Outro dia me peguei rindo de algo que, no fundo, eu já sabia que era meio absurdo. Uma propaganda prometendo felicidade em 3 passos, um discurso corporativo cheio de palavras bonitas, uma promessa política reciclada. Eu ri — mas continuei consumindo, ouvindo, participando.
E é aí
que mora o ponto desconfortável.
Com Slavoj
Žižek, a gente aprende que o problema do nosso tempo não é mais a
ingenuidade clássica — aquela de acreditar cegamente. O problema agora é algo
mais sofisticado: nós sabemos… e mesmo assim seguimos como se não soubéssemos.
Essa é a
tal da ingenuidade cínica.
Não é que
a gente acredite de verdade na propaganda, no discurso ou na promessa. A gente
até ironiza, faz meme, comenta com os amigos: “isso aí é tudo marketing”. Mas,
no dia seguinte, lá estamos nós, comprando, repetindo, sustentando o mesmo
sistema que criticamos.
É como se
disséssemos: “eu sei que é falso, mas funciona — então vou continuar.”
Pensa
numa situação comum: aquele produto “milagroso” que promete resolver algo da
sua vida. Você sabe que é exagero. Sabe que não é tudo aquilo. Mas ainda assim,
uma parte sua quer acreditar — ou, pelo menos, quer experimentar. Não por
ingenuidade pura, mas por uma espécie de acordo silencioso: “vai que…”
Žižek diria que
esse “vai que” é o coração da ideologia contemporânea.
Antes, a
ideologia precisava esconder sua falsidade para funcionar. Hoje, ela funciona
mesmo quando está escancarada. Não precisamos mais acreditar totalmente — basta
participar. Basta agir como se acreditássemos.
E isso
torna tudo mais difícil de desmontar.
Porque o
cinismo cria uma camada de proteção: ao reconhecer o problema, sentimos que já
estamos um passo à frente dele. Mas esse reconhecimento, por si só, não muda
nada. Pelo contrário — pode até estabilizar a situação.
Você ri
da propaganda… e continua comprando.
Você
critica o sistema… e continua reproduzindo.
Você
percebe o jogo… e ainda assim joga.
No
cotidiano, isso aparece de forma quase invisível. Aquela conversa no trabalho
onde todo mundo sabe que certas metas são irreais, mas ninguém questiona de
verdade. Ou quando a gente usa expressões que nem acredita mais, só porque “é
assim que funciona”.
É um
teatro sem plateia — todos sabem que é encenação, mas ninguém sai do palco.
O mais
provocador em Žižek é que ele não aponta isso para acusar, mas para revelar um
impasse: talvez a maior ingenuidade hoje seja acreditar que o cinismo nos torna
livres.
Não
torna.
Porque,
no fundo, o cinismo ainda está dentro do jogo. Ele não rompe — ele acomoda. Ele
permite que a gente conviva com a contradição sem precisar resolvê-la.
E aí fica
a pergunta incômoda:
se saber
não basta… o que mudaria, de fato, a forma como vivemos?
Talvez a
saída não esteja em saber mais, nem em ironizar melhor, mas em mexer justamente
naquele ponto onde a gente prefere não mexer — nas pequenas práticas que
sustentam aquilo que dizemos criticar.
É menos
confortável, claro. E bem menos elegante do que o cinismo.
Mas
talvez seja aí que a ingenuidade — dessa vez não cínica — volte a ter algum
valor: não como ignorância, mas como coragem de agir sem o escudo da ironia.
Porque,
no fim, continuar como está também é uma escolha. Mesmo quando a gente finge
que não é.
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