Quando
se fala em perversidade, a imagem costuma ser grosseira: alguém cruel,
consciente do mal que faz, quase um vilão de filme. Mas a vida real é menos
teatral — e muito mais inquietante. A perversidade raramente aparece com um
rosto único. Ela muda de forma, de tom, de discurso. Às vezes vem vestida de
boa intenção, outras de eficiência, outras ainda de moral elevada. É por isso
que talvez o traço mais perigoso da perversidade humana seja justamente seu
caráter polifórmico: ela não se repete, se adapta.
Do
ponto de vista filosófico, a perversidade não precisa ser entendida apenas como
desvio moral extremo, mas como uma relação específica com o outro. Hannah
Arendt já alertava para a banalidade do mal: não é preciso ódio
explícito nem sadismo para produzir destruição; basta a suspensão da
responsabilidade. A perversidade polifórmica opera exatamente aí — não na
exceção, mas na normalidade.
Ela
se manifesta quando o outro deixa de ser fim e passa a ser meio, número,
obstáculo, estatística, função. Em uma de suas formas, é fria e burocrática; em
outra, é afetiva e manipuladora; em outra ainda, é moralizante, convencida de
estar do lado certo da história. Não há um único gesto perverso, mas uma lógica
comum: a instrumentalização da vida alheia.
O
que torna essa perversidade difícil de reconhecer é sua plasticidade. Ela
aprende a linguagem do contexto. Em ambientes técnicos, fala em metas. Em
ambientes afetivos, fala em cuidado. Em ambientes morais, fala em valores. A
forma muda; o núcleo permanece.
Pense
em alguém que “só está sendo sincero”, mas usa a franqueza como licença para
humilhar. A crueldade vem travestida de virtude. Ou no gestor que sobrecarrega
a equipe dizendo que “todo mundo passa por isso” — como se a normalização do
desgaste anulasse seu efeito destrutivo.
Há
também a perversidade afetiva: quem controla o outro pelo medo de perder, pela
culpa, pelo silêncio calculado. Não grita, não ameaça abertamente, mas corrói
aos poucos. Tudo parece sutil demais para receber um nome forte — e é
justamente aí que ela se sustenta.
E
existe ainda a perversidade moral: aquela que exclui, ridiculariza ou cancela
em nome do bem. Não se vê como violenta, porque acredita estar corrigindo o
mundo. Mas ao reduzir o outro a erro, rótulo ou desvio, repete a mesma lógica
que diz combater.
A
perversidade polifórmica não é um monstro raro; é uma possibilidade constante
da vida social. Ela aparece sempre que deixamos de nos perguntar pelo impacto
de nossos atos sobre o outro. Combatê-la não exige pureza moral, mas vigilância
ética — especialmente sobre nós mesmos.
Talvez
o gesto mais radical seja simples e difícil: desconfiar das formas elegantes do
mal. Porque a perversidade mais eficaz não é a que choca, mas a que se torna
aceitável.
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