A fila do supermercado parece um lugar neutro. Um espaço de transição, quase sem importância — ninguém vai pra lá querendo ficar. Mas é justamente ali, entre um carrinho e outro, que a ansiedade resolve aparecer com uma naturalidade desconcertante.
Você
entra na fila achando que é só esperar. Coisa simples. Só que, poucos segundos
depois, começa um pequeno teatro interno.
“Escolhi
a fila errada.”
“Aquela
ali está andando mais rápido.”
“Por
que essa pessoa trouxe tanta coisa?”
Nada
aconteceu de fato — ninguém te atacou, nada deu errado — mas, dentro, alguma
coisa já começou a acelerar.
A
ansiedade, nesse cenário, não vem como um grande evento. Ela se instala nos
detalhes. No olhar que escapa para as outras filas. No cálculo mental que tenta
prever qual caixa vai liberar primeiro. Na impaciência que não é exatamente com
o tempo… mas com a falta de controle sobre ele.
E
é curioso como a gente tenta negociar com essa sensação. Muda de fila. Volta.
Suspira. Olha o celular. Como se qualquer pequena ação pudesse dar a ilusão de
que estamos retomando o comando da situação.
Mas
não estamos.
Søren
Kierkegaard dizia que a ansiedade é “a vertigem
da liberdade”. Talvez, numa fila de supermercado, essa liberdade se
manifeste de um jeito estranho: você pode sair da fila, pode trocar, pode
desistir da compra… mas, ao mesmo tempo, não quer fazer nenhuma dessas coisas.
Fica preso numa liberdade que não resolve.
E
aí surge outra camada: a comparação.
Você
observa o carrinho dos outros, o ritmo do caixa, o comportamento das pessoas.
Parece que todo mundo está mais certo do que você. Mais tranquilo. Mais no
lugar. Como se houvesse um jeito correto de esperar — e você tivesse perdido
esse manual.
Só
que não existe manual nenhum. Existe só gente tentando atravessar o mesmo
intervalo de tempo.
Talvez
o mais desconcertante seja perceber que a fila não é o problema. Ela só revela
uma dificuldade mais funda: a de estar onde se está, sem tentar acelerar o que
não depende da gente.
Porque,
no fundo, a ansiedade na fila não é sobre pagar compras. É sobre querer que o
futuro chegue antes do presente terminar.
E
o presente, ali, é simples demais pra agradar.
Um
carrinho. Um chão frio. Um visor marcando preços. Nada acontecendo. E, ainda
assim, tudo acontecendo por dentro.
Pensei:
Talvez o exercício mais difícil — e mais raro — seja ficar.
Ficar
na fila escolhida. Ficar no tempo que existe. Ficar sem simular atalhos
mentais. Só observar o movimento sem tentar corrigi-lo.
Não
é passividade. É uma espécie de ajuste fino com a realidade.
Porque,
em algum momento entre um cliente e outro, surge uma percepção quase
silenciosa: a fila anda. Sempre andou. Não no ritmo que a gente queria, mas no
ritmo que ela pode.
E
talvez a vida funcione mais ou menos assim também.
A
gente só não percebe… porque está ocupado demais tentando trocar de fila.

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