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domingo, 18 de janeiro de 2026

Sagrado e Profano


Eu aprendi que o sagrado não mora apenas nos altares, assim como o profano não vive apenas nas quedas. Eles se misturam no mesmo gesto, no mesmo dia, no mesmo corpo. O café tomado em silêncio pode ser mais sagrado que uma oração distraída; uma risada fora de hora pode ser mais verdadeira que uma reverência vazia. O sagrado nasce quando algo nos atravessa com sentido. O profano surge quando repetimos sem presença. No fundo, não é o lugar que decide, nem o ritual, nem a forma — é a qualidade do olhar. E talvez a maturidade consista exatamente nisso: perceber que o sagrado não está acima da vida, mas escondido dentro dela, e que o profano não é o oposto do divino, mas apenas a vida quando esquecemos de senti-la.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Idiotizar os Sentidos

Um ensaio sobre a anestesia cotidiana

Outro dia eu percebi que tinha passado por uma padaria inteira sem sentir o cheiro do pão. Não por falta de pão — ele estava lá, quente, generoso, quase gritando — mas por falta de mim. Eu estava presente só no corpo. O resto tinha ido responder mensagens, organizar preocupações, simular produtividade.

Foi ali que me ocorreu: talvez a gente esteja aprendendo, com uma eficiência assustadora, a idiotizar os sentidos.

Não no sentido clínico, claro. Mas no sentido filosófico: torná-los incapazes de produzir experiência.

 

Quando sentir deixa de ser experiência

Os sentidos não são apenas canais biológicos. Eles são formas de pensamento. Ver não é apenas captar luz; é interpretar. Ouvir não é apenas vibração; é atribuir sentido. Tocar não é apenas contato; é reconhecimento.

Merleau-Ponty dizia que o corpo é nossa forma de estar no mundo. Mas o corpo moderno foi treinado para atravessar o mundo, não para habitá-lo.

A idiotização dos sentidos acontece quando:

  • a visão vira escaneamento,
  • a audição vira ruído de fundo,
  • o tato vira acidente,
  • o paladar vira função,
  • o olfato vira quase irrelevante.

O mundo deixa de ser experiência e vira cenário.

Não é que os sentidos falhem. Eles são deseducados.

A cultura da velocidade, da repetição e da utilidade não destrói os sentidos — ela os simplifica. E tudo que é simplificado perde profundidade.

Nietzsche temia uma humanidade cansada demais para sentir tragédia e alegria com intensidade. Talvez estejamos exatamente aí: não sofremos demais, nem amamos demais, nem nos encantamos demais. Apenas administramos.

 

Onde os sentidos perdem a dignidade

No ônibus, alguém escuta música alta no fone. A música não atravessa. Ela apenas acompanha.

No almoço, mastigamos enquanto olhamos a tela. O gosto é secundário. Comer vira logística.

No trabalho, digitamos sem ouvir o som das teclas. As mãos não sabem mais o que fazem — apenas executam.

No encontro, ouvimos esperando a nossa vez de falar. A voz do outro vira intervalo.

Até o toque se tornou apressado. Abraços com prazo. Beijos com agenda.

Os sentidos, que deveriam ser pontes, viraram atalhos.

 

O efeito invisível: quando a vida perde espessura

Quando idiotizamos os sentidos, a vida não fica triste. Ela fica plana.

Nada dói muito. Nada encanta muito. Nada marca muito.

E então surge a sensação estranha:
“Está tudo bem, mas algo está faltando.”

O que falta não é evento. É presença.

A gente não vive menos acontecimentos. A gente vive menos experiência dentro deles.

 

Um possível resgate

Desidiotizar os sentidos não exige mudança radical. Exige microdesobediências:

  • Comer algo em silêncio.
  • Olhar um rosto até ele deixar de ser função.
  • Escutar uma música sem fazer mais nada.
  • Tocar um objeto como quem o descobre.
  • Andar sem objetivo por cinco minutos.

Não para virar místico. Mas para lembrar que existir não é só operar.

 

A ética de sentir

Talvez o maior gesto revolucionário hoje seja simples e silencioso: sentir de novo.

Não como quem busca prazer.
Mas como quem se recusa a virar superfície.

Porque idiotizar os sentidos é perder o mundo sem que o mundo vá embora.

E recuperar os sentidos é recuperar algo ainda mais raro:
a capacidade de estar dentro da própria vida.


domingo, 4 de janeiro de 2026

Princípio Contraintuitivo

Quando a vida funciona ao contrário

A gente aprende cedo a confiar no óbvio. Se algo dói, evita. Se algo falha, força mais um pouco. Se a resposta não vem, insiste. Parece razoável — quase automático. Mas, com o tempo, a vida começa a apresentar um certo deboche silencioso: quanto mais você aperta, mais escapa; quanto mais corre, mais se perde. É aí que, sem aviso, entra em cena o princípio contraintuitivo.

Pensei em escrever este ensaio como parte dessa sensação estranha de que o mundo, em muitos momentos, parece funcionar ao contrário do manual, 2026 começou assim, deste jeito.

A desconfiança do óbvio

O pensamento filosófico sempre teve uma relação complicada com a intuição imediata. Parmênides desconfiava dos sentidos. Platão suspeitava do que aparece à primeira vista. Nietzsche desconfiava até da desconfiança. O princípio contraintuitivo nasce justamente dessa tradição: a ideia de que o primeiro impulso raramente é o mais verdadeiro.

No cotidiano, a intuição costuma confundir rapidez com profundidade. Decidir rápido parece sinônimo de inteligência; ter respostas prontas parece maturidade. Mas a filosofia sussurra outra coisa: talvez pensar seja, antes de tudo, suspender o gesto. Não reagir de imediato. Não preencher o silêncio com qualquer coisa.

