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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mundo Comum


O mundo comum não é o mundo ideal, nem o mundo sonhado. É esse aqui mesmo: a fila do mercado, o bom dia meio automático no elevador, o grupo da família no WhatsApp, o barulho da rua entrando pela janela. É nele que a vida insiste em acontecer — mesmo quando a gente fantasia que a vida “de verdade” está em outro lugar.

Costumamos desprezar o mundo comum porque ele não brