por enquanto, agora uma coisa e daqui a pouco outra.

Mas de onde vem essa ideia? Por que tantas pessoas se sentem culpadas quando não estão produzindo? Por que o desemprego causa vergonha, mesmo quando não é culpa de ninguém?

A resposta começa com um olhar sociológico: o trabalho é uma construção social. Ele não é natural, nem sempre teve o mesmo sentido. A forma como pensamos e sentimos o trabalho é atravessada por ideologias — sistemas de crenças que nos ensinam o que é certo, o que é bonito, o que é digno — e também por experiências psicológicas que marcam profundamente nossa relação com o mundo e conosco.

 

A maquiagem ideológica do trabalho

Na sociedade capitalista, o trabalho é exaltado como virtude. Desde pequenos, aprendemos que “quem trabalha vence” e que “o esforço traz recompensa”. Essas frases soam nobres, mas muitas vezes escondem realidades duras.

Um exemplo atual é o do entregador de aplicativo. Ele pedala o dia inteiro, sem salário fixo, sem direitos, sem proteção social. Mas as empresas o chamam de “empreendedor”. Essa ideia é uma maquiagem ideológica: transforma um trabalhador precarizado em um herói moderno da liberdade. Ao dizer que ele “é seu próprio patrão”, esconde-se que ele está preso a um sistema algorítmico, instável e impessoal.

Essa ideologia do empreendedorismo individual vende liberdade, mas entrega solidão e risco. A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso recai apenas sobre o sujeito, nunca sobre o sistema.

 

A psicologia de quem se sente culpado por não render

A consequência disso aparece no plano psicológico. Muitos trabalhadores internalizam a ideia de que não estão se esforçando o suficiente. Mesmo exaustos, pensam que precisam “fazer mais”, “entregar mais”, “ser melhores”. O cansaço vira fracasso pessoal.

Além disso, vivemos hoje sob a promessa do “trabalho com propósito”. Não basta mais pagar as contas — o trabalho tem que ser apaixonante. Essa exigência cria angústia. Afinal, e se meu trabalho não for incrível? E se eu não amar o que faço? A culpa bate como se a vida estivesse errada.

E o desemprego, então? Ele não é só falta de renda — é quase um luto. A pessoa perde não só o salário, mas também o sentido, o pertencimento, a rotina. A ideologia do mérito ensina que “quem quer, consegue”, e o desempregado passa a se sentir um fracassado, mesmo sendo vítima de uma crise, de uma reestruturação, de algo muito maior do que ele.

Não se pode ignorar que há religiões que associam o sucesso profissional e a melhoria das condições de vida a uma espécie de reconhecimento ou bênção divina. Nesse contexto, aqueles que não conseguem progredir, obter um emprego digno ou melhorar sua situação econômica podem acabar se sentindo excluídos desse suposto favor divino. Psicologicamente, isso pode gerar um profundo sentimento de rejeição, como se o amor de Deus não os alcançasse. O resultado é uma carga emocional de frustração, derrota e desânimo — sentimentos que, longe de impulsionar a pessoa, muitas vezes a paralisam e dificultam ainda mais seu progresso.

 

A sociologia que desnaturaliza tudo

A sociologia nos convida a olhar tudo isso com outros olhos. Ela mostra que o trabalho, como o conhecemos, foi moldado por séculos de disputas, transformações e imposições culturais. A ideologia faz com que certas formas de trabalho sejam vistas como “superiores” (advogado, médico), enquanto outras, essenciais, sejam desvalorizadas (faxineiro, motorista, cuidadora).

O sociólogo Max Weber, por exemplo, analisou como a ética protestante ajudou a criar a ideia moderna do trabalho como dever moral. Já Karl Marx denunciou a alienação: o trabalhador moderno perde o controle sobre o que produz, e ainda assim é convencido de que deve se orgulhar disso. Pierre Bourdieu mostrou como o trabalho também é um capital simbólico — ele dá prestígio, status, reconhecimento, ou a falta disso.

E entre os brasileiros, José de Souza Martins nos lembra que o trabalho é, ao mesmo tempo, meio de inclusão e exclusão. Ele pode dignificar ou degradar. Pode dar sentido ou sugar a alma.

 

Entre o dever e a identidade

No fim das contas, o trabalho está no centro de uma encruzilhada. Ele é necessário, mas também pode ser opressor. Pode ser fonte de autoestima ou de adoecimento. E muitas vezes, as ideologias nos ensinam a amar o que nos explora, e a nos culpar pelo que nos falta.

Por isso, entender o trabalho não é só falar de salário, função ou carreira. É também entender como nos construímos como sujeitos — e como podemos nos libertar, aos poucos, da ideia de que o trabalho define todo o nosso valor.

Talvez seja hora de recuperar o sentido mais amplo da vida: trabalhar, sim, mas também viver, pensar, sentir, pertencer. Nem toda vocação precisa ter crachá. E nem todo sucesso se mede por produção.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Padrão Cultural

Muito Além do Que a Gente Vê

Sabe aquela sensação de que, em várias situações do dia a dia, tem um jeitinho “normal” que todo mundo espera que a gente siga? Seja na forma de falar, se vestir, comer, ou até na maneira como a gente celebra as coisas — existe um conjunto invisível de regras que, no fundo, organizam tudo isso. É o que a gente chama de padrão cultural. E olha, ele está em todo lugar, mesmo quando a gente nem percebe.

Mas o que é esse tal padrão cultural, afinal? E por que a gente sempre se sente puxado por ele — às vezes querendo se encaixar, outras querendo fugir?

O Padrão Cultural como Arquitetura Invisível da Vida Social

Na filosofia e sociologia, o padrão cultural é como aquele mapa que guia o comportamento e as expectativas dentro de uma comunidade. É uma construção coletiva que nasce da repetição, da tradição, e da negociação constante entre as pessoas. Ele não é algo fixo, imutável, mas mais um fluxo, um rio que se adapta conforme a gente caminha.

Pierre Bourdieu, um dos grandes pensadores da sociologia contemporânea, chamou a atenção para o conceito de habitus: um conjunto de disposições internalizadas, que moldam o jeito de pensar, sentir e agir das pessoas. O padrão cultural é, em grande medida, isso — uma bagagem silenciosa que carregamos, às vezes sem nem saber.

Mas não para por aí. O padrão cultural é também um palco de poder. Ele decide o que é “normal” e, por consequência, o que é marginalizado ou estranho. Quem dita esses padrões? Muitas vezes, as estruturas dominantes: as elites econômicas, políticas e simbólicas. Por isso, entender os padrões culturais é também um exercício de questionar quem tem voz, quem impõe e quem fica de fora.

A Inovação do Padrão: Quando o Novo Surge do Velho

Aqui vem a parte inovadora do nosso papo: o padrão cultural não é só um guardião do passado, mas também o berço do futuro. Porque, para existir novidade, tem que haver referência — um padrão a ser quebrado, remixado, ou reinventado.

Pense na cultura pop, nas tendências de moda, nas gírias que surgem do nada e dominam as redes sociais. Tudo isso é o padrão cultural em movimento, sendo desconstruído e reconstruído em tempo real. O que parecia rígido e imutável se revela fluido, híbrido, múltiplo.

E a tecnologia só acelera esse processo, criando uma espécie de “padrão mutante” que desafia fronteiras geográficas e sociais.

Entre a Conformidade e a Rebeldia: O Jogo do Padrão Cultural

A gente vive num constante vai e vem entre se ajustar aos padrões e querer se diferenciar deles. É o que o filósofo Michel Foucault chamou de relações de poder e resistência — o padrão cultural é uma forma de poder, mas também uma arena onde surgem as resistências.

Cada gesto fora do padrão, cada expressão diferente, é um ato político. Quando alguém decide não usar o “uniforme social” esperado, está, mesmo que inconscientemente, provocando uma reflexão sobre o próprio padrão.

Por Que Isso Importa?

Entender o padrão cultural é entender como a gente constrói sentido, identidade e comunidade. É perceber que aquilo que a gente chama de “normal” é, na verdade, uma negociação contínua — e que a transformação social acontece quando essa negociação é colocada em questão.

No fundo, conhecer os padrões é também conhecer a si mesmo, porque eles moldam como a gente vê o mundo e a gente mesmo.

O Padrão Cultural Como Espaço de Criação

O padrão cultural é, portanto, uma estrutura viva, feita de tradição e inovação, poder e resistência, conformidade e rebeldia. Ele não é um muro, mas uma teia, onde cada fio pode ser puxado para mudar o desenho.

Se a gente quiser criar uma sociedade mais plural e aberta, é fundamental entender essa dinâmica e atuar nela — não para destruir os padrões, mas para reinventá-los, fazer deles pontes e não barreiras.

domingo, 25 de maio de 2025

Construção Social

Vamos falar sobre suas possibilidades...

Quando o que parece natural, na verdade, foi ensinado — e pode ser reinventado

Tem certas ideias que a gente carrega como se fossem verdades absolutas. Tipo "homem que é homem não chora", "sucesso é ter dinheiro", "menina não gosta de matemática". Mas e se eu te dissesse que muita coisa que parece natural é, na verdade, uma construção social?