O contraintuitivo começa quando a pergunta não pede ação, mas espera.

Força não gera, necessariamente, resultado

Existe uma crença moderna quase religiosa de que esforço sempre produz efeito proporcional. Trabalhe mais, insista mais, queira mais — e tudo se alinhará. O princípio contraintuitivo desmonta isso com elegância cruel: há domínios da vida em que o excesso de vontade destrói o próprio objetivo.

Amar é um deles. Criar é outro. Pensar, talvez o principal.

Quanto mais alguém tenta controlar o amor, mais o sufoca. Quanto mais um artista tenta “acertar”, menos cria. Quanto mais alguém tenta parecer inteligente, menos pensa. A filosofia aqui se aproxima do taoísmo, mesmo sem citá-lo: agir sem forçar, deixar que o real responda antes de ser dominado.

O contraintuitivo ensina que há forças que só funcionam quando não são violentadas.

O fracasso como método

Outra inversão curiosa: errar costuma ser visto como desvio, mas filosoficamente ele pode ser um método. Sócrates construiu sua sabedoria a partir do reconhecimento do não-saber. Kierkegaard viu na angústia não uma falha, mas uma condição de possibilidade da liberdade. Até a dúvida, tão malvista, aparece como ferramenta legítima de lucidez.

O princípio contraintuitivo propõe algo desconfortável: não é apesar do erro que avançamos, mas por meio dele. O erro quebra a ilusão de linearidade. Ele nos obriga a refazer perguntas melhores, menos ingênuas.

Talvez a maturidade não seja saber o caminho, mas aprender a ler os desvios.

Menos controle, mais presença

A modernidade nos treinou para administrar tudo: tempo, emoções, produtividade, até o descanso. O princípio contraintuitivo reage com uma provocação simples: quanto mais você tenta controlar a vida, menos você está nela.

Presença não se impõe. Ela acontece quando o controle falha. É no momento em que o plano dá errado, que o discurso trava, que o silêncio se instala, que algo real aparece. A filosofia, quando viva, não oferece mapas fechados, mas sensibilidade para o inesperado.

Nesse sentido, o contraintuitivo não é uma técnica — é uma postura existencial.

Aprender a ouvir o avesso

O princípio contraintuitivo não promete conforto. Ele pede uma coisa rara: humildade diante do real. Humildade para aceitar que o mundo não obedece à nossa pressa, que o sentido não surge da insistência cega e que, muitas vezes, o caminho mais eficaz passa justamente por onde evitaríamos passar.

Pensar contra a própria intuição não é negar a si mesmo, mas refinar o olhar. É aceitar que a vida, como a filosofia, gosta de falar baixo — e quase sempre diz algo importante quando paramos de tentar ter razão.

Talvez, no fim, o verdadeiro aprendizado seja este: nem tudo que funciona faz sentido à primeira vista — e nem tudo que faz sentido funciona.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ser e Não Ser


Outro dia, parado na fila do café, num insight percebi que meu corpo estava ali — carteira no bolso, celular na mão — mas minha mente vagava em outro lugar. Eu era e, ao mesmo tempo, não era. Aquela cena banal, quase ridícula, me lembrou da velha pergunta que atravessa séculos: ser ou não ser? Só que, fora dos palcos de Shakespeare, essa questão não aparece em forma de drama grandioso; ela se infiltra na vida miúda, nos instantes em que existimos pela metade.

Este ensaio nasce dessa estranheza cotidiana: como podemos estar tão presentes e tão ausentes ao mesmo tempo? E o que isso diz sobre o que chamamos de “ser”?

O Ser como presença viva

Na filosofia clássica, ser costuma significar aquilo que existe de modo pleno, estável, afirmado. Mas, numa leitura espiritualista, o ser não é um objeto fixo — é uma presença consciente. Ser é estar inteiro no que se vive.

Pense numa conversa sincera, daquelas raras, em que alguém nos fala algo importante e nós realmente escutamos, sem ensaiar respostas, sem olhar o relógio. Nesse instante, há uma espécie de alinhamento: corpo, atenção e sentido. Ali, somos. Não porque fazemos algo extraordinário, mas porque estamos inteiros.

Espiritualmente, o ser não se define pelo papel social, pelo nome ou pela função. Ele se manifesta quando há coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos. O ser é um acontecimento, não um rótulo.

O Não Ser como ausência disfarçada

Já o não ser raramente se apresenta como vazio absoluto. Ele costuma vestir fantasias respeitáveis: rotina, produtividade, adaptação. Não ser é viver no automático.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • dizemos “tudo bem” sem sequer consultar o que sentimos;
  • cumprimos tarefas o dia inteiro e, à noite, temos a sensação de não ter vivido nada;
  • repetimos opiniões que não são nossas, apenas para evitar atrito.

O não ser, nesse sentido, não é inexistência, mas desconexão. É estar fisicamente presente e espiritualmente ausente. Uma espécie de vida em modo economia de energia.

A tensão criadora entre Ser e Não Ser

O ponto inovador talvez esteja aqui: ser e não ser não são inimigos absolutos. Eles formam uma tensão criadora. O não ser revela onde estamos fragmentados; o ser aponta a possibilidade de integração.

Há dias em que o cansaço nos domina e tudo o que conseguimos fazer é funcionar. Isso não nos condena. O problema surge quando esse estado vira regra, quando esquecemos que há algo em nós que pede mais do que sobreviver.

Espiritualmente, o não ser pode funcionar como um chamado silencioso. Ele incomoda, esvazia, gera aquela pergunta incômoda: “é só isso?” E essa pergunta já é um primeiro gesto de ser.

