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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Cotas Sociais


Vira e mexe volta à tona a questão das cotas sociais. As cotas sociais costumam gerar debate acalorado porque mexem numa ferida antiga: a ideia de igualdade num país profundamente desigual. Penso que dá pra falar delas sem slogan — nem demonizando, nem romantizando.

Em termos simples, cotas sociais são políticas de acesso (principalmente à educação e ao serviço público) que levam em conta condições socioeconômicas, como renda familiar, tipo de escola frequentada (pública ou privada), local de moradia, entre outros fatores. A lógica é direta: não basta tratar todos como iguais quando as largadas são radicalmente diferentes.

 

O argumento central

Quem defende cotas sociais parte de uma constatação básica:

mérito não nasce no vácuo.

Um estudante que estudou a vida inteira em escola pública precária, trabalhou cedo, pegou ônibus lotado e nunca teve aula particular competiu em condições muito diferentes de alguém que teve acesso a capital cultural, tempo livre e estrutura. As cotas não eliminam o mérito — elas tentam corrigir a assimetria do ponto de partida.

“Mas isso não abaixa o nível?”

Esse é um medo comum. Na prática, o que se viu (especialmente nas universidades públicas brasileiras) foi o contrário, pelo que sei é que:

  • alunos cotistas acompanham o curso,
  • taxas de evasão são semelhantes (ou menores),
  • e muitos têm desempenho acadêmico equivalente aos não cotistas.

Ou seja, oportunidade não é sinônimo de facilitação.

Cotas sociais × cotas raciais

Aqui vale uma distinção importante:

  • cotas sociais focam renda e escolaridade;
  • cotas raciais reconhecem que, além da pobreza, o racismo estrutural cria barreiras específicas, mesmo para pessoas negras que não são pobres.

No Brasil, essas duas dimensões se sobrepõem muito — mas não totalmente. Por isso, o modelo adotado costuma combinar critérios sociais e raciais, tentando capturar melhor a realidade.

 

Um desconforto necessário

Cotas sociais incomodam porque quebram a narrativa confortável da meritocracia pura. Elas nos obrigam a admitir que talento existe em todo lugar, mas o acesso às condições para desenvolvê-lo não.

No fundo, a pergunta que elas levantam não é “quem merece mais”, mas:

quanta desigualdade uma sociedade aceita antes de chamar isso de injustiça?

Não são uma solução mágica. Não substituem uma educação básica forte, nem resolvem sozinhas o problema da desigualdade. Mas funcionam como ponte — imperfeita, provisória, mas necessária — entre o país real e o país que gosta de se imaginar justo.

As cotas sociais deixam de ser necessárias quando o ponto de partida deixa de ser desigual, o que exige uma educação básica pública de alta qualidade e homogênea, redução consistente da pobreza, acesso real a saúde, alimentação, cultura e tempo para estudar, além de políticas econômicas que não naturalizem a herança da miséria; em outras palavras, quando o lugar onde alguém nasce deixa de determinar, com tanta força, o lugar a que pode chegar.

As cotas raciais existem porque, mesmo quando a desigualdade econômica é controlada, a cor da pele continua operando como filtro social, produzindo desvantagens que não aparecem apenas na renda ou na escola frequentada; elas reconhecem que o racismo não é só um preconceito individual, mas um mecanismo estrutural que afeta expectativas, oportunidades, tratamento institucional e trajetórias de vida, e por isso não são um privilégio, mas uma ferramenta corretiva provisória, necessária enquanto a sociedade insistir em tratar pessoas de forma diferente antes mesmo de saber quem elas são.

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