Sim, muitas das nossas certezas foram aprendidas — e não nasceram com a gente. E é justamente aí que mora a boa notícia: se foi construído, pode ser reconstruído.

O que é uma construção social?

Imagina que você cresceu num mundo sem espelhos. Nunca se viu. Tudo o que sabe sobre si mesmo veio das falas dos outros. Um diz que você é bonito, outro que é desajeitado, outro que você fala demais. Com o tempo, você começa a acreditar nessas ideias e repeti-las: “sou assim”, “sou assado”.

A construção social funciona desse jeito. A sociedade molda comportamentos, gostos, papéis e identidades. A gente vai absorvendo tudo isso como se fosse parte da natureza humana — mas é cultura, hábito, costume. E por isso mesmo, pode mudar.

Três possibilidades que se abrem

1. Identidades que se reinventam

Você não precisa ser a mesma pessoa a vida toda. Se identidade é construção, então ela pode ser revista. Pode-se ser mãe e continuar artista. Pode-se gostar de tecnologia e de filosofia. Pode-se ser homem e usar saia. Não existe mais um "jeito certo" de existir — só o jeito que faz sentido pra você.

2. Novas formas de viver juntos

Se certos papéis sociais são construídos, eles não são eternos. O cuidado com os filhos não é só tarefa materna. A liderança no trabalho não precisa ser dura e fria. O sucesso pode ser medido em tempo livre, saúde mental ou vínculos profundos. A construção social nos permite inventar outras formas de viver em sociedade.

3. Menos preconceitos, mais consciência

Quando entendemos que categorias como “raça”, “beleza” ou “masculinidade” são construídas socialmente e não biologicamente, começamos a perceber o preconceito como uma distorção coletiva — e não algo natural. O racismo, por exemplo, é aprendido. E tudo o que é aprendido, pode ser desaprendido.

E na vida real?

  • No trabalho: a ideia de que chefe bom é chefe durão está sendo revista. Hoje, muitos líderes escolhem a empatia e a escuta.
  • Na escola: meninas que se sentem capazes em ciências e meninos que gostam de cuidar dos outros desafiam os velhos estereótipos.
  • No amor: não existe só uma forma de amar. A ideia de que a felicidade depende de “encontrar a metade da laranja” já parece coisa de outro século.

Bourdieu e o poder invisível do hábito

O sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou atenção pra isso com o conceito de habitus — aquele nosso jeito de ser, pensar e agir que parece natural, mas foi moldado pelas experiências sociais. Segundo ele, a sociedade age dentro de nós sem que a gente perceba. Mas, ao perceber, a gente ganha poder de escolha.

No fim das contas...

Reconhecer as construções sociais não é viver no mundo das ideias. É justamente o contrário: é abrir os olhos para o que está por trás do cotidiano. E mais do que isso — é enxergar que o mundo pode ser diferente, e que a gente pode participar dessa transformação.

É um convite à liberdade, com responsabilidade. Nem tudo precisa ser desconstruído. Mas tudo pode ser reavaliado. O que serve à dignidade humana? O que aprisiona? O que nos torna mais inteiros?

Essa reflexão é uma chave. E a porta está logo ali.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Exclusão Social

Outro dia, voltando para casa, parei no sinal e vi uma senhora sentada na calçada com um cartaz no colo. Nem consegui ler o que dizia. O que me chamou atenção foi o olhar de quem não esperava mais nada. A cidade passava por ela como se fosse uma sombra que não fizesse barulho. Foi ali, no meio do nada cotidiano, que me bateu a pergunta: como a gente aprende a ignorar tanta gente?

Vivemos cercados de gente invisível. Invisível não porque sumiu, mas porque foi sumariamente excluída. A exclusão social não é só ausência de renda, de moradia ou de acesso. É uma arquitetura inteira de não pertencimento, construída aos poucos, com pequenas demarcações de território: quem pode entrar, quem pode falar, quem pode ser ouvido.

A modernidade prometeu inclusão através do progresso. Mas o que ela entregou foi uma espécie de "conectividade seletiva". Estamos todos na rede, mas nem todos têm voz. Nem todos têm feed. Para muitos, o mundo digital é só vitrine — janela pela qual se observa a festa para a qual não foram convidados.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu ajuda a entender essa engrenagem da exclusão quando propõe o conceito de capital simbólico. Para além do dinheiro ou da força física, o valor de uma pessoa numa sociedade também depende do prestígio, do reconhecimento, do saber legitimado. Aqueles que não dominam os códigos culturais aceitos — a forma certa de falar, vestir, circular — são excluídos não só materialmente, mas também simbolicamente. A exclusão, assim, não é apenas um estado social: é um processo de negação contínua, uma marca de desvalorização que afeta até mesmo a maneira como o sujeito se enxerga.