Pequenas cenas de escolha

A vida não nos pergunta “ser ou não ser?” em tom trágico. Ela pergunta em detalhes:

  • Responder ou reagir?
  • Escutar ou apenas esperar a vez de falar?
  • Viver para parecer ou parecer para viver?

Cada escolha dessas, por menor que seja, desloca-nos um pouco mais para o ser ou para o não ser. Não se trata de pureza espiritual, mas de grau de presença.

Um olhar espiritualista final

Do ponto de vista espiritual, o ser não se conquista de uma vez por todas. Ele se relembra. Há algo em nós que sabe quando estamos sendo verdadeiros e quando estamos apenas representando.

Ser é lembrar-se de si mesmo no meio do mundo.

Não ser é esquecer-se, ainda que temporariamente.

Talvez a sabedoria não esteja em eliminar o não ser, mas em reconhecê-lo rapidamente — como quem percebe que se distraiu durante uma caminhada e, sem culpa, retorna ao caminho.

Concluindo...(quase um sussurro)

Ser e não ser não são estados fixos, mas movimentos. Oscilamos entre eles todos os dias. A espiritualidade, longe de prometer uma resposta definitiva, nos oferece algo mais simples e mais difícil: atenção.

Onde há atenção, o ser começa a respirar.

Onde ela falta, o não ser se instala.

E talvez viver seja isso: aprender, mil vezes, a voltar.


domingo, 28 de dezembro de 2025

Nostalgia do Analógico


Tenho sentido falta do tempo em que as coisas tinham peso. Não só peso físico — o clique seco de um botão, o chiado breve antes da música começar — mas peso de espera. A fotografia precisava de revelação, a carta precisava de dias, a fita precisava ser rebobinada com uma caneta. Nada era instantâneo, e talvez por isso tudo parecia mais inteiro.

A nostalgia do analógico não é apenas saudade de objetos; é saudade de um ritmo. O relógio não acelerava porque o dedo deslizou na tela. A conversa não se interrompia por uma notificação que piscava feito vaga-lume ansioso. Quando alguém ligava, ligava de verdade. Quando a gente errava, errava sem “desfazer”.

No cotidiano, isso aparece em pequenas frustrações modernas: ouvir música pulando faixas sem escutar nenhuma até o fim; tirar cinquenta fotos para não escolher nenhuma; escrever mensagens longas e apagar antes de enviar. O analógico, com todas as suas limitações, nos obrigava a decidir. E decidir é um exercício de presença.

Há também uma ética do erro no analógico. O disco arranhava, a fita embolava, a foto saía tremida — e ficava assim. O defeito era parte da história. Hoje, corrigimos tudo em tempo real, filtramos, polimos, apagamos o que não combina com a vitrine. Talvez por isso a vida digital pareça tão lisa e, paradoxalmente, tão cansativa.

Lembro de Vilém Flusser, pensador tão nosso, dizendo que os aparelhos tendem a nos programar. No analógico, o aparelho pedia cuidado; no digital, pede atenção contínua. Um exige mãos; o outro exige olhos. Um nos ensina paciência; o outro, urgência. Não é um elogio ingênuo ao passado, mas uma desconfiança saudável do presente.

A nostalgia do analógico, no fundo, é uma saudade de fricção. De quando o mundo oferecia resistência e, por isso mesmo, nos devolvia experiência. Talvez não precisemos voltar às fitas e às cartas, mas aprender com elas: desacelerar o gesto, aceitar o erro, sustentar o silêncio entre uma coisa e outra.

Porque às vezes não é o som mais limpo que nos toca — é o chiado antes da música começar.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Espanto e Reverência


Como quem pensa alto, penso que há dias em que nada acontece — e, ainda assim, alguma coisa nos atravessa. Não é alegria, nem tristeza. É um silêncio com peso. A gente abre a janela, vê o céu fazendo o que sempre fez, e sente um leve desconforto: como isso continua existindo sem pedir explicação? É nesse intervalo estranho, entre o banal e o inexplicável, que moram o espanto e a reverência. Não como sentimentos raros, mas como modos de estar no mundo que desaprendemos a usar.

Vivemos treinados para reagir, não para nos espantar. Para dominar, não para reverenciar. O ensaio que segue é um convite a desacelerar o gesto automático e reaprender dois movimentos antigos do espírito: o espanto que abre, e a reverência que sustenta.

Desde Aristóteles sabemos — quase de cor, mas pouco de corpo — que a filosofia nasce do thaumázein, do espanto. Mas o que raramente se diz é que o espanto não nasce do extraordinário: ele nasce quando o ordinário falha em se explicar sozinho.

O espanto é uma fratura no hábito. É quando algo, sem fazer barulho, desarma nossas categorias.

No cotidiano, ele aparece de forma discreta:

  • quando uma criança faz uma pergunta óbvia demais (“por que as pessoas envelhecem?”) e nenhuma resposta funciona;
  • quando um pai percebe, de repente, que a voz do filho mudou;
  • quando alguém, no ônibus lotado, olha um rosto desconhecido e se dá conta de que ali há uma vida inteira inacessível.

O espanto não é ignorância; é lucidez súbita. Ele nos mostra que sabemos menos do que fingimos — e isso, paradoxalmente, nos torna mais atentos.

Mas o espanto, sozinho, é instável. Ele pode virar curiosidade superficial, consumo de novidade, ansiedade por mais estímulos. Para não se perder, ele precisa de um segundo gesto: a reverência.

A palavra reverência costuma causar desconforto moderno. Parece coisa de religião antiga, hierarquia rígida, obediência cega. Mas filosoficamente, reverenciar não é se diminuir — é reconhecer a medida do que não nos pertence.

Reverência é aceitar que nem tudo está à disposição da nossa vontade.

No dia a dia, ela se manifesta de modos quase invisíveis:

  • no cuidado ao entrar em um hospital, falando mais baixo sem que ninguém peça;
  • no respeito espontâneo diante de um idoso que não conhecemos;
  • no silêncio que se impõe quando alguém conta uma dor real.

Reverenciar é saber quando não transformar tudo em opinião, piada ou postagem. É conter o impulso de explicação total. Onde o espanto pergunta “o que é isso?”, a reverência responde: “talvez não seja tudo para mim”.

Aqui, espanto e reverência se encontram: o primeiro abre o mundo; a segunda impede que o fechemos rápido demais.

Nossa época sofre menos por falta de respostas e mais por saturação delas. Tudo é comentado, analisado, ranqueado. O mistério virou falha técnica; o silêncio, constrangimento.

O resultado é um mundo sem espanto e, portanto, sem reverência.

Se nada nos espanta, nada nos exige cuidado.

Isso aparece:

  • no consumo apressado de tragédias como se fossem notícias equivalentes;
  • na ironia constante diante de qualquer grandeza;
  • na incapacidade de permanecer diante de algo sem transformá-lo em conteúdo.

Sem espanto, perdemos a pergunta.

Sem reverência, perdemos o limite.

E sem ambos, a experiência empobrece: tudo é vivido, mas pouco é realmente encontrado.

Recuperar o espanto e a reverência não exige mudar de vida, mas mudar de ritmo. É uma ética do olhar lento.

Ela se ensaia em gestos simples:

  • olhar alguém falando sem antecipar a resposta;
  • aceitar que certos acontecimentos não “servem para nada”;
  • suportar a estranheza de não entender imediatamente.

Nesse sentido, o espanto não nos tira do mundo — ele nos devolve a ele. E a reverência não nos cala — ela nos ensina quando falar seria uma violência.

Talvez maturidade não seja acumular certezas, mas aprender onde colocá-las com delicadeza.

Espanto e reverência não são estados elevados reservados a místicos ou filósofos. São disposições esquecidas, sufocadas pela pressa e pela necessidade de controle.

Espantar-se é permitir que o mundo nos desinstale.

Reverenciar é não correr para se reinstalar no comando.

Entre um e outro, surge uma forma mais densa de presença: menos ansiosa por sentido, mais disponível para recebê-lo.

E talvez — só talvez — seja aí que a vida, sem fazer anúncio, volte a falar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Memória Essencial



Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos. A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me aguardando, isto é fantástico.

No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.

No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva — o que se grava não é o fato, mas o sentimento.

Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa. Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de certo modo, também escolher.

Henri Bergson dizia que a lembrança é “a sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O que o tempo não levou, o coração quis manter.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Silêncios que Gritam


Vivemos cercados de ruídos — buzinas, notificações, conversas apressadas, opiniões por todos os lados. O silêncio, nesse cenário, parece quase um luxo. Mas é nele que as coisas realmente acontecem.

Há silêncios que gritam e palavras que nada dizem. O silêncio, quando escutado, revela o que o barulho tenta esconder: nossos medos, desejos, e a voz que esquecemos de ouvir — a nossa própria.

No cotidiano, é fácil notar: o silêncio de um olhar, de uma pausa entre frases, às vezes comunica mais do que mil palavras. É ali que o outro realmente aparece, sem ruído, sem defesa. Há perguntas onde a resposta é um silêncio que comunica sem palavras audíveis.

Pascal dizia que “toda a infelicidade do homem vem de não saber ficar quieto em um quarto”. O silêncio, então, não é ausência de som, mas presença de alma. Ele não pede explicações, apenas escuta.

Talvez por isso os encontros verdadeiros sejam silenciosos. Porque é no silêncio que a verdade respira.

domingo, 28 de setembro de 2025

Esquecimento de Si

Uma Forma Ignóbil de Existir

Um ensaio filosófico informal sobre a ausência íntima

Tem dias que a gente se pega no automático. Já são quatro da tarde, e você nem sabe dizer o que sentiu desde que acordou. O corpo foi, as tarefas foram feitas, talvez até tenha sorrido ou se irritado — mas não estava lá. Estava onde, então? É como se uma parte de nós tivesse ficado de fora do próprio dia. Não por distração apenas, mas por ausência. Uma ausência funda, que não se resolve com um café forte nem com um banho demorado. Isso tem nome: esquecimento de si. Isto me lembra da tarde de domingo.

Parece inofensivo. A gente se adapta, funciona, entrega. Mas há algo de ignóbil nisso. Não no sentido moralista da palavra, mas no sentido de degradação silenciosa da dignidade de estar vivo e presente em si mesmo.

 

O esquecimento de si como vício contemporâneo

Vivemos tempos em que lembrar-se de si é quase um luxo. Entre notificações, prazos e expectativas alheias, ser alguém virou mais urgente do que estar consigo. A sociedade do desempenho — como bem analisou Byung-Chul Han — exige que cada um se transforme em produto e gestor de si mesmo. A performance substitui a presença. A pressa ocupa o lugar do pensamento. O “eu” vira uma figura de marketing.

E, nessa lógica, o esquecimento de si não é apenas um efeito colateral. Ele é um modo de viver estimulado. A cada vez que evitamos o silêncio, que trocamos uma inquietação íntima por um rolar infinito de tela, que vestimos um papel para agradar ou para sobreviver, estamos praticando esse esquecimento. E o mais perigoso: estamos nos acostumando a ele.

