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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Fútil Agitação


Tem dias em que a gente termina cansado… mas, sendo honesto, sem saber exatamente do quê. Não foi um cansaço de construção, daqueles que deixam uma sensação de sentido. Foi mais como se o dia tivesse sido ocupado por uma poeira invisível: reuniões que não precisavam acontecer, discussões que não levavam a lugar algum, notificações que pediam atenção sem oferecer nada em troca. A isso eu chamo — junto com Sêneca — de fútil agitação.

Não é falta de movimento. É excesso dele.

O movimento que não leva a lugar nenhum

A fútil agitação é traiçoeira porque se disfarça de produtividade. Parece vida ativa, parece esforço, parece até virtude. Mas, no fundo, é apenas deslocamento sem direção.

É o sujeito que passa o dia inteiro resolvendo pequenas urgências e, ao final, não resolveu nada essencial.

É a conversa longa que termina no mesmo ponto onde começou — ou pior, em um ponto mais confuso.

É o impulso de responder imediatamente, de opinar sobre tudo, de estar presente em todos os lugares, como se a ausência fosse um fracasso.

A agitação fútil não é o oposto da inércia. Ela é uma forma sofisticada de inércia.

A falsa operosidade

Sêneca já alertava: o problema não é termos pouco tempo, mas desperdiçarmos muito dele. E o desperdício moderno raramente é o ócio explícito — é essa ocupação constante que não constrói nada duradouro.

Vivemos como se tudo exigisse resposta imediata. Como se cada estímulo fosse uma convocação. Mas essa disponibilidade total tem um preço: ela fragmenta a atenção, dissolve a profundidade e nos impede de permanecer com nós mesmos.

No cotidiano isso aparece de forma simples:

  • Você pega o celular “só por um minuto” e, quando percebe, perdeu meia hora.
  • Começa uma tarefa importante, mas se permite pequenas interrupções — e nunca volta ao mesmo nível de concentração.
  • Entra em debates inúteis, movido mais pelo impulso do que pela necessidade.

A vida fica cheia… mas vazia.

A incapacidade de permanecer

Existe algo que a fútil agitação revela, mas que raramente admitimos: a dificuldade de ficar em silêncio, de sustentar um pensamento, de conviver consigo mesmo.

O movimento constante vira uma fuga.

Fugimos de perguntas incômodas, de decisões adiadas, de um certo vazio que só aparece quando o barulho cessa. Então nos mantemos ocupados — não porque tudo é importante, mas porque parar parece perigoso.

Mas há um paradoxo aqui: quem não consegue parar, também não consegue ir longe.

O essencial exige quietude

Tudo o que é realmente significativo pede um tipo de presença que a agitação destrói.

Ler com atenção.

Pensar até o fim.

Conversar de verdade.

Tomar decisões conscientes.

Nada disso acontece no meio de interrupções constantes.

A fútil agitação nos treina para a superficialidade. Ela nos torna rápidos, mas não profundos; ocupados, mas não eficazes; informados, mas não sábios.

Uma pequena ruptura

Talvez a saída não esteja em fazer mais, mas em fazer menos — com mais intenção.

Recusar certas conversas.

Ignorar certas urgências.

Permitir momentos de silêncio sem culpa.

Escolher onde colocar a atenção como quem escolhe onde investir a própria vida.

Porque, no fim, é isso que está em jogo: a atenção como moeda da existência.

A fútil agitação nos faz gastar tudo em coisas que não retornam nada.

E o pior não é o cansaço que ela provoca — é a sensação, quase imperceptível, de que a vida passou… mas não foi realmente vivida.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Tempo Desperdiçado

A vida que escorre entre os dedos

Há dias em que a gente percebe que não está cansado de trabalhar — está cansado de desperdiçar. É diferente. Não é o esforço que pesa, é a sensação de que o tempo foi gasto com coisas que, no fundo, não sustentam nada dentro de nós.

Quando li “Sobre a Brevidade da Vida”, tive essa impressão incômoda: não é a vida que é curta, somos nós que a tornamos curta ao espalhá-la em mil distrações. Sêneca escreve como quem nos sacode pelos ombros — e, convenhamos, a gente precisa disso de vez em quando.

