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domingo, 1 de novembro de 2026

Má Conduta


A má conduta sempre teve um estranho privilégio: ela não apenas acontece, mas exige explicação. E, curiosamente, explicar o desvio costuma dar mais trabalho do que sustentar a virtude. É como se o bem fosse silencioso por natureza, enquanto o mal precisasse ser constantemente “editado” para caber numa narrativa aceitável.

Byung-Chul Han ajuda a iluminar esse fenômeno quando descreve a sociedade contemporânea como uma economia da transparência e da performance. Nela, tudo precisa ser narrado, justificado e otimizado — inclusive o erro. Só que há uma assimetria fundamental: a boa conduta raramente precisa de defesa; ela se sustenta como “padrão”. Já a má conduta nasce como ruído, e o ruído exige tradução.

O que está em jogo não é apenas moral, mas cognitivo. Daniel Kahneman, ao diferenciar os sistemas de pensamento rápido e lento, mostra que nossas decisões intuitivas tendem a priorizar atalhos emocionais. A má conduta, nesse sentido, surge frequentemente do sistema rápido — impulsivo, situacional, pouco deliberativo. Já a justificativa entra depois, como operação do sistema lento, tentando reconstruir coerência onde só havia impulso. Ou seja: primeiro o ato, depois o mito explicativo.

Mas por que esse mito precisa ser tão elaborado? Porque a mente humana odeia incoerência mais do que odeia o erro. Leon Festinger chamou isso de dissonância cognitiva: quando agimos contra nossos valores, não suportamos permanecer em contradição. Então não mudamos apenas o comportamento — mudamos a narrativa. A má conduta não é apenas praticada; ela é reinterpretada até parecer inevitável, racional, ou até moralmente defensável.

Aqui aparece uma inversão curiosa: a boa conduta é simples porque não precisa negociar consigo mesma. Ela não exige desculpas. Já a má conduta precisa sobreviver à própria consciência, e isso cria um esforço contínuo de engenharia narrativa. Culpa-se o contexto, o sistema, a pressão social, a infância, o mercado, a serotonina, qualquer coisa que permita deslocar a autoria sem dissolver completamente a identidade.

E talvez seja aqui que a coisa fique mais incômoda: não justificamos a má conduta apenas para enganar os outros, mas para não perder o senso de continuidade de quem acreditamos ser. Michel Foucault já sugeria que o sujeito moderno não é apenas alguém que age, mas alguém que se constitui através de discursos sobre si mesmo. Assim, justificar o desvio não é um ato secundário — é uma forma de autopreservação.

O paradoxo é que quanto mais complexa a justificativa, mais evidente se torna a ruptura original. A boa conduta não precisa de arquitetura verbal; ela se sustenta na simplicidade do ato. Já a má conduta constrói palácios de linguagem para esconder uma rachadura inicial.

No fundo, talvez a pergunta não seja por que justificamos mais o erro do que o acerto, mas por que o erro precisa continuar sendo habitável dentro de nós. A resposta pode ser desconfortável: porque não somos coerentes, somos narráveis. E toda narrativa humana é menos um espelho da verdade e mais uma tentativa de manter a continuidade de quem, apesar de tudo, insiste em se reconhecer no próprio discurso.


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