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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Ansiedade na Fila

 

A fila do supermercado parece um lugar neutro. Um espaço de transição, quase sem importância — ninguém vai pra lá querendo ficar. Mas é justamente ali, entre um carrinho e outro, que a ansiedade resolve aparecer com uma naturalidade desconcertante.

Você entra na fila achando que é só esperar. Coisa simples. Só que, poucos segundos depois, começa um pequeno teatro interno.

“Escolhi a fila errada.”

“Aquela ali está andando mais rápido.”

“Por que essa pessoa trouxe tanta coisa?”

Nada aconteceu de fato — ninguém te atacou, nada deu errado — mas, dentro, alguma coisa já começou a acelerar.

A ansiedade, nesse cenário, não vem como um grande evento. Ela se instala nos detalhes. No olhar que escapa para as outras filas. No cálculo mental que tenta prever qual caixa vai liberar primeiro. Na impaciência que não é exatamente com o tempo… mas com a falta de controle sobre ele.

E é curioso como a gente tenta negociar com essa sensação. Muda de fila. Volta. Suspira. Olha o celular. Como se qualquer pequena ação pudesse dar a ilusão de que estamos retomando o comando da situação.

Mas não estamos.

Søren Kierkegaard dizia que a ansiedade é “a vertigem da liberdade”. Talvez, numa fila de supermercado, essa liberdade se manifeste de um jeito estranho: você pode sair da fila, pode trocar, pode desistir da compra… mas, ao mesmo tempo, não quer fazer nenhuma dessas coisas. Fica preso numa liberdade que não resolve.

E aí surge outra camada: a comparação.

Você observa o carrinho dos outros, o ritmo do caixa, o comportamento das pessoas. Parece que todo mundo está mais certo do que você. Mais tranquilo. Mais no lugar. Como se houvesse um jeito correto de esperar — e você tivesse perdido esse manual.

Só que não existe manual nenhum. Existe só gente tentando atravessar o mesmo intervalo de tempo.

Talvez o mais desconcertante seja perceber que a fila não é o problema. Ela só revela uma dificuldade mais funda: a de estar onde se está, sem tentar acelerar o que não depende da gente.

Porque, no fundo, a ansiedade na fila não é sobre pagar compras. É sobre querer que o futuro chegue antes do presente terminar.

E o presente, ali, é simples demais pra agradar.

Um carrinho. Um chão frio. Um visor marcando preços. Nada acontecendo. E, ainda assim, tudo acontecendo por dentro.

Pensei: Talvez o exercício mais difícil — e mais raro — seja ficar.

Ficar na fila escolhida. Ficar no tempo que existe. Ficar sem simular atalhos mentais. Só observar o movimento sem tentar corrigi-lo.

Não é passividade. É uma espécie de ajuste fino com a realidade.

Porque, em algum momento entre um cliente e outro, surge uma percepção quase silenciosa: a fila anda. Sempre andou. Não no ritmo que a gente queria, mas no ritmo que ela pode.

E talvez a vida funcione mais ou menos assim também.

A gente só não percebe… porque está ocupado demais tentando trocar de fila.

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