Porque, se formos honestos, quanto tempo já foi perdido em brigas inúteis? Discussões que, horas depois, já não fazem o menor sentido. Ou então paixões que nos consumiram como incêndio — não por amor verdadeiro, mas por apego, vaidade, carência. E aquele credor que ocupa nossa mente mais do que deveria, ou o cliente que exige mais do que vale. Sem falar nas doenças que plantamos com nossas próprias mãos: excesso, ansiedade, descuido.

A pergunta de Sêneca ecoa como um eco incômodo: quanto tempo foi realmente vivido consigo mesmo?

A falsa operosidade

Vivemos ocupados. Isso ninguém nega. Mas estar ocupado não é o mesmo que estar vivendo bem. Existe uma forma de ocupação que é apenas fuga — uma espécie de anestesia elegante.

A falsa operosidade é aquela agenda cheia que evita o essencial. É responder mensagens sem parar, resolver pequenos incêndios, correr atrás de demandas que nunca acabam… e, no fim do dia, não ter se encontrado nem por cinco minutos.

É como se disséssemos: “não tenho tempo para mim”, quando, na verdade, estamos evitando esse encontro.

Sêneca diria que essas pessoas não vivem — são arrastadas.

A agitação fútil

Existe também a agitação que não constrói nada. Um movimento constante, mas vazio. Como alguém que caminha em círculos e chama isso de progresso.

Essa agitação pode parecer produtiva por fora, mas por dentro ela é dispersão. E a dispersão é uma forma silenciosa de desperdício de vida.

A gente vê isso no cotidiano:

  • A discussão que continua só por orgulho
  • O relacionamento que se mantém por medo da solidão
  • O trabalho que se prolonga além do necessário só para evitar o silêncio

No fundo, é sempre a mesma coisa: medo de parar.

Vivemos como se fôssemos eternos

Talvez o ponto mais duro seja esse: vivemos como se houvesse sempre um depois.

Depois eu descanso.

Depois eu penso na minha vida.

Depois eu cuido de mim.

Mas o “depois” é uma promessa que ninguém assinou.

Sêneca é direto: tratamos o tempo como algo abundante, quando ele é o único recurso realmente escasso.

Sugestões para bem viver consigo mesmo

Não se trata de virar um eremita ou abandonar responsabilidades. A questão é outra: como habitar a própria vida enquanto ela acontece.

Algumas ideias simples, mas exigentes:

1.      Criar pequenos territórios de silêncio

Nem que sejam 10 minutos por dia. Sem celular, sem tarefa, sem distração. No começo, pode dar desconforto. Isso já diz muito.

2.      Reduzir conflitos desnecessários

Nem toda batalha precisa ser lutada. Às vezes, ceder é economizar vida.

3.      Examinar os próprios impulsos

Antes de reagir, perguntar: isso vale meu tempo? Vale minha energia? Vale minha paz?

4.      Trabalhar com intenção, não por inércia

Nem toda ocupação é digna do seu tempo. Aprender a dizer “não” é uma forma de autocuidado filosófico.

5.      Reaproximar-se de si mesmo

Pode ser através da leitura, da escrita, de uma caminhada, de um café em silêncio — quase como aquele ritual íntimo que transforma uma cafeteria em refúgio. O importante é voltar a ser companhia de si.

6.      Lembrar da finitude sem desespero

Não como algo mórbido, mas como um critério: se o tempo é limitado, ele merece ser bem usado.

No fim, Sêneca não está propondo uma vida austera no sentido triste. Ele propõe uma vida lúcida.

Porque desperdiçar tempo não é apenas perder horas — é perder a chance de se tornar alguém mais inteiro.

E talvez o maior luxo hoje não seja ter tempo livre…

mas ter tempo que realmente nos pertence.


Reflexão Epistolar

Carta sobre o que fica quando tudo passa

Meu caro,

não sei exatamente por que te escrevo hoje. Talvez porque falar sozinho já não esteja dando conta, ou talvez porque certas ideias só ganhem forma quando encontram outro — mesmo que esse outro esteja longe, ocupado, ou até distraído com a vida.

Ando pensando em uma coisa simples, dessas que parecem pequenas até começarem a incomodar: o que é que realmente fica daquilo que a gente vive?

