O espelho do Leviatã
Comecemos
sem solenidade: imaginar a política como um espelho pode parecer estranho à
primeira vista. Mas e se o Estado não fosse apenas uma estrutura externa que
nos governa, e sim um reflexo ampliado de algo profundamente íntimo — nossa
própria autorreferência? Em outras palavras, e se a ordem
política fosse menos sobre instituições e mais sobre como nos pensamos a nós
mesmos? É nesse ponto que a filosofia de Thomas Hobbes ganha uma
atualidade inesperada.
Hobbes, em sua
obra Leviatã, parte de uma antropologia radical: o ser humano é
movido por desejos, medos e, sobretudo, pela autopreservação. No estado de
natureza, essa autorreferência — o voltar-se a si mesmo como centro de cálculo
— não encontra limites externos. Cada indivíduo é juiz de suas próprias ações e
fins. O resultado é conhecido: a guerra de todos contra todos. Mas essa guerra
não é apenas física; ela é também semântica e cognitiva. Cada sujeito é medida
de si mesmo, sem uma linguagem comum estável. A autorreferência, aqui, não é
apenas psicológica, mas estrutural.
O que
Hobbes propõe, então, não é a eliminação da autorreferência, mas
sua reorganização. O contrato social funciona como um deslocamento: o indivíduo
transfere sua capacidade de decisão a uma instância soberana. O soberano
torna-se, assim, uma espécie de autorreferência coletiva. O Leviatã não é
apenas um corpo político; ele é um ponto fixo que estabiliza o significado, a
lei e a verdade pública. A multiplicidade de autorreferências privadas é
condensada em uma única referência comum.
Entretanto,
há uma tensão inevitável nesse arranjo. Se o soberano é produto da
autorreferência dos indivíduos, ele permanece, em última instância, dependente
dela. O Leviatã é um espelho que só existe porque há algo a refletir. Isso cria
uma espécie de paradoxo: o Estado precisa ser absoluto para funcionar, mas sua
origem é contingente, nascida do medo e da razão calculadora dos indivíduos.
Assim, a autorreferência nunca desaparece completamente — ela apenas muda de
escala.
Esse
ponto abre caminho para uma leitura inovadora de Hobbes. Em vez de vê-lo apenas
como um teórico da autoridade, podemos interpretá-lo como um pensador da
circularidade entre sujeito e estrutura. O indivíduo cria o Estado para escapar
da instabilidade de sua própria autorreferência, mas acaba por se ver refletido
em uma forma ampliada dela. O soberano decide por todos, mas sua autoridade
repousa na decisão original de cada um. A ordem política, portanto, é um
circuito autorreferente: o sujeito funda a autoridade que, por sua vez, funda o
sujeito como cidadão.
Essa
dinâmica antecipa problemas contemporâneos. Em sociedades digitais, por
exemplo, algoritmos operam como novos “Leviatãs”, organizando informações e
decisões a partir de dados produzidos pelos próprios usuários. A
autorreferência se torna ainda mais explícita: sistemas que aprendem com nossas
escolhas passam a moldar nossas futuras escolhas. O que Hobbes pensou como
solução para o caos pode hoje reaparecer como um sistema que amplifica nossas
próprias tendências.
A
contribuição mais provocativa de Hobbes talvez seja esta: não há saída simples
da autorreferência. Não podemos simplesmente abandoná-la, pois ela constitui a
base de nossa racionalidade e identidade. O que podemos fazer é instituir
formas de mediação que a tornem habitável. O Leviatã é uma dessas formas — não
perfeita, mas necessária. Ele nos lembra que, no fundo, toda ordem política é
um espelho: e o que vemos nele depende da maneira como escolhemos nos refletir.
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