Carta sobre o que fica quando tudo passa
Meu caro,
não sei
exatamente por que te escrevo hoje. Talvez porque falar sozinho já não esteja
dando conta, ou talvez porque certas ideias só ganhem forma quando encontram
outro — mesmo que esse outro esteja longe, ocupado, ou até distraído com a
vida.
Ando
pensando em uma coisa simples, dessas que parecem pequenas até começarem a
incomodar: o que é que realmente fica daquilo que a gente vive?
Outro
dia, no meio de uma rotina qualquer — dessas que a gente cumpre no automático,
entre um compromisso e outro — me dei conta de que quase tudo passa sem deixar
rastro. A conversa rápida no corredor, o café tomado sem atenção, até mesmo
algumas decisões que, na hora, pareciam enormes. Tudo escorre. E, no entanto,
algo fica. Sempre fica.
Mas não é
o que a gente imagina.
Não ficam
exatamente os fatos, nem as cenas completas, como se fossem arquivos bem
organizados. Ficam pedaços. Sensações meio tortas. Uma frase que alguém
disse e que, por algum motivo, grudou. Um silêncio desconfortável. Um gesto
pequeno que, na hora, passou despercebido, mas depois voltou como quem cobra
significado.
É
curioso, porque a gente vive como se estivesse construindo uma narrativa
sólida, coerente. Mas, na prática, o que sobra é quase um mosaico quebrado. E
talvez seja aí que começa o problema: passamos tanto tempo tentando controlar a
história, quando, no fim, o que realmente nos define são esses fragmentos que
escapam do controle.
Lembrei
de algo que já li uma vez — não sei se de memória fiel ou inventada pela minha
cabeça — de que a experiência não é aquilo que acontece, mas aquilo que
permanece. E isso muda tudo. Porque, se for assim, então viver não é acumular
eventos, mas depurar o que resiste ao tempo dentro de nós.
E aí te
pergunto, quase como quem não quer resposta imediata: o que tem resistido em
ti?
Não digo
as grandes conquistas, nem os marcos evidentes. Falo daquelas pequenas
insistências internas. Aquela dúvida que volta. Aquela alegria discreta que
reaparece sem motivo. Ou até aquele incômodo que nunca se resolveu direito.
Talvez
seja isso que a gente seja: não o que aconteceu, mas o que insiste em não
desaparecer.
Tenho
pensado também que há um certo alívio nisso tudo. Porque se nem tudo fica,
então não precisamos carregar o peso de viver “perfeitamente”. Há uma espécie
de seleção silenciosa acontecendo o tempo todo, escolhendo, sem pedir nossa
opinião, o que merece permanecer.
E, veja,
isso não é exatamente justo — mas talvez seja verdadeiro.
Li “Sobre
a Brevidade da Vida” de Sêneca, me senti ainda mais motivado para
lhe trazer estas ideias que agora são pedaços do meu pensamento.
No fundo,
escrever essa carta é uma tentativa de segurar alguma coisa antes que ela
também escorra. Como quem tenta guardar água com as mãos, sabendo que não vai
conseguir, mas insistindo assim mesmo.
Se essa
carta te encontrar em um desses momentos de pausa — raros, eu sei — talvez ela
sirva como um espelho torto. Não para te dar respostas, mas para te lembrar de
olhar para aquilo que, dentro de ti, continua voltando.
Porque,
suspeito, é ali que mora algo importante.
Escrevo
sem pressa de resposta. Mas com a esperança de que, de algum modo, essa
conversa continue — mesmo em silêncio.
Um
abraço,
— alguém
que também está tentando entender o que fica!
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