Outro dia, no meio de uma rotina qualquer — dessas que a gente cumpre no automático, entre um compromisso e outro — me dei conta de que quase tudo passa sem deixar rastro. A conversa rápida no corredor, o café tomado sem atenção, até mesmo algumas decisões que, na hora, pareciam enormes. Tudo escorre. E, no entanto, algo fica. Sempre fica.

Mas não é o que a gente imagina.

Não ficam exatamente os fatos, nem as cenas completas, como se fossem arquivos bem organizados. Ficam pedaços. Sensações meio tortas. Uma frase que alguém disse e que, por algum motivo, grudou. Um silêncio desconfortável. Um gesto pequeno que, na hora, passou despercebido, mas depois voltou como quem cobra significado.

É curioso, porque a gente vive como se estivesse construindo uma narrativa sólida, coerente. Mas, na prática, o que sobra é quase um mosaico quebrado. E talvez seja aí que começa o problema: passamos tanto tempo tentando controlar a história, quando, no fim, o que realmente nos define são esses fragmentos que escapam do controle.

Lembrei de algo que já li uma vez — não sei se de memória fiel ou inventada pela minha cabeça — de que a experiência não é aquilo que acontece, mas aquilo que permanece. E isso muda tudo. Porque, se for assim, então viver não é acumular eventos, mas depurar o que resiste ao tempo dentro de nós.

E aí te pergunto, quase como quem não quer resposta imediata: o que tem resistido em ti?

Não digo as grandes conquistas, nem os marcos evidentes. Falo daquelas pequenas insistências internas. Aquela dúvida que volta. Aquela alegria discreta que reaparece sem motivo. Ou até aquele incômodo que nunca se resolveu direito.

Talvez seja isso que a gente seja: não o que aconteceu, mas o que insiste em não desaparecer.

Tenho pensado também que há um certo alívio nisso tudo. Porque se nem tudo fica, então não precisamos carregar o peso de viver “perfeitamente”. Há uma espécie de seleção silenciosa acontecendo o tempo todo, escolhendo, sem pedir nossa opinião, o que merece permanecer.

E, veja, isso não é exatamente justo — mas talvez seja verdadeiro.

Li “Sobre a Brevidade da Vida” de Sêneca, me senti ainda mais motivado para lhe trazer estas ideias que agora são pedaços do meu pensamento.

No fundo, escrever essa carta é uma tentativa de segurar alguma coisa antes que ela também escorra. Como quem tenta guardar água com as mãos, sabendo que não vai conseguir, mas insistindo assim mesmo.

Se essa carta te encontrar em um desses momentos de pausa — raros, eu sei — talvez ela sirva como um espelho torto. Não para te dar respostas, mas para te lembrar de olhar para aquilo que, dentro de ti, continua voltando.

Porque, suspeito, é ali que mora algo importante.

Escrevo sem pressa de resposta. Mas com a esperança de que, de algum modo, essa conversa continue — mesmo em silêncio.

Um abraço,

— alguém que também está tentando entender o que fica!


terça-feira, 29 de julho de 2025

Predomínio da Vulgaridade

Quando a vulgaridade toma conta: o silêncio como refúgio

Hoje em dia, parece que tudo grita. Redes sociais gritam, os anúncios gritam, até as conversas casuais andam carregadas de performance. É como se o gosto — aquilo que molda o belo, o justo, o sensato — tivesse sido esmagado por um rolo compressor de urgências vazias. Quando a vulgaridade vira norma, o sensível vira exceção. E é justamente nesse ponto que os antigos escolhiam o caminho oposto: o do retiro silencioso.

O filósofo romano Sêneca, em sua carta a Lucílio, aconselhava: “Retira-te para dentro de ti mesmo, tanto quanto puderes.” Para ele, o barulho do mundo era mais que uma distração — era um perigo para a alma. E essa ideia, longe de ultrapassada, talvez nunca tenha sido tão atual. Em tempos de excesso, o verdadeiro luxo é o silêncio. Em tempos de exposição constante, o verdadeiro gesto revolucionário pode ser desaparecer por um tempo, não para fugir, mas para recuperar-se.

O retiro, nesse sentido, não é um isolamento arrogante, mas uma reaproximação humilde. É como voltar para casa depois de ter se perdido numa cidade ruidosa. Lá dentro, no silêncio do que somos, longe do gosto massificado e da repetição cansada, podemos voltar a sentir o que realmente nos toca. A vulgaridade não se combate com briga — mas com recuo. Porque às vezes é preciso sair da festa para lembrar por que ela começou.

O gosto, então, talvez não morra — apenas adormeça. E o retiro, seja ele um quarto calmo, um banco no parque ou um mergulho no próprio pensamento, é o lugar onde ele acorda.

sábado, 12 de julho de 2025

Aceitar o inevitável

Por que resistir é uma escolha estúpida (segundo Sêneca)

Tem dias em que a vida bate com gosto. Você perdeu o ônibus, levou uma bronca injusta no trabalho, o amor da sua vida decidiu que te ama… mas como amigo. Nessas horas, a gente se debate por dentro, faz cena por fora, e sofre – como se isso mudasse alguma coisa. Mas Sêneca, o velho estoico romano, talvez te desse um tapinha nas costas (ou uma bronca) e dissesse: "Você está escolhendo sofrer".

O inevitável não consulta a sua opinião

O problema não é o que acontece. O problema é o que você esperava que acontecesse. A chuva não é trágica; trágico é ter saído sem guarda-chuva achando que o céu ia colaborar. Sêneca nos convida a olhar o que é fato, e o que é fantasia da nossa expectativa. Para ele, lutar contra o inevitável — a perda, a dor, a morte, a frustração — é como discutir com o mar para que ele pare de fazer ondas.

No ensaio Da Tranquilidade da Alma, ele diz:

"Não é a coisa em si que nos perturba, mas o juízo que fazemos dela."

A tempestade vem. Cabe a nós abrir o guarda-chuva da lucidez ou ficar molhado só para provar um ponto que ninguém está vendo.

A dor da perda: quando o mundo realmente muda

Agora, sejamos justos. Há perdas que desmontam a alma. A morte de quem a gente ama não é só ausência — é silêncio onde havia voz, espaço vazio onde havia presença, é mesa posta para dois quando só resta um. Perder alguém não é só um acontecimento: é uma mudança de mundo.

Sêneca perdeu o filho ainda pequeno. E mesmo assim, escreveu que a morte não deveria ser lamentada com desespero. Parece frio? Talvez. Mas ele dizia que o amor verdadeiro não termina quando o corpo se vai. E mais: que a dor não deve ocupar o lugar da gratidão.

"Chorar é natural," ele diria, "mas eternizar a tristeza é injusto com quem se foi e com quem ficou."

A perda nos visita como um ladrão — sem avisar, sem bater na porta. E o que ela leva, às vezes, é mais do que podíamos dar. Mas depois do luto inevitável, há uma decisão silenciosa: continuar carregando o que perdemos como uma ferida aberta ou como uma lembrança digna.

Sofrer é humano, mas insistir é teimosia

Há algo de revolucionário em perceber que sofrimento não é destino, mas resposta. É como se a dor tocasse a campainha e você decidisse se vai abrir a porta ou não. Sofrer, às vezes, é natural. Mas Sêneca propõe uma escolha: não transformar dor em drama, nem fracasso em identidade.

Não se trata de virar uma pedra sem emoção. Trata-se de entender que resistir ao que já é consome mais energia do que aceitar e agir a partir disso. Aceitação, aqui, não é rendição. É estratégia. É tomar o real como ponto de partida, não como sentença.

A escolha entre dano e desastre

Uma demissão é um dano. Sofrer por ela por meses pode ser um desastre. Um término é um fato. Arrastar esse fim como corrente por anos é um projeto de autoflagelo. Uma perda é inevitável. Transformá-la em culpa, castigo ou fim de si mesmo é opcional.

Aceitar o inevitável é, paradoxalmente, a forma mais inteligente de preservar nossa liberdade interior.

Sêneca diria que sofrer por algo inevitável é um duplo infortúnio: primeiro a dor do mundo, depois a dor do orgulho. E a pior parte é que o segundo golpe, quem dá somos nós mesmos.

Quando o inevitável somos nós que perdemos

Nem sempre é uma pessoa que se vai. Às vezes, a perda é de algo que não chegou a existir: um projeto de vida, uma carreira que parecia promissora, um sonho que foi gasto antes de nascer. Nesses casos, o luto é silencioso. Ninguém manda flores para quem perdeu a fé em si mesmo.

