Tem
dias que a gente acorda já cansado. Antes mesmo do café, o peso do mundo já nos
visita: mensagens não respondidas, metas inalcançadas, promessas esquecidas.
Parece que vivemos como se tudo fosse urgente, tudo fosse essencial, tudo fosse
pessoal. A isso, Nietzsche poderia chamar de "sobrecarga do
espírito". Mas será que esse excesso é apenas um mal moderno? Ou já havia,
no âmago da existência humana, uma tendência a se deixar esmagar pelo que
carrega?
Nietzsche,
em A Gaia Ciência e Assim Falava Zaratustra, nos
convida a olhar para o que nos oprime não como vítimas, mas como criadores. O
homem moderno — diz ele — se tornou um ser de sobrecarga porque perdeu a arte
de esquecer. Acumula lembranças, dores, moralismos, expectativas, tudo em nome
de uma pretensa evolução. Mas Nietzsche não acredita nesse acúmulo como
virtude. Para ele, o excesso pesa, imobiliza, transforma o ser humano em um
animal ressentido, incapaz de dançar.
O
ser de sobrecarga é aquele que vive carregando tudo: o passado que não digeriu,
os valores que não questiona, os desejos que não são seus. É um Atlas
neurótico, dobrado não sob o peso do mundo, mas sob o peso de seus próprios
“deveres”. O inovador aqui é pensar que a sobrecarga não é só uma questão de
excesso externo, mas uma falha de digestão interna. Nietzsche nos sugere que a
vida é uma arte do estômago: só vive bem quem sabe digerir.
Então,
qual a saída? Nietzsche propõe o contrário do acúmulo: o esquecimento ativo, o
desprendimento criador, a leveza do espírito que sabe dizer “sim” ao instante.
O ideal nietzschiano não é um ser carregado de valores, mas um artista de si
mesmo, alguém que escolhe o que vale a pena carregar e, principalmente, o que
deve ser jogado fora. O Übermensch, ou além-do-homem, é aquele que
transforma a sobrecarga em potência criadora, que usa a pressão para fazer
jorrar sentido, não para se afundar em lamentos.
Hoje,
quando sentimos a alma esgotada, talvez não estejamos trabalhando demais, mas
vivendo de menos. Talvez estejamos apenas acumulando, como aqueles
colecionadores de tralhas emocionais que Nietzsche tanto criticava. O convite
nietzschiano é claro: esvazie-se. Esqueça. Escolha o que merece ser lembrado. E
então, leve apenas o necessário — como quem dança, não como quem arrasta.
Afinal,
como dizia o próprio Nietzsche: “Você precisa ter o caos dentro de si para
dar à luz uma estrela dançante.” Mas cuidado: caos demais vira peso.
Estrela que não dança, explode.
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