A
má conduta sempre teve um estranho privilégio: ela não apenas acontece, mas
exige explicação. E, curiosamente, explicar o desvio costuma dar mais trabalho
do que sustentar a virtude. É como se o bem fosse silencioso por natureza,
enquanto o mal precisasse ser constantemente “editado” para caber numa
narrativa aceitável.
Byung-Chul
Han
ajuda a iluminar esse fenômeno quando descreve a sociedade contemporânea como
uma economia da transparência e da performance. Nela, tudo precisa ser narrado,
justificado e otimizado — inclusive o erro. Só que há uma assimetria
fundamental: a boa conduta raramente precisa de defesa; ela se sustenta como
“padrão”. Já a má conduta nasce como ruído, e o ruído exige tradução.
O
que está em jogo não é apenas moral, mas cognitivo. Daniel Kahneman, ao
diferenciar os sistemas de pensamento rápido e lento, mostra que nossas
decisões intuitivas tendem a priorizar atalhos emocionais. A má conduta, nesse
sentido, surge frequentemente do sistema rápido — impulsivo, situacional, pouco
deliberativo. Já a justificativa entra depois, como operação do sistema lento,
tentando reconstruir coerência onde só havia impulso. Ou seja: primeiro o ato,
depois o mito explicativo.
Mas
por que esse mito precisa ser tão elaborado? Porque a mente humana odeia
incoerência mais do que odeia o erro. Leon Festinger chamou isso de
dissonância cognitiva: quando agimos contra nossos valores, não suportamos
permanecer em contradição. Então não mudamos apenas o comportamento — mudamos a
narrativa. A má conduta não é apenas praticada; ela é reinterpretada até
parecer inevitável, racional, ou até moralmente defensável.
Aqui
aparece uma inversão curiosa: a boa conduta é simples porque não precisa
negociar consigo mesma. Ela não exige desculpas. Já a má conduta precisa
sobreviver à própria consciência, e isso cria um esforço contínuo de engenharia
narrativa. Culpa-se o contexto, o sistema, a pressão social, a infância, o
mercado, a serotonina, qualquer coisa que permita deslocar a autoria sem
dissolver completamente a identidade.
E
talvez seja aqui que a coisa fique mais incômoda: não justificamos a má conduta
apenas para enganar os outros, mas para não perder o senso de continuidade de
quem acreditamos ser. Michel Foucault já sugeria que o sujeito moderno
não é apenas alguém que age, mas alguém que se constitui através de discursos
sobre si mesmo. Assim, justificar o desvio não é um ato secundário — é uma
forma de autopreservação.
O
paradoxo é que quanto mais complexa a justificativa, mais evidente se torna a
ruptura original. A boa conduta não precisa de arquitetura verbal; ela se
sustenta na simplicidade do ato. Já a má conduta constrói palácios de linguagem
para esconder uma rachadura inicial.
No
fundo, talvez a pergunta não seja por que justificamos mais o erro do que o
acerto, mas por que o erro precisa continuar sendo habitável dentro de nós. A
resposta pode ser desconfortável: porque não somos coerentes, somos narráveis.
E toda narrativa humana é menos um espelho da verdade e mais uma tentativa de
manter a continuidade de quem, apesar de tudo, insiste em se reconhecer no
próprio discurso.
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