Você olha para trás e percebe que aquele "você de antes" também morreu — aquele mais ingênuo, mais esperançoso, mais confiante. E o que dói é justamente ter de continuar vivendo com quem você se tornou, ainda sem saber muito bem quem é.

Sêneca não ignoraria essa dor. Ele mesmo enfrentou exílios, humilhações públicas, traições. O que ele propõe não é virar mármore, mas lembrar que sofrer é um estágio, não um endereço fixo.

"O homem forte não é o que não sente a dor, mas o que não se escraviza a ela." — diria ele.

Aceitar o inevitável, nesse caso, é abrir espaço para o novo eu que pode nascer depois da perda. Não se trata de esquecer o que foi, mas de deixar de lutar contra o que é.

A aceitação como um ato de amor-próprio

Aceitar o inevitável é muitas vezes o primeiro passo para amar-se novamente. A ferida não vai embora porque você quer. Mas cicatriza quando você para de cutucar.

É possível olhar para a dor da perda com reverência, e não com rancor. É possível agradecer por ter amado alguém ao invés de se amargurar por não poder amar mais. É possível entender que perder algo não é ser menos, mas é ser alguém que teve algo precioso. E que, por isso mesmo, sentiu sua ausência.

No fim, aceitar o inevitável não é se curvar. É se levantar de outro jeito.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Ansiedade tão atual e tão abrangente, Sêneca sempre atual

 


Reflexões sobre a ansiedade é assim que a dominamos, pensando e falando sobre ela tão humana, em sua etimologia quer dizer sufocar, apertar, caminho estreio e doloroso visando alguma coisa que está no futuro da vida, para o qual não nos sentimos preparados para enfrentar, há muitas expectativas e a relação de nosso momento histórico dão mais combustível para incendiar-nos, o ser humano esta acostumado com esta companhia é o que nos faz andar, o primeiro passo é caminhar e a ansiedade esta presente no dar o primeiro passo, a ansiedade está ali presente, junto a ela esta o medo, que tanto serve para nos frear ou nos avisar para dirigir com cuidado, se descontrolada o medo de ter medo é o pânico quando perdemos a lucidez, o medo da ansiedade é mais pânico do que medo, medo faz parte de quem tem certo grau de consciência.  

Para Freud, a ansiedade é adaptativa não apenas por preparar o animal para lidar com o perigo por meio da mobilização de energia psíquica, mas também por auxiliar na detecção antecipada de novas ocorrências do estado de perigo.

Nossa filósofa Lucia Helena Galvão da Nova Acrópole é referência para lidar com mais este tema que assola as sociedades, muito do que ela trata em suas palestras são problemas do cotidiano e a ansiedade é um tema precioso tratado magistralmente, ouvir o que ela tem a dizer ajuda-nos a pensar a respeito do que pode ser feito e qual a postura dos ansiosos frente aos medos que paralisam, a ansiedade não deixa de fora o medo de fracassar, a ideia de fracasso causa ansiedade que pode ser o gatilho para o fracasso, a falta de lucidez causado pela ansiedade exagerada se transforma em pânico e a fraqueza da lucidez.

Uma resposta diante da vida vem através do conhecimento e através de seu valor intrínseco, as coisas que tem maior valor em si são as coisas com maior valor na vida, bondade, amor, lealdade, compaixão, é preciso trabalho para obter momentos de alegria que em sua multiplicação se transformarão em felicidade, felicidade sólida, a ansiedade se dobrará a este forte inimigo que é o conhecimento, o conhecimento nos ensina a saborear a vida em seu tempo presente, o conhecimento junto a sabedoria nos ensinam a raciocinar e sermos lúcidos sem deixar as emoções tomarem conta de nosso estado de espírito, nossa lucidez ensina a não excedermos nossa projeção e expectativas de pé no chão, alguns dissabores são fruto de nossa falta de cuidado, a expectativa nos tira a lucidez, parece que alimentamos uma fábrica de ansiedades.

Apóstolo Paulo nos ensinou:

 “Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?

 

Nosso filósofo, Luis Felipe Pondé já nos alertou: "A ansiedade é algo sem fim hoje em dia, e isso não é bom”, ele complementa: "É complicado não ser ansioso em um mundo em que somos cobrados a todo instante. Em que há um chamado contínuo dizendo que devemos ser felizes o tempo todo, dar resultados e equilibrar todas as áreas da sua vida --trabalho, sucesso, amor, sexo, futuro, filhos, cachorros, férias...... –

Os diversos problemas intimidam, a mente é suscetível as más notícias, os jornais e noticiários trazem uma gama gigantesca de más notícias, o foco no catastrófico tiram nosso foco das coisas boas, o foco mórbido faz com que o homem seja intimidado, então não tem como reagirmos ao mundo sem ansiedade, porem os sábios sabem que os problemas fazem parte da vida, então nosso foco deve estar voltado para as coisas boas, a dinâmica da vida ensina que existem problemas, mas também nos mostra a luz e o equilíbrio.

O estoicismo nos legou sabias reflexões, um de seus maiores expoentes Sêneca em sua décima terceira carta, dirigida a seu amigo Lucilio intitulada “Sobre medos infundados”, escreve sobre a ansiedade e o medo, penso que após sua leitura a impressão é que deixamos a ficha cair. Vou compartilhar alguns trechos:

Há mais coisas… que podem nos assustar do que nos esmagar; nós sofremos com mais frequência na imaginação do que na realidade.

Seu conselho ao amigo Lucilio e que vale para todos nós:

O que eu aconselho que faças é não seres infeliz antes da crise chegar; pois pode ser que os perigos ante os quais estremeceste como se te estivessem a ameaçar, nunca irão acontecer; certamente ainda não chegaram.

Assim, algumas coisas atormentam-nos mais do que deveriam; algumas atormentam-nos antes do que deveriam; e algumas atormentam-nos quando não nos deveriam atormentar.

É provável que alguns problemas nos acometam; mas não é um fato presente. Quantas vezes o inesperado aconteceu! Quantas vezes o esperado nunca acontece! E mesmo que seja ordenado, o que valerá para se encontrar com o seu sofrimento? Você sofrerá em breve, quando chegar; por isso espere ansiosamente por coisas melhores.

A mente às vezes modela para si as formas falsas do mal, quando não há sinais que apontem para algum mal; interpreta da pior forma alguma palavra de significado duvidoso; ou imagina algum rancor pessoal ser mais sério do que realmente é, considerando não quão irritado o inimigo está, mas a que extensão poderá chegar sua ira.

Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para nossas dores, se entregarmos nossos medos ao máximo possível; neste assunto, deixe a prudência ajudá-lo, e despreze o medo com um espírito resoluto mesmo quando ele está à vista. Se você não pode fazer isso, combata uma fraqueza com outra, e tempere o seu medo com esperança.

Não há nada tão certo nesse assunto de medo como as coisas que tememos darem em nada e que as coisas as quais esperamos zombarem de nós. Consequentemente, pese cuidadosamente as suas esperanças, assim como seus temores, e sempre que todos os elementos estiverem em dúvida, decida em seu favor; acredita no que você preferir.

E se o medo ganha a maioria dos votos, incline-se na outra direção de qualquer maneira, e deixe de incomodar sua alma, refletindo continuamente que a maioria dos mortais, mesmo quando não têm problemas realmente à mão, certamente os têm esperados no futuro, e tornam-se excitados e inquietos.

Nossas preocupações exageradas tiram nosso sossego e oportunidade de vivermos plenamente, parte de nossa sabedoria está contida no conhecimento externo e no autoconhecimento, ambos são os inimigos do medo e da ansiedade, são eles que controlam as emoções de forma lúcida, a paz de espírito nos permite olhar os detalhes da caminhada e a dar o primeiro passo com coragem.

As cartas de Sêneca escritas para seu amigo Lucilio também podem estar dirigidas a nós e obviamente ficaram para a posteridade, sua mensagem é para ser lida e degustada pausadamente, assim como degustamos um chocolate pedaço a pedaço deixando dissolver na boca, nos causam enorme sensação de prazer.

 

Fontes:

Sêneca, Lúcio Aneu. CARTAS DE UM ESTOICO, Volume I - Um guia para a Vida Feliz / Sêneca; seleção, introdução, tradução e notas de Alexandre Pires Vieira. – São Paulo, SP: Montecristo Editora, 2017.

 

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/07/12/sera-que-sofremos-mais-com-a-ansiedade-hoje-do-que-sofriamos-antigamente.htm