Quando o querer não conhece limite
É
fácil reconhecer a ganância nos outros; mais difícil é percebê-la quando ela
assume formas mais sutis dentro de nós. Nem sempre ela aparece como acúmulo
exagerado de bens ou poder. Às vezes, surge como uma inquietação constante, um
impulso de sempre querer mais — mais reconhecimento, mais controle, mais
certeza. Falar do ego ganancioso é tentar entender esse movimento que não se
satisfaz, que transforma até conquistas em pontos de partida para novas faltas.
Em
Arthur Schopenhauer, essa dinâmica é quase estrutural. O desejo, para
ele, nunca encontra repouso definitivo. Quando alcançamos algo, o alívio é
breve; logo outro querer ocupa seu lugar. A ganância, nesse sentido, não é um
desvio, mas uma intensificação de um traço fundamental da vontade. O ego se
afirma justamente nesse ciclo: querer, obter, esvaziar, recomeçar.
Já
Sigmund Freud permite ver a ganância como expressão de forças psíquicas
mais profundas. O ego tenta mediar impulsos e realidade, mas pode se inflar,
buscando dominar e apropriar-se de tudo ao seu redor. A satisfação deixa de ser
apenas necessidade e passa a ser apropriação. O mundo, então, é percebido como
algo a ser incorporado — não compreendido.
Por
outro lado, Friedrich Nietzsche oferece uma leitura mais ambígua. O
impulso de expansão, de afirmação, de querer mais, não é necessariamente
negativo. Ele pode ser expressão de vitalidade, de potência. O problema não
está no querer em si, mas na forma como ele se cristaliza: quando o ego deixa
de criar e passa apenas a acumular, quando a expansão se torna repetição vazia.
Essa
tensão revela algo importante: o ego ganancioso não busca apenas objetos — ele
busca reforçar a si mesmo. Cada conquista funciona como confirmação de
identidade. No entanto, quanto mais depende disso, mais frágil se torna. A
necessidade constante de mais revela, paradoxalmente, uma falta de sustentação
interna. O excesso de querer pode ser sintoma de um vazio que não se deixa
preencher.
Talvez
o aspecto mais problemático da ganância não seja o acúmulo em si, mas a
incapacidade de reconhecer limites. Sem limites, o querer perde forma; ele se
torna difuso, interminável. E, nesse movimento, o próprio ego que busca se
afirmar acaba se dispersando, sempre projetado para fora, nunca plenamente
presente.
Mas
seria possível um ego sem esse impulso? Talvez não. O desafio, então, não seja
eliminar o querer, mas transformá-lo. Fazer com que ele deixe de ser mera
repetição e se torne criação. Que não seja apenas apropriação, mas também
relação.
No
fim, o ego ganancioso revela uma verdade incômoda: o problema não está apenas
no quanto queremos, mas no modo como queremos. E talvez a verdadeira mudança
não esteja em querer menos, mas em aprender a querer de outro modo — sem que o
desejo precise devorar tudo ao seu redor para continuar existindo.
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