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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Ingenuidade Cínica

Outro dia me peguei rindo de algo que, no fundo, eu já sabia que era meio absurdo. Uma propaganda prometendo felicidade em 3 passos, um discurso corporativo cheio de palavras bonitas, uma promessa política reciclada. Eu ri — mas continuei consumindo, ouvindo, participando.

E é aí que mora o ponto desconfortável.

Com Slavoj Žižek, a gente aprende que o problema do nosso tempo não é mais a ingenuidade clássica — aquela de acreditar cegamente. O problema agora é algo mais sofisticado: nós sabemos… e mesmo assim seguimos como se não soubéssemos.

Essa é a tal da ingenuidade cínica.

Não é que a gente acredite de verdade na propaganda, no discurso ou na promessa. A gente até ironiza, faz meme, comenta com os amigos: “isso aí é tudo marketing”. Mas, no dia seguinte, lá estamos nós, comprando, repetindo, sustentando o mesmo sistema que criticamos.

É como se disséssemos: “eu sei que é falso, mas funciona — então vou continuar.”

Pensa numa situação comum: aquele produto “milagroso” que promete resolver algo da sua vida. Você sabe que é exagero. Sabe que não é tudo aquilo. Mas ainda assim, uma parte sua quer acreditar — ou, pelo menos, quer experimentar. Não por ingenuidade pura, mas por uma espécie de acordo silencioso: “vai que…”

Žižek diria que esse “vai que” é o coração da ideologia contemporânea.

Antes, a ideologia precisava esconder sua falsidade para funcionar. Hoje, ela funciona mesmo quando está escancarada. Não precisamos mais acreditar totalmente — basta participar. Basta agir como se acreditássemos.

E isso torna tudo mais difícil de desmontar.

Porque o cinismo cria uma camada de proteção: ao reconhecer o problema, sentimos que já estamos um passo à frente dele. Mas esse reconhecimento, por si só, não muda nada. Pelo contrário — pode até estabilizar a situação.

Você ri da propaganda… e continua comprando.

Você critica o sistema… e continua reproduzindo.

Você percebe o jogo… e ainda assim joga.

No cotidiano, isso aparece de forma quase invisível. Aquela conversa no trabalho onde todo mundo sabe que certas metas são irreais, mas ninguém questiona de verdade. Ou quando a gente usa expressões que nem acredita mais, só porque “é assim que funciona”.

É um teatro sem plateia — todos sabem que é encenação, mas ninguém sai do palco.

O mais provocador em Žižek é que ele não aponta isso para acusar, mas para revelar um impasse: talvez a maior ingenuidade hoje seja acreditar que o cinismo nos torna livres.

Não torna.

Porque, no fundo, o cinismo ainda está dentro do jogo. Ele não rompe — ele acomoda. Ele permite que a gente conviva com a contradição sem precisar resolvê-la.

E aí fica a pergunta incômoda:

se saber não basta… o que mudaria, de fato, a forma como vivemos?

Talvez a saída não esteja em saber mais, nem em ironizar melhor, mas em mexer justamente naquele ponto onde a gente prefere não mexer — nas pequenas práticas que sustentam aquilo que dizemos criticar.

É menos confortável, claro. E bem menos elegante do que o cinismo.

Mas talvez seja aí que a ingenuidade — dessa vez não cínica — volte a ter algum valor: não como ignorância, mas como coragem de agir sem o escudo da ironia.

Porque, no fim, continuar como está também é uma escolha. Mesmo quando a gente finge que não é.