Supressão dos males
Há uma
tentação comum quando falamos de “instintos” e “males”: imaginar que o melhor
caminho é calar tudo, apertar um botão interno e viver numa espécie de silêncio
emocional. Mas isso costuma dar errado. Instinto não é ruído descartável — é
energia. E energia reprimida, sem direção, não desaparece… ela retorna por
outros caminhos.
O
problema, então, talvez não seja o instinto em si, mas o modo como lidamos com
ele.
O que
são esses “instintos”?
Desde Sigmund
Freud, tornou-se comum pensar os instintos como forças primárias — desejos,
impulsos, tensões que pedem descarga. Eles não pedem licença, simplesmente
aparecem: raiva, inveja, desejo, medo.
Já Friedrich
Nietzsche desconfiava da tentativa de domesticá-los completamente. Para
ele, sufocar os impulsos poderia produzir um sujeito ressentido, que transforma
sua incapacidade de agir em moralidade rígida.
Ou seja:
tentar eliminar o instinto pode gerar exatamente o “mal” que se queria evitar.
Supressão
ou transformação?
Aqui
está um ponto decisivo:
controlar
não é o mesmo que suprimir.
- Supressão: empurrar para
baixo, fingir que não existe
- Controle: reconhecer,
compreender e redirecionar
O Estoicismo
oferece um caminho interessante. Para pensadores como Epicteto, não
controlamos o que sentimos de imediato, mas podemos escolher o que fazemos com
isso. O impulso inicial não é moral; a ação derivada, sim.
Assim, o
problema não é sentir raiva — é o que a raiva faz você fazer.
O
cotidiano onde tudo isso acontece
Não é em
grandes dilemas que os instintos mais nos desafiam, mas nas pequenas situações:
- A vontade de responder atravessado numa
conversa banal
- O impulso de desistir diante de uma
frustração mínima
- A inveja silenciosa ao ver o sucesso de
alguém próximo
Nesses
momentos, há sempre uma bifurcação invisível:
agir no
automático ou interromper o fluxo.
Esse
“intervalo” — pequeno, quase imperceptível — é onde mora o controle.
A
inteligência dos impulsos
Curiosamente,
muitos instintos têm algo a ensinar:
- A raiva pode revelar limites violados
- O medo pode apontar riscos reais
- O desejo pode indicar direção e
vitalidade
Negar
tudo isso seria como quebrar o termômetro para não ver a febre.
O
desafio está em traduzir o instinto, não em silenciá-lo.
Supressão
dos males… ou educação da alma?
Talvez a
expressão “supressão dos males” seja enganosa. Ela sugere que o mal é algo
externo, que pode ser arrancado. Mas muitos dos nossos “males” nascem
justamente do mau uso de forças legítimas.
Mário
Sérgio Cortella costuma lembrar que ética não é ausência de
conflito, mas capacidade de escolha diante dele.
Nesse
sentido, não se trata de eliminar o mal como quem elimina uma mancha — mas de
cultivar discernimento suficiente para não se deixar conduzir cegamente pelos
impulsos.
No fim
das contas…
Controlar
os instintos não é tornar-se frio ou neutro. É tornar-se responsável.
A
supressão cega cria pressão.
A
liberdade sem controle cria caos.
Entre os
dois, existe um caminho mais difícil — e mais humano:
escutar,
compreender e decidir.
Talvez o
verdadeiro domínio não seja o silêncio dos impulsos, mas a capacidade de
dialogar com eles sem se tornar refém.
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