O paradoxo do desvio
Há
algo de desconfortável — quase provocador — na ideia de que o crime não é
apenas uma falha da sociedade, mas também um de seus ingredientes.
Intuitivamente, queremos um mundo sem desvios, sem violência, sem
transgressões. Ainda assim, Émile Durkheim sugeriu o oposto: uma
sociedade completamente “sem crime” seria impossível — e, talvez, até
indesejável. O crime, para ele, não é um acidente; é um fenômeno normal que
cumpre uma função social. A questão então deixa de ser “como eliminar o crime?”
e passa a ser “o que o crime faz pela coesão social?”.
O
crime como espelho moral coletivo
Durkheim
argumenta que o crime ajuda a definir os limites do aceitável. Ao condenarmos
um ato, reafirmamos valores compartilhados. Quando a sociedade reage a uma
transgressão, ela não apenas pune o infrator, mas reforça sua própria
identidade moral. Em outras palavras, o crime atua como um espelho: revela
aquilo que somos ao mostrar aquilo que rejeitamos.
Essa
ideia dialoga com o conceito de “consciência coletiva”, central em
Durkheim. Sem desvios, essa consciência poderia se tornar invisível — como o ar
que só notamos quando falta. Assim, o criminoso, paradoxalmente, contribui para
a manutenção da ordem ao desafiar seus limites.
A
tensão produtiva: conflito e mudança
Se
Durkheim vê o crime como funcional, outros pensadores ampliam essa visão ao
enfatizar o papel do conflito. Karl Marx, por exemplo, não celebraria o
crime, mas o interpretaria como sintoma das desigualdades estruturais. Para
ele, a transgressão pode emergir de condições materiais injustas — e, nesse
sentido, aponta para a necessidade de transformação social.
Já
Michel Foucault desloca o foco para os mecanismos de controle. Em sua
análise, o crime e sua punição fazem parte de uma rede de poder que disciplina
corpos e comportamentos. A resposta social ao crime, portanto, não apenas une —
ela também normaliza, vigia e molda.
A
convergência desses pensadores revela um ponto crucial: o crime não é apenas um
ato individual, mas um fenômeno relacional. Ele emerge da tensão entre normas e
indivíduos, entre estrutura e agência. E é nessa tensão que a sociedade se
redefine continuamente.
Solidariedade
por contraste: um mecanismo ambíguo
A
ideia de que o crime fortalece a solidariedade pode ser compreendida como um
processo de “união por contraste”. Quando um ato considerado inaceitável
ocorre, indivíduos que talvez divergiriam em outros aspectos encontram um
terreno comum na condenação daquele ato.
Mas
essa solidariedade não é neutra. Ela pode ser inclusiva — reforçando valores de
justiça e proteção coletiva — ou excludente, criando estigmas e
marginalizações. Aqui, a crítica contemporânea se impõe: até que ponto a coesão
social construída em torno da punição não reproduz desigualdades?
Uma
leitura contemporânea: solidariedade reflexiva
Em
sociedades complexas e plurais, talvez seja necessário ir além da solidariedade
automática descrita por Durkheim. Em vez de uma coesão baseada apenas na reação
ao desvio, podemos imaginar uma “solidariedade reflexiva” — uma forma de
vínculo social que reconhece o conflito, mas busca compreendê-lo antes de
simplesmente condená-lo.
Essa
perspectiva dialoga com a ideia de justiça restaurativa, na qual o crime não é
apenas punido, mas analisado em seu contexto, envolvendo vítimas, ofensores e
comunidade. Aqui, a solidariedade deixa de ser apenas reativa e passa a ser
construtiva.
O
incômodo necessário
O
pensamento de Durkheim continua provocador porque nos obriga a encarar um
paradoxo: a ordem social depende, em certa medida, daquilo que a ameaça. O
crime, longe de ser apenas destrutivo, pode desempenhar um papel estruturante —
desde que a sociedade seja capaz de refletir sobre suas próprias respostas.
Talvez
o verdadeiro desafio não seja eliminar o desvio, mas transformar a maneira como
reagimos a ele. Em vez de uma solidariedade que nasce apenas da exclusão do
outro, podemos aspirar a uma solidariedade que emerge da compreensão — uma que
não precise do crime para existir, mas que saiba aprender com ele.
Penso
que temos criminosos demais, além do tolerável, não temos prisões suficientes
para prender todos, o número é desproporcional, sinal de uma sociedade doente
que ameaça a si mesma.
Ao
mesmo tempo penso que seja compreensível sentir que a sociedade está “doente”
diante da percepção de corrupção recorrente no Brasil, mas essa leitura é ampla
demais e pode distorcer a realidade: a corrupção existe em muitos países e
costuma refletir falhas institucionais, incentivos e níveis de impunidade, não
um defeito essencial da população; ao mesmo tempo, há grande parcela da
sociedade que rejeita essas práticas, além de órgãos de controle, imprensa e
investigações — como a Operação Lava Jato — que expõem e combatem
irregularidades, o que pode até aumentar a sensação de que o problema é maior
do que antes; assim, o quadro é mais bem descrito como um conjunto de problemas
estruturais relevantes convivendo com mecanismos de correção, e não como uma
“doença generalizada” da sociedade.
Em vez de concluir que a sociedade do Brasil está “doente”, vale encarar a corrupção como um problema estrutural que pode ser enfrentado com pressão por transparência, fortalecimento das instituições e atitudes cotidianas mais íntegras — afinal, se há falhas que se repetem, também existem mecanismos e pessoas dispostas a corrigi-las, e é nesse equilíbrio que reside a possibilidade real de mudança, que ganha força quando se soma à solidariedade entre cidadãos comprometidos com um país mais justo.

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