Tem gente que pergunta não porque quer resposta, mas porque a pergunta em si já é um empurrão. Um incômodo. Um espelho. A frase vem com ponto de interrogação, mas o efeito é outro: ela permanece ecoando. “Até quando?”, “vale a pena?”, “é isso mesmo?”. Esse tipo de pergunta — que não espera resposta direta — tem nome antigo e força atual: erotema. E talvez seja uma das formas mais sutis (e eficazes) de pensamento filosófico no cotidiano.
O
erotema é a pergunta retórica, mas reduzir seu papel à retórica empobrece seu
alcance. Na filosofia, ele funciona como um dispositivo de desestabilização. Sócrates
já sabia disso: perguntar era uma maneira de desmontar certezas, não de coletar
informações. O erotema não quer preencher uma lacuna de conhecimento; ele cria
a lacuna.
Diferente
da pergunta comum, que busca fechar um sentido, o erotema abre. Ele suspende o
automatismo do pensamento. Quando alguém pergunta “o que estamos fazendo da
nossa vida?”, não está esperando uma lista de tarefas nem um plano de cinco
anos. Está convocando o interlocutor a se ver por dentro, a confrontar hábitos
que se tornaram invisíveis.
Nesse
sentido, o erotema é quase ético. Ele exige responsabilidade, não resposta. A
pergunta permanece como uma ferida leve, mas persistente, que obriga o sujeito
a sair do piloto automático.
Imagine
uma reunião em que todos concordam rapidamente com uma decisão. Então alguém
solta: “é isso mesmo que a gente quer?”. Silêncio. Ninguém responde de
imediato. Mas a pergunta muda tudo. Ela quebra a falsa unanimidade e revela
dúvidas que estavam abafadas pela pressa ou pelo medo de discordar.
Ou
numa conversa íntima: “quando foi que a gente parou de conversar de verdade?”.
Não é uma acusação direta, nem um pedido claro. É um erotema. Ele não aponta
culpados, mas expõe um vazio que ambos reconhecem.
Até
no diálogo interno ele aparece. Quando você se pega pensando: “se nada mudar,
como isso termina?”. Não há resposta pronta. Mas a pergunta já alterou o curso
da reflexão. Talvez da ação.
O
erotema não é uma pergunta fraca; é uma pergunta perigosa. Ele não organiza o
mundo, desorganiza. Não conforta, inquieta. Em tempos de respostas rápidas,
tutoriais e opiniões prontas, talvez pensar bem seja reaprender a perguntar
desse jeito: não para obter soluções imediatas, mas para criar espaço interior.
Porque
algumas perguntas não existem para serem respondidas — existem para nos
transformar.
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