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sábado, 23 de agosto de 2025

Saturação Totalitária

Uma reflexão curta e informal

Não é preciso viver sob um regime autoritário declarado para sentir a opressão de uma presença constante: mensagens, alertas, comandos, imagens, algoritmos, opiniões, exigências. Estamos sempre conectados, e ainda assim, cada vez mais confinados. Não por grades de ferro, mas por um excesso. Há algo sufocante na abundância que nos cerca. O excesso de tudo – informação, visibilidade, escolhas, cobrança – pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de dominação.

Vivemos um tipo de saturação totalitária: não o totalitarismo clássico dos partidos únicos e dos líderes carismáticos, mas uma saturação difusa, sutil, tecnificada, que atua por excesso e não por proibição. Aqui, o controle não se dá por censura, mas por inundação. Não se manda calar, mas se fala tanto que o silêncio se torna impossível.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, já apontava para esse novo modelo de dominação: não vivemos mais sob um “poder disciplinar” repressivo, mas sob uma “sociedade do desempenho”, onde cada um se explora a si mesmo em nome da produtividade. O indivíduo se transforma em empreendedor de si, e nesse processo, se torna cúmplice da própria opressão. A saturação totalitária é o modo como esse novo poder se manifesta: pela multiplicação das possibilidades, pela superexposição, pela aceleração do tempo e pela constante pressão para estar presente, atualizado e otimizado.

O totalitarismo do século XXI é amigável, colorido e eficiente. Ele se traveste de liberdade e se infiltra nas estruturas mais íntimas da vida: na saúde, no lazer, nos relacionamentos e até na forma como nos percebemos. Não nos diz o que fazer, mas nos apresenta tantas opções que qualquer escolha parece errada. No fim, somos exauridos não por falta de opções, mas por não conseguirmos suportar a abundância delas.

Talvez resistir a essa saturação passe por reaprender a escolher o silêncio, o intervalo, o limite. Passa por um ato revolucionário simples: desconectar-se. E lembrar que, às vezes, a liberdade não está em ter tudo, mas em poder dizer “não” a quase tudo.