 

Ignóbil: a erosão da dignidade interna

A palavra ignóbil, do latim ignobilis, carrega a ideia de algo sem nobreza, sem valor reconhecido. Esquecer-se de si é isso: tornar-se estrangeiro da própria história, viver aquém do que se poderia ser, sem sequer notar.

Nietzsche dizia que “tornar-se quem se é” exige coragem. Ou seja, ser fiel a si mesmo não é espontâneo nem simples — é um processo árduo, cheio de perdas e rupturas. Por isso mesmo, o esquecimento de si é uma forma de covardia invisível: cedemos à facilidade de viver no reflexo do que esperam, ao invés de no brilho torto do que somos.

Há uma espécie de indiferença que vai se instalando, como poeira sobre móveis que antes brilhavam. E quando vemos, aquela vitalidade íntima foi embora. O pior é que, por fora, nada parece errado. Continuamos eficientes, funcionais, sociáveis. Só que o centro ficou oco.

 

O abismo e a superfície

É possível viver na superfície durante anos — repetir opiniões de outros, ocupar cargos que não dizem nada, cumprir rotinas como quem segue um roteiro que não escreveu. Mas o abismo que somos não desaparece só porque é ignorado. Ele apenas deixa de ser visitado. E o que não é visitado — apodrece ou se revolta.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia: “Eu sou eu e minha circunstância.” Mas quando esquecemos de nós, sobra só a circunstância. Somos a roupa que usamos, o trabalho que temos, o que postamos. E essa dissociação cobra um preço: a perda da inteireza. Não há pior solidão do que não estar consigo mesmo, mesmo cercado de gente.

 

O retorno ao si: um gesto revolucionário

O oposto do esquecimento de si não é narcisismo, nem uma jornada mágica de autoconhecimento vendido em cursos online. É mais simples, mais sutil e muito mais profundo. Trata-se de estar atento. Simone Weil dizia que “a atenção pura é oração”. Estar atento ao que sentimos, ao que pensamos, ao que nos atravessa, é uma forma de resgate espiritual, ainda que não religioso.

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, afirmava que “a alma só se reconhece em momentos de quietude”. E esses momentos estão cada vez mais raros. Mas são neles que o “eu” reaparece. Que lembramos que temos escolhas. Que percebemos que nem tudo precisa ser feito do jeito que o mundo quer.

Talvez um ritual simples já seja suficiente: caminhar sem distrações, escrever o que se sente, fazer uma pausa antes de aceitar um convite, perguntar-se “isso é mesmo meu desejo?”. São gestos que parecem pequenos, mas são revolucionários numa era de dispersão.

 

Reencontrar a nobreza perdida

Esquecer-se de si é viver com dignidade emprestada. É funcionar sem alma. E isso, mais do que trágico, é ignóbil. Não porque nos torna maus — mas porque nos torna ausentes da única coisa que realmente nos pertence: a presença viva em nós mesmos.

Reencontrar-se não é fácil. Mas é possível. Talvez com menos barulho. Com menos pressa. Com menos máscaras. Com mais verdade, mesmo que ela assuste. Porque só quem se lembra de si pode, um dia, ser inteiro.


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Absenteísmo Metafísico

Reflexão sobre a Ausência em Si

Às vezes a gente está presente — mas falta. Não fisicamente, que isso a cadeira confirma. Falta de outro jeito, mais fundo. Fica uma espécie de sombra, uma presença que não se reconhece, como se o próprio ser tivesse faltado ao chamado. Você responde “presente” na chamada da vida, mas alguma coisa em você parece não ter vindo. É sobre esse tipo de ausência que se fala aqui: o absenteísmo metafísico.

Esse termo poderia soar estranho, mas descreve um fenômeno cotidiano: viver sem se sentir dentro da própria existência. Há quem trabalhe, ande, converse, e até ame — tudo isso com uma espécie de “piloto automático ontológico”. O ser se desconecta de si, como se estivesse terceirizando sua presença ao mundo. É como morar numa casa onde as luzes estão acesas, mas ninguém parece estar em casa.

O filósofo Martin Heidegger ajuda a iluminar esse vazio com sua ideia de inautenticidade — um modo de ser em que o indivíduo vive de forma impessoal, guiado pelas convenções do "se": “se faz assim”, “se pensa assim”, “se espera isso”. Nesse estado, o sujeito não está propriamente ausente do mundo, mas ausente de si mesmo — e talvez isso seja ainda mais radical.

O absenteísmo metafísico é essa espécie de não comparecimento do ser à própria vida. Não é depressão, nem alienação no sentido estrito — é mais como um deslocamento sutil do eu, uma falta de gravidade interior. Você está aqui, mas a essência não encostou os pés no chão.

A consequência disso é viver por procuração, por reflexo dos outros, por espelhos rachados. E quando finalmente se percebe essa ausência, o susto é grande: como posso estar vivo, e mesmo assim não estar? A resposta não vem fácil. Mas talvez comece quando, em vez de tentar voltar para si, você se pergunta com honestidade: “mas quem, afinal, sou eu que deveria estar aqui?”

Heidegger dizia que só no confronto com a finitude é que nos tornamos autênticos. Talvez o antídoto para o absenteísmo metafísico seja esse: reconhecer que nossa presença é sempre uma escolha. Escolher estar — não só no corpo, mas no espírito, na palavra, no gesto. E que, às vezes, só o silêncio mais honesto pode trazer o ser de volta do exílio.


terça-feira, 16 de setembro de 2025

Êxtase Estético

O Limiar da Presença e a Dilatação do Ser

O êxtase estético é uma experiência que transborda os limites do cotidiano, um momento em que a consciência parece expandir-se e o sujeito se dissolve na intensidade da percepção. Diferente do prazer comum, que é passível de comparação e análise, o êxtase estético não se mede nem se traduz em palavras fáceis — ele acontece no limiar entre o sentido e o sem-sentido, onde a realidade parece suspensa.

Para entender essa experiência, podemos recorrer a Edmund Husserl, o pai da fenomenologia, que propôs a ideia da "epoché": a suspensão do juízo natural para alcançar a essência das coisas. No êxtase estético, algo semelhante ocorre — a "epoché" se dá em relação às preocupações práticas e racionais do mundo, e o sujeito suspende sua habitual relação utilitária para mergulhar em uma percepção pura, onde o objeto estético se apresenta como fenômeno em sua totalidade.

Mas esse êxtase não é apenas uma contemplação passiva. Inspirando-se na filosofia de Henri Bergson, podemos pensar o êxtase estético como uma dilatação do tempo vivido, uma "duração" onde passado, presente e futuro se entrelaçam em uma sensação contínua e indivisível. É nesse fluxo que o sujeito experimenta uma forma intensa de presença — um estar-no-mundo que é, simultaneamente, abandono e plenitude.

O êxtase estético, portanto, inaugura um espaço onde o ser se expande e o mundo se transforma em uma espécie de campo vibratório, onde a beleza não é um atributo fixo, mas um evento dinâmico. É a arte e a experiência estética que, nesse sentido, revelam uma dimensão do real que a razão instrumental não alcança — um real pulsante, quase sagrado, que convoca a alma para além de si mesma.

Assim, o êxtase estético não é um simples deslumbramento, mas um portal para um modo mais profundo de ser, um reencontro com o mistério do existir. Ele nos lembra que, em meio à rotina e à racionalidade, permanece a possibilidade de um abandono criativo, um instante em que o tempo se dissolve e a vida se faz presente em sua intenção.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Rivalidades Narcísicas

O espelho como campo de batalha

À primeira vista, rivalidade parece coisa de disputa concreta — empresas competindo por mercado, irmãos pelo afeto dos pais, clubes de futebol pelo título. Mas a rivalidade narcísica é mais sutil e corrosiva: não é sobre o que o outro tem, mas sobre o que o outro é ou parece ser. É a competição silenciosa que nasce no reflexo do espelho, quando o eu não se mede contra parâmetros objetivos, mas contra a imagem idealizada que projeta em si mesmo e nos outros.

Freud, em Introdução ao Narcisismo, já sugeria que a autoestima está sempre exposta a ameaças vindas de fora, porque a presença de um outro que encarne — ou aparente encarnar — o nosso ideal desencadeia uma ferida narcísica. Não suportamos ver fora o que gostaríamos de possuir dentro. O rival narcísico, portanto, não é o inimigo declarado, mas o “espelho ambulante” que lembra o eu de sua insuficiência.

No cotidiano, isso aparece quando um colega de trabalho recebe elogios e, mesmo sem termos interesse direto na promoção dele, sentimos um incômodo difuso. Ou quando um amigo posta uma foto aparentemente banal, mas que nos desperta irritação, pois ele “parece” viver a vida que projetamos para nós mesmos. A rivalidade aqui não é por bens materiais — é pelo direito de ocupar um lugar simbólico de superioridade ou reconhecimento.

Jacques Lacan, ao descrever o estádio do espelho, mostrou que a identidade se constrói na relação com a imagem, e essa imagem é sempre mediada por outros. Assim, o rival narcísico é aquele que nos força a confrontar as falhas no “espelho interno” — o eu idealizado que carregamos. Não é à toa que essas rivalidades tendem a ser silenciosas e persistentes: é difícil combatê-las sem combater a si mesmo.

As redes sociais elevaram essa lógica a um laboratório constante de rivalidades narcísicas. Ali, cada “like” é um microato de validação que pode ser interpretado como triunfo ou derrota. O feed não é apenas uma vitrine de vidas, mas um corredor de espelhos distorcidos, onde a imagem do outro é amplificada e, inevitavelmente, comparada à nossa. O “story” de alguém tomando café em Paris pode não nos afetar pelo café, mas pelo que ele representa: a narrativa de uma vida mais bela, mais desejável, mais “perfeita” que a nossa. E, nesse espaço, a rivalidade não precisa sequer ser nomeada — basta deslizar o dedo e sentir o leve desconforto que cada imagem provoca.

O problema é que, enquanto a competição comum pode gerar crescimento e aprimoramento, a rivalidade narcísica tende a aprisionar. Ela não busca criar, mas nivelar — não quer ser mais, quer que o outro seja menos. E, nesse ponto, a batalha é infinita, porque a imagem do outro não depende só do outro, mas também do quanto projetamos nela.

Talvez o antídoto mais radical não seja vencer o rival, mas dissolver o espelho — deslocar o eixo do valor próprio da comparação para a criação. Como sugere Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, é preciso sair do ciclo da performance incessante e entrar em um ritmo de afirmação, onde o outro não seja ameaça à nossa imagem, mas um possível coautor de nossa narrativa.

No fundo, rivalidades narcísicas são sintomas de um mundo em que o reconhecimento foi deslocado do encontro real para o reflexo. E enquanto ficarmos presos a esses reflexos — agora retroiluminados pela tela do celular — a batalha será contra uma imagem que nunca se quebra, apenas nos quebra.


sábado, 23 de agosto de 2025

Saturação Totalitária

Uma reflexão curta e informal

Não é preciso viver sob um regime autoritário declarado para sentir a opressão de uma presença constante: mensagens, alertas, comandos, imagens, algoritmos, opiniões, exigências. Estamos sempre conectados, e ainda assim, cada vez mais confinados. Não por grades de ferro, mas por um excesso. Há algo sufocante na abundância que nos cerca. O excesso de tudo – informação, visibilidade, escolhas, cobrança – pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de dominação.

Vivemos um tipo de saturação totalitária: não o totalitarismo clássico dos partidos únicos e dos líderes carismáticos, mas uma saturação difusa, sutil, tecnificada, que atua por excesso e não por proibição. Aqui, o controle não se dá por censura, mas por inundação. Não se manda calar, mas se fala tanto que o silêncio se torna impossível.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, já apontava para esse novo modelo de dominação: não vivemos mais sob um “poder disciplinar” repressivo, mas sob uma “sociedade do desempenho”, onde cada um se explora a si mesmo em nome da produtividade. O indivíduo se transforma em empreendedor de si, e nesse processo, se torna cúmplice da própria opressão. A saturação totalitária é o modo como esse novo poder se manifesta: pela multiplicação das possibilidades, pela superexposição, pela aceleração do tempo e pela constante pressão para estar presente, atualizado e otimizado.

O totalitarismo do século XXI é amigável, colorido e eficiente. Ele se traveste de liberdade e se infiltra nas estruturas mais íntimas da vida: na saúde, no lazer, nos relacionamentos e até na forma como nos percebemos. Não nos diz o que fazer, mas nos apresenta tantas opções que qualquer escolha parece errada. No fim, somos exauridos não por falta de opções, mas por não conseguirmos suportar a abundância delas.

Talvez resistir a essa saturação passe por reaprender a escolher o silêncio, o intervalo, o limite. Passa por um ato revolucionário simples: desconectar-se. E lembrar que, às vezes, a liberdade não está em ter tudo, mas em poder dizer “não” a quase tudo.


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Ansiedade da Performance

Exaustos de Nós Mesmos: a obrigação de performar o eu na era digital

Numa manhã qualquer, abrimos o celular e já somos lançados num universo de vidas editadas. Sorrisos, conquistas, corpos, viagens, produtividade — tudo embalado num brilho de sucesso contínuo. Não é mais necessário ser feliz; basta parecer. E parecer muito. De preferência com carisma, autenticidade e filtros bem escolhidos. Nessa maratona silenciosa de aprovação, o eu se transforma num projeto de marketing. Vivemos, muitas vezes, menos para estar e mais para mostrar. E o resultado não é glória — é exaustão.

Retomar este tema para reflexão me parece importante, visto que não temos como negar a inundação de situações reais que a cada dia a quantidade supera a do dia anterior, por isto vamos explorar a questão.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho trouxe um novo tipo de opressão: a autoexploração disfarçada de liberdade. Hoje, somos pressionados a ser produtivos, criativos, positivos, resilientes e excepcionais — o tempo todo. Não há mais um patrão externo exigindo resultados; somos nós mesmos que nos cobramos, num ciclo ininterrupto de superação. “Yes, we can” (Sim, nós podemos) virou sentença. A liberdade de ser se converteu na prisão do dever constante de melhorar.

No campo da sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender como essa lógica do desempenho se estrutura socialmente. O prestígio nas redes sociais, por exemplo, é uma forma de capital simbólico — aquele que dá visibilidade e reconhecimento. Curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos são novas formas de moeda. Quem acumula, ganha poder. Quem não participa, some. A obrigação de estar sempre visível cria uma economia da atenção em que a subjetividade se curva aos algoritmos. Não basta viver: é preciso performar a própria existência com consistência e carisma.

Essa lógica de espetáculo já havia sido anunciada por Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo. Para ele, o mundo moderno substituiu o ser pelo parecer: tudo se torna imagem, inclusive a dor. O luto, a solidão, a superação — tudo pode e deve ser exibido, com a devida estética. Nesse contexto, a vida só ganha sentido social se puder ser consumida. Assim, cada pessoa se torna uma vitrine, e o “eu” vira mercadoria.

Há também um efeito existencial profundo. Em Ser e Tempo, Heidegger discute a existência inautêntica — quando vivemos segundo o que os outros esperam, e não segundo nossa própria verdade interior. Nas redes, essa inautenticidade se amplifica: passamos a nos moldar de acordo com as expectativas alheias, com o que é mais comentado, compartilhado, desejado. O “eles”, como diz o filósofo, passa a nos habitar. Deixamos de ser para nos tornarmos personagens de um script coletivo.

Esse movimento não se restringe aos jovens ou aos influenciadores. Ele se espalha pelo mundo do trabalho, onde cada profissional precisa “vender sua imagem” com inteligência emocional, marca pessoal e presença digital ativa. Os currículos foram substituídos por portfólios públicos. A naturalidade, pelo networking constante. Mesmo a pausa virou performance: descanso com propósito, viagem com storytelling, silêncio com legenda.

Na juventude, a pressão é pelo destaque. Ninguém quer ser mediano. O ordinário virou sinônimo de fracasso. Na velhice, o dilema é outro: manter-se relevante. Muitos se sentem expulsos de um jogo cuja linguagem já não dominam. A obsolescência social não é mais só tecnológica — é existencial. O tempo se tornou um concorrente, e a idade, um risco de invisibilidade.

Mas talvez ainda haja uma saída. Não grandiosa, não revolucionária, mas sutil e silenciosa. Pode começar com um gesto pequeno: escolher não publicar um feito, não responder uma provocação, não performar o descanso. Recuperar o gosto pelo anonimato, pela insignificância produtiva, pela liberdade de simplesmente existir — sem que isso precise virar conteúdo. Como escreveu o poeta Manoel de Barros:

“O que a gente não inventa, vira.”

E talvez seja isso que nos falte: menos invenção de si e mais vir-a-ser.

Menos brilho e mais verdade.

Menos performance e mais presença.


terça-feira, 15 de julho de 2025

Amanhã e Agora

Neste finalzinho de terça-feira, estava pensando nos compromissos de amanhã, pensei cá comigo: "Amanhã, quando chegar o meu agora" é uma frase curta, mas cheia de camadas. Parece paradoxal: como o "agora" pode chegar "amanhã"? Mas é justamente nessa contradição que mora a poesia.

A gente vive fazendo planos, promessas para o dia seguinte, para segunda-feira, para o ano que vem, para “quando tudo se ajeitar”. A vida vira um eterno ensaio. É como se estivéssemos sempre esperando que o nosso verdadeiro momento chegue. Só que, quando o amanhã se torna hoje, ele ainda parece não ser o agora certo. Ainda não é o momento ideal, ainda falta alguma coisa.

Talvez porque o “agora” de verdade não seja uma data no calendário, mas uma disposição interior. Um instante de presença plena, quando a gente decide que esse é o momento. Não porque tudo está perfeito, mas porque a gente para de adiar.

Amanhã, quando chegar o meu agora, pode ser o instante em que deixo de esperar por mim mesmo.

Como disse o filósofo Kierkegaard, “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente.” Talvez o nosso agora nunca chegue se a gente continuar o empurrando para amanhã.

sábado, 28 de junho de 2025

Silêncio Verdadeiro

Estava num daqueles momentos em que tudo parece parar — uma reunião longa, onde ninguém ousava mais falar, ou talvez uma conversa entre amigos que, de repente, esgotou as palavras. E foi ali, nesse vazio de vozes, que percebi: o silêncio é uma linguagem também. Mas qual linguagem? E o que ela diz, quando ninguém está dizendo nada?

Essa sensação me levou de volta a dois filósofos que, curiosamente, trataram da linguagem em extremos opostos do pensamento: Ludwig Wittgenstein e Martin Heidegger. Um buscava a clareza como um jardineiro paciente que poda os galhos tortos da fala. O outro cavava a terra com as mãos nuas, atrás de uma raiz mais funda — o ser, que fala antes da fala. No centro de ambos, lá estava ele: o silêncio, como uma espécie de verdade que escapa por entre as palavras.

I. O silêncio como fronteira da linguagem

Wittgenstein, no final do Tractatus Logico-Philosophicus, diz: “Do que não se pode falar, deve-se calar.” É uma das frases mais citadas da filosofia moderna. Mas o que significa esse calar? Não é uma desistência — é um reconhecimento. Há limites para o que podemos dizer com sentido. O silêncio, nesse caso, marca a borda do mundo, onde as proposições lógicas já não funcionam.

Heidegger, por outro lado, não vê o silêncio como uma falha da linguagem, mas como seu habitat natural. Em Ser e Tempo, ele sugere que o silêncio não é o oposto do discurso, mas uma forma de escuta mais profunda. Quem silencia verdadeiramente está mais atento ao ser do que aquele que fala sem parar. É um silêncio carregado de escuta, de espera, de abertura.

Assim, para Wittgenstein, o silêncio é um freio; para Heidegger, é uma fonte.

II. Linguagem como morada e como ferramenta

Wittgenstein percebe que falamos em jogos. Os "jogos de linguagem" são atividades humanas — pedir, mandar, agradecer, contar piadas. A linguagem não tem essência fora desses usos. O problema não está no que dizemos, mas no como. Quando usamos a palavra “verdade”, por exemplo, em que jogo estamos? Dizer “é verdade que vai chover” não é o mesmo que “é verdade que ela me ama”. O jogo muda, o critério de verdade também.

Heidegger vê a linguagem como “a casa do ser”. Não jogamos com ela: moramos nela. E o que mora nela não é apenas o que se diz, mas o que se revela. A linguagem, então, é revelação — aletheia, desvelamento. A verdade não é correspondência, mas desocultação.

Wittgenstein quer desfazer os mal-entendidos da linguagem para dissolver os pseudo-problemas filosóficos. Heidegger quer mergulhar na linguagem para escutar o chamado do ser. Em Wittgenstein, a verdade é questão de uso bem feito; em Heidegger, é questão de abertura ao que se mostra.

III. A verdade como silêncio ativo

E então, quando nos calamos diante de algo — diante da beleza de um pôr do sol, do mistério de uma perda, ou mesmo da complexidade de um dilema moral — não estamos fugindo da verdade. Estamos, talvez, deixando que ela se manifeste sem a violência da explicação.

O silêncio, nesses momentos, não é ausência. É presença intensa. É o momento em que não ousamos dizer, mas sentimos que algo é verdadeiro. Verdade que não cabe numa proposição, nem num jogo de linguagem, mas que também não se perde na névoa do ser. É uma verdade vivida, não dita.

Talvez seja esse o ponto de contato entre os dois filósofos. Heidegger abre espaço para o ser falar por si. Wittgenstein mostra que, quando as palavras se esgotam, não é o fim do sentido — é o início de outra forma de compreensão.

Volto ao meu silêncio, agora com mais cuidado. Penso em como ele pode ser uma resposta, um protesto, um luto, uma reverência. O silêncio fala. E às vezes, como dizia Wittgenstein, ele fala justamente porque as palavras já não bastam. Heidegger talvez acrescentasse: é no silêncio que o ser nos sussurra.

Talvez a verdade, afinal, more no espaço entre o que conseguimos dizer e aquilo que ousamos silenciar.