Do ponto de vista filosófico, Emmanuel Levinas fala do rosto do outro como o lugar da ética. Ele nos convida a parar de ver o outro como objeto de análise e a começar a vê-lo como convocação. O rosto daquele que é excluído não é apenas um pedido de ajuda — é uma acusação silenciosa, um lembrete de que nosso modelo de sociedade ainda está devendo muito.

Por outro lado, podemos pensar com o brasileiro Milton Santos, que dizia que a globalização poderia ser perversa ou solidária, dependendo de quem a conduz. Para ele, havia esperança de uma outra racionalidade — uma que não marginalizasse o diferente, mas o acolhesse como peça fundamental do mosaico social.

A exclusão social é, no fundo, um espelho. Ela revela mais sobre quem exclui do que sobre quem é excluído. Revela nossos medos, nossos apegos à ordem, nossas crenças em meritocracias frágeis. Enquanto fingimos que a desigualdade é culpa do indivíduo, poupamos a estrutura.

E é justamente por isso que a exclusão social precisa ser desmontada como se desmonta uma armadilha: com cuidado, com escuta, com coragem de admitir que talvez, por omissão ou costume, tenhamos ajudado a montar esse palco onde uns poucos dançam enquanto muitos varrem o chão.

No fim das contas, talvez a verdadeira revolução não comece com grandes discursos, mas com o simples ato de parar — parar de correr, parar de julgar, parar pra olhar. E reconhecer, ali na calçada do lado, que ninguém deveria ser invisível num mundo que se diz humano.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Elogio Envenenado

É curioso como algumas frases, que à primeira vista parecem um reconhecimento, na verdade escondem um golpe bem calculado. Imagine alguém dizendo: “Você é inteligente demais para cair nessa” ou “Com a sua capacidade, tenho certeza de que entenderá meu ponto”. Parece um elogio, não é? Mas, na verdade, há algo de insidioso nessa construção: a ideia de que discordar implicaria falta de inteligência. Esse é o cerne da falácia do elogio envenenado, um recurso argumentativo que prende o ouvinte em uma armadilha sutil, onde o desejo de parecer inteligente pode sobrepor-se à busca sincera pela verdade.

Quando o Elogio é uma Arma

A falácia do elogio envenenado funciona porque brinca com uma das nossas fragilidades mais universais: a necessidade de reconhecimento. Ser visto como inteligente é uma moeda valiosa em qualquer contexto social ou intelectual. Quando alguém formula um argumento embutindo um elogio condicional – do tipo “se você é realmente inteligente, concordará comigo” –, está criando um falso dilema: aceitar a ideia para preservar a imagem ou rejeitá-la correndo o risco de parecer tolo.

Esse tipo de falácia pode surgir em debates políticos, filosóficos e até mesmo no cotidiano. O professor que diz a um aluno: “Se você pensar um pouco mais, verá que minha explicação está correta” já não está mais ensinando, mas conduzindo o aluno a aceitar a ideia sem questionamento real. No ambiente de trabalho, um chefe pode usar algo como “Profissionais experientes sabem que esse é o único caminho”, minando qualquer possibilidade de crítica sem que pareça uma imposição direta.

O Perigo Sutil da Manipulação

O elogio envenenado é eficaz porque não agride diretamente – pelo contrário, ele afaga. Diferente de falácias agressivas, que atacam diretamente a inteligência do outro (como o argumentum ad hominem), essa abordagem seduz, criando um senso de pertencimento intelectual. Quem não quer ser visto como perspicaz, racional ou à altura do debate? Mas esse jogo de sedução esconde um veneno: a desvalorização do pensamento crítico. Quando aceitamos uma ideia apenas para não parecer burros, estamos trocando a reflexão sincera pela manutenção da nossa imagem social.

Pensadores Contra a Armadilha

A filosofia sempre buscou formas de escapar dessas armadilhas retóricas. Sócrates, com sua maiêutica, incentivava a dúvida como método de construção do conhecimento, em vez da aceitação passiva de afirmações lisonjeiras. Mais recentemente, Pierre Bourdieu mostrou como a linguagem e o poder simbólico moldam a percepção da realidade, e como certas formas de discurso servem para manipular e consolidar domínios sociais. A falácia do elogio envenenado se encaixa bem nesse contexto: ela não busca a verdade, mas sim a manutenção de uma hierarquia intelectual implícita.

Como Responder ao Elogio Envenenado?

Diante de um elogio que parece carregar segundas intenções, a melhor estratégia é desarmá-lo com serenidade. Uma resposta como “Inteligente ou não, prefiro analisar os argumentos” quebra a lógica falaciosa sem cair na armadilha da provocação. Afinal, o pensamento crítico não pode ser refém do desejo de reconhecimento.

No fim das contas, a verdadeira inteligência não está em aceitar elogios envenenados, mas em identificar quando um argumento está disfarçado de bajulação – e, acima de tudo, em manter a liberdade de pensar por conta própria.


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Assédios

Quando a Linha Invisível é Ultrapassada

As cafeterias são mundos de vida vibrante e cheia de estórias. Outro dia, num café movimentado, vi uma cena que me fez refletir. Um homem insistia em puxar conversa com a atendente, mesmo depois dela ter dado sinais claros de que não queria papo. Sorrisos forçados, respostas monossilábicas, um olhar de socorro para a colega ao lado. O homem parecia alheio a tudo isso. Para ele, era só uma conversa amigável. Para ela, era um incômodo, talvez até medo.

A cena ilustra um problema antigo, mas que hoje ganha novas camadas de discussão: o assédio. Ele não está apenas no ambiente de trabalho, nem se limita ao aspecto sexual. O assédio pode ser psicológico, moral, digital. Ele ocorre quando alguém atravessa um limite que não deveria – e, pior, quando se recusa a enxergar que o ultrapassou.

O Poder na Dinâmica do Assédio

O filósofo francês Michel Foucault nos ajuda a entender o assédio ao analisar as relações de poder. Para ele, o poder não é uma estrutura fixa, mas algo que circula em redes, manifestando-se nos pequenos gestos do cotidiano. O assédio acontece, muitas vezes, porque existe uma assimetria nessa relação: um chefe que pressiona um funcionário, um professor que abusa da autoridade, um influenciador que expõe seguidores ao ridículo. O problema não é só a conduta em si, mas a incapacidade de resistência por parte da vítima, seja por medo, dependência ou insegurança.

A sutileza do assédio também complica sua identificação. Quantas vezes ouvimos frases como “era só uma brincadeira”, “você está exagerando”, “ele não fez por mal”? Essa minimização faz parte da engrenagem que mantém o problema funcionando. O filósofo Zygmunt Bauman diria que vivemos em uma sociedade líquida, onde os limites entre o aceitável e o inaceitável são constantemente negociados – e, muitas vezes, distorcidos para beneficiar quem tem mais poder.

A Cultura da Insistência

O assédio também se alimenta de um problema cultural: a romantização da insistência. Em filmes, novelas e músicas, o “não” é visto como um desafio a ser vencido. O problema é que essa mentalidade legitima abusos, tornando natural a ideia de que certas barreiras não precisam ser respeitadas. A filósofa brasileira Djamila Ribeiro critica essa normalização, mostrando como ela reforça desigualdades e perpetua opressões históricas.

E no ambiente profissional? Pierre Bourdieu falava de um “habitus” social que molda comportamentos e expectativas. Em muitos lugares, o assédio moral é um reflexo desse habitus, onde a hierarquia justifica abusos sob a máscara da “cobrança por resultados” ou do “jeito duro de liderar”.

Como Romper o Ciclo?

A primeira resposta parece óbvia: educação. Mas não basta ensinar regras, é preciso mudar mentalidades. Um “não” não precisa ser gritado para ser válido. Desconforto não precisa virar sofrimento para ser levado a sério.

A segunda resposta é estrutural: fortalecer canais de denúncia, dar segurança para que as vítimas falem e garantir que as consequências sejam reais. Se o assédio persiste, é porque muitas vezes ele não custa nada para quem o pratica.

Mas há também a responsabilidade individual. Todos nós, em algum momento, já fomos espectadores passivos de alguma forma de assédio. Quantas vezes deixamos passar uma piada agressiva, um comentário constrangedor, um abuso disfarçado de brincadeira? O silêncio é parte do problema.

No café onde tudo começou, a atendente foi salva pela colega, que entrou na conversa e, com um tom mais firme, fez o homem recuar. Uma pequena resistência, mas que fez diferença naquele momento. O problema do assédio não se resolve de uma vez, mas se enfraquece quando as pessoas param de fingir que ele não existe. Afinal, respeito não deveria ser uma concessão, mas uma regra básica de convivência.