Sem solenidade, por favor
Não
foi numa montanha, nem num retiro espiritual. Foi numa fila. Dessas de mercado,
em que ninguém olha para ninguém e todo mundo olha para o celular. De repente,
o sistema caiu. Silêncio forçado. Um constrangimento quase físico. E ali ficou
claro: não sabemos mais ficar quietos. A quietude virou falha técnica, não
condição humana. Mas talvez seja justamente aí, nesse espaço que tentamos
eliminar, que algo essencial tenta nascer.
Este
ensaio é sobre isso: a quietude não como fuga do mundo, mas como condição para
florescer dentro dele.
A
confusão entre movimento e vida
Vivemos
sob a crença silenciosa de que estar em movimento é estar vivo. Agenda cheia,
notificações piscando, respostas imediatas. A quietude, ao contrário, soa como
improdutividade, atraso, suspeita. Se alguém está quieto demais, “tem algo
errado”.
Mas
a filosofia sempre desconfiou dessa pressa. Aristóteles já distinguia o
movimento que transforma do movimento que apenas desloca. Muito do que fazemos
hoje apenas nos desloca: de tarefa em tarefa, de opinião em opinião, de
estímulo em estímulo. Mudamos de lugar, mas não de estado interior.
A
quietude, nesse sentido, não é ausência de ação, mas suspensão do ruído que
impede a ação verdadeira. É quando o lago para de ser agitado e finalmente
reflete algo.
Quietude
não é isolamento
Há
um erro comum: imaginar a quietude como solidão, fuga ou fechamento. Mas
quietude não é desligar-se do mundo — é ajustar o volume. É como abaixar a
música para ouvir melhor a conversa.
No
cotidiano, isso aparece de formas simples:
- Alguém que escuta sem preparar a
resposta.
- Um pai ou mãe que senta no chão para
observar a criança brincar, sem intervir.
- Um profissional que pensa antes de
responder um e-mail atravessado, e não depois.
Nesses
momentos, a quietude não empobrece a relação — ela a aprofunda. É no intervalo
entre estímulo e reação que a liberdade aparece. Viktor Frankl falava disso,
mas qualquer pessoa que já evitou uma discussão desnecessária conhece essa
verdade na prática.
O
florescimento é silencioso
Nada
floresce fazendo barulho. A semente não anuncia seu trabalho. A raiz não posta
atualizações. O crescimento acontece longe dos holofotes.
O
mesmo vale para processos humanos:
- A maturidade não chega em forma de
epifania ruidosa.
- O luto se elabora mais no silêncio do
que nos discursos.
- Uma ideia realmente boa costuma
surgir depois que o excesso de ideias se cala.
O
problema é que queremos colher sem enraizar. Queremos resultados visíveis sem
passar pelo invisível. A quietude é esse subterrâneo do espírito onde nada
parece acontecer — mas tudo está sendo preparado.
O
cotidiano como campo de treino
Não
é preciso mudar de vida para cultivar quietude. Basta mudar o modo de estar
nela.
Alguns
exemplos quase banais, mas decisivos:
- Caminhar sem fones por alguns
minutos.
- Comer sem assistir nada.
- Permanecer um pouco mais numa
pergunta antes de correr para a resposta.
- Aceitar o tédio como passagem, não
como inimigo.
Esses
gestos não são técnicas de produtividade disfarçadas de espiritualidade. São
atos de resistência. Num mundo que exige performance constante, a quietude é
uma forma discreta de rebeldia.
Florescer
não é expandir, é alinhar
Talvez
florescer não signifique “ser mais”, mas ser mais coerente. Menos disperso.
Menos fragmentado. A quietude não nos torna maiores — nos torna inteiros.
Quando
cessamos o ruído, percebemos melhor o que nos falta e o que nos sobra. E isso é
desconfortável. Por isso evitamos. Mas também é libertador. Porque só cresce de
verdade aquilo que encontra seu próprio ritmo.
Quase
um sussurro
A
quietude não resolve a vida. Ela a revela. E talvez isso seja suficiente. Num
mundo que grita soluções, florescer pode ser aprender a escutar. Não o barulho
de fora, mas aquele silêncio interno que, quando finalmente aparece, não pede
pressa. Pede espaço.
E
espaço, hoje, é um dos gestos mais raros de cuidado consigo mesmo.


