Eu estava
na fila de uma padaria, dessas que têm cheiro de pão quente misturado
com café recém-passado e conversa atravessada. Um sujeito à minha frente
hesitava diante do balcão como se estivesse escolhendo o destino da própria
vida.
— Vai ser
o quê? — perguntou a atendente, já impaciente.
Ele olhou
para os lados, respirou fundo e disse:
— Não
sei… tô com vontade de doce… mas também queria algo salgado.
E ficou
ali, dividido entre um sonho e um pão de queijo, como se o mundo dependesse
daquela decisão.
Foi nesse
momento banal — quase ridículo — que a pergunta apareceu em mim com uma força
desproporcional:
vontade
de quem?
Porque,
se formos honestos, aquela cena não era só dele. Era minha, sua, de todo mundo.
Essa pequena fratura interna entre querer uma coisa e outra ao mesmo tempo — ou
querer e não querer — não é exceção. É a regra.
E talvez Arthur
Schopenhauer estivesse justamente apontando para isso em “O Mundo
como Vontade e Representação”: o mundo que vemos, organizamos e
explicamos — essa vitrine de padaria cheia de opções — não é o ponto de
partida. É a superfície.
Por
baixo, algo quer.
Mas esse
algo não pede opinião.
Saí da
padaria com um café e um incômodo.
No
caminho de volta, comecei a reparar em coisas pequenas. Um motorista buzinando
sem necessidade. Uma criança chorando porque queria um brinquedo. Um casal
discutindo em voz baixa, mas com uma intensidade que dispensava palavras.
Tudo
parecia movido por uma urgência invisível.
Schopenhauer chamaria
isso de Vontade — essa força cega, sem rosto, que atravessa tudo. Não é “minha”
vontade no sentido comum. Eu não a crio. Eu a sinto.
É como
fome.
Você pode
escolher o que comer, mas não escolhe ter fome.
E, de
repente, a pergunta “vontade de quem?” começa a perder sentido. Porque não
parece haver um “dono”. Há apenas um movimento que se expressa através de nós.
Nós somos
mais verbo do que substantivo.
Mas a
história não para aí.
Dias
depois, encontrei um amigo que estava tentando mudar de vida. Academia nova,
dieta nova, rotina nova — aquela tentativa clássica de reorganizar a existência
como quem reorganiza um quarto bagunçado.
— Agora
vai — ele disse. — Tô com vontade de melhorar.
Sorri.
Não pela frase, mas pela confiança nela.
Porque há
algo curioso nesse tipo de “vontade”: ela parece querer crescer, expandir,
superar o que já é. Não é apenas sobrevivência — é transbordamento.
E aqui
entra Friedrich Nietzsche, quase como um comentarista irônico da cena.
Para ele,
não basta dizer que há uma Vontade cega. É preciso perceber que ela também
cria, disputa, se reinventa. Não é só fome — é impulso de expansão. Vontade de
potência.
Meu amigo
não queria apenas viver melhor. Ele queria ser mais.
E, no
fundo, quem nunca quis?
Quando
alguém decide estudar mais, ganhar mais, amar melhor, aparecer mais — há algo
ali que não se contenta em existir. Quer intensificar a existência.
Mas,
novamente, a pergunta permanece: essa vontade é dele… ou ele é dela?
Algum
tempo depois, sentado num banco de praça, comecei a observar as pessoas
passando. Sem pressa, sem objetivo definido — apenas olhando.
Foi
curioso perceber como os desejos pareciam surgir e desaparecer nas pessoas como
nuvens.
Uma
mulher pegava o celular, desbloqueava, travava de novo. Um rapaz olhava para
alguém que passava, desviava o olhar, depois olhava de novo. Um idoso começava
a levantar do banco, desistia, voltava a sentar.
Pequenos
impulsos, microdecisões, movimentos quase automáticos.
E ali,
sem esforço, algo da tradição budista fazia sentido: talvez não haja um
“eu” fixo por trás disso tudo. Apenas um fluxo.
Desejos
surgem.
Ações
seguem.
E o “eu”
aparece depois, contando a história como se tivesse sido o autor.
É como
assistir a um filme e acreditar que escreveu o roteiro.
Mas a
coisa ficou realmente estranha quando comecei a prestar atenção em mim mesmo.
Eu dizia:
“vou focar”. E, cinco minutos depois, estava distraído. Dizia: “não vou mexer
no celular”. E, quase sem perceber, já estava rolando a tela.
Foi
impossível não lembrar de Sigmund Freud — com sua ideia incômoda de que
não somos senhores da própria casa.
Há algo
em nós que quer… sem pedir permissão.
E mais:
às vezes quer exatamente o que dizemos não querer.
Jacques
Lacan iria ainda mais longe: esse desejo nem sequer é “nosso” no
sentido pleno. Ele é moldado pelo outro — pela linguagem, pelo olhar alheio,
pelas expectativas invisíveis que carregamos.
Queremos
o que aprendemos a querer.
Desejamos
como fomos ensinados a desejar.
E, de
repente, aquela escolha simples na padaria — doce ou salgado — já não parece
tão simples assim.
Quantas
escolhas são realmente nossas?
E então,
quase como um eco distante, até a ciência começa a sussurrar algo parecido.
Na Física
Quântica, o observador interfere no observado. Nas neurociências, decisões
aparecem no cérebro antes de chegarem à consciência.
O “eu
decidi” começa a parecer mais um comentário do que uma causa.
A
representação vem depois.
Sempre depois.
Voltei à
mesma padaria dias depois.
Dessa
vez, não havia fila. Pedi um café e um pão de queijo, sem pensar muito. Ou
talvez pensando menos do que eu imaginava.
Sentei,
dei o primeiro gole, e a pergunta voltou — mas já diferente:
não mais
“vontade de quem?”
mas
o que,
exatamente, está querendo em mim agora?
E, pela
primeira vez, não senti urgência em responder.
Talvez
porque, no fundo, a resposta não seja algo que se diz — mas algo que se
observa.
Como quem
percebe, lentamente, que não é apenas o cliente diante do balcão.
Mas
também o impulso silencioso que o fez entrar ali.
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