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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Distancismo

Há dias em que a gente percebe que não está exatamente sozinho — mas também não está com ninguém. É como se existisse um espaço invisível entre nós e o mundo, um tipo de intervalo que não chega a ser ausência, mas também não é presença plena. A gente responde mensagens, participa de conversas, cumpre papéis… mas algo parece sempre alguns centímetros fora de alcance. Talvez seja isso que eu chamaria de distancismo: não o ato de se afastar, mas o hábito de nunca estar completamente próximo.

O distancismo não é o isolamento clássico. Não exige portas fechadas nem silêncios absolutos. Pelo contrário, ele prospera no meio do ruído, nas interações constantes, na vida cotidiana aparentemente normal. Ele aparece quando você escuta alguém falar e, enquanto isso, uma parte sua já está em outro lugar. Ou quando você mesmo fala, mas sente que suas palavras não carregam exatamente você — como se fossem versões editadas, seguras, aceitáveis.

Nesse sentido, o distancismo não é apenas social — é ontológico. Ele afeta o modo como existimos. Estamos, mas em modo parcial.

Aqui, vale trazer Ludwig Wittgenstein, que dizia que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. O distancismo poderia ser visto como uma espécie de falha nesse limite: não porque não conseguimos falar, mas porque falamos sem realmente habitar aquilo que dizemos. A linguagem continua funcionando — talvez até melhor do que nunca —, mas perde densidade existencial. Falamos muito, comunicamos pouco, e nos implicamos menos ainda.

Há também um fenômeno curioso que revela esse distanciamento: a sensação de que, ao fazer algo errado longe de casa, aquilo pesa menos — quase como se não nos atingisse de verdade. Em outra cidade, em outro contexto, sob outros olhares, certas ações parecem não nos pertencer completamente. Como se a distância geográfica criasse uma espécie de suspensão moral, um intervalo onde o eu habitual fica em segundo plano. Mas isso não passa de uma ilusão do distancismo: não é que o ato tenha menos impacto, é que nos sentimos menos implicados nele. A distância, nesse caso, não muda o que fizemos — apenas altera a forma como nos percebemos dentro do que fizemos.

Pense numa situação banal: alguém pergunta “tudo bem?”, e você responde “tudo”, quase automaticamente. Não há mentira explícita, mas há um afastamento. A resposta não é uma ponte — é um protocolo. O distancismo mora exatamente aí: na substituição da experiência viva por suas versões abreviadas.

Mas ele também pode ser mais sutil. Surge quando evitamos nos envolver profundamente com algo — uma ideia, uma pessoa, uma decisão — porque o envolvimento exige risco. Estar próximo implica ser afetado, e ser afetado implica perder o controle sobre si mesmo. O distancismo, então, funciona como uma espécie de anestesia existencial: mantém tudo sob controle, mas ao custo de tornar tudo um pouco mais raso.

Curiosamente, o distancismo não é necessariamente consciente. Muitas vezes, ele se instala como uma defesa silenciosa. Num mundo em que tudo é rápido, exposto e descartável, manter uma certa distância pode parecer prudente. O problema é quando essa prudência vira padrão — e, de tanto evitar o impacto das coisas, acabamos evitando também o próprio viver.

Há, porém, uma ironia nisso tudo: quanto mais nos protegemos através da distância, mais sentimos um tipo de vazio que só poderia ser preenchido pela proximidade que evitamos. É como se o distancismo fosse uma solução que cria o problema que tenta resolver.

Talvez o desafio não seja eliminar o distancismo — ele tem sua função, afinal —, mas perceber quando ele deixa de ser escolha e passa a ser condição. Quando não conseguimos mais nos aproximar, mesmo querendo.

E aí, talvez, a saída não esteja em grandes gestos, mas em pequenas quebras de protocolo: responder “não sei se estou bem” em vez de “tudo certo”; ouvir alguém até o fim sem ensaiar uma resposta; permitir-se ser afetado por algo sem imediatamente neutralizar a experiência.

Porque, no fundo, o contrário do distancismo não é a proximidade física — é a presença real. E essa, ao contrário do que parece, não exige esforço extraordinário. Exige apenas uma coisa rara: estar inteiro onde já estamos.