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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Abertura Existencial


 

Tem coisas que simplesmente não fecham — e talvez seja aí que começa tudo que realmente importa. A gente cresce achando que respostas são o ponto final da vida, quando, na prática, são só vírgulas elegantes numa conversa que nunca termina. O que fica em aberto não é falha: é condição.

Desde cedo, somos treinados a concluir. Resolver problemas, terminar tarefas, dar sentido. Mas há um desconforto curioso quando algo escapa — uma pergunta sem resposta, um sentimento sem nome, uma história interrompida. Esse desconforto costuma ser visto como algo a corrigir. E se, ao contrário, ele fosse o próprio motor da experiência humana?

Martin Heidegger sugeria que o ser humano é, antes de tudo, um “ser-em-aberto”, lançado no mundo sem manual definitivo. Não chegamos prontos, nem com um destino totalmente desenhado. Somos projeto — e projeto implica incompletude. O aberto não é um acidente, mas a estrutura da existência.

O curioso é que o aberto assusta porque revela liberdade. Enquanto algo está fechado, definido, ele nos poupa da responsabilidade de decidir. Mas o que fica em aberto exige posicionamento. Exige escolha. E, como bem percebeu Jean-Paul Sartre, escolher é sempre angustiante, porque ao escolher definimos não só o que fazemos, mas quem somos.

Há também uma dimensão temporal nesse “aberto”. O passado nunca está totalmente encerrado; ele é reinterpretado à luz do presente. O futuro, por sua vez, é pura abertura — um campo de possibilidades ainda não realizadas. Nesse intervalo, o presente se torna um ponto instável, quase um portal, onde o que foi e o que pode ser se encontram sem jamais se fixar.

Mas talvez o mais radical seja pensar que o sentido não está nas respostas, mas no próprio processo de manter questões vivas. Friedrich Nietzsche desconfiava das verdades absolutas justamente porque elas fecham o mundo, tiram dele sua potência criativa. Um mundo completamente explicado seria, paradoxalmente, um mundo esvaziado.

O que fica em aberto, então, não é ausência de sentido — é excesso. É aquilo que ainda pode ser interpretado, vivido, transformado. É o espaço onde a arte nasce, onde o pensamento se reinventa e onde a vida escapa de se tornar apenas repetição.

Talvez maturidade não seja aprender a fechar tudo, mas desenvolver intimidade com o inacabado. Aceitar que algumas perguntas não pedem respostas, mas companhia. Que certos caminhos não levam a destinos, mas a novas encruzilhadas.

E que viver, no fundo, é sustentar o aberto sem tentar apressar o fechamento.

Porque é ali, nesse intervalo incômodo e fértil, que algo verdadeiramente nosso pode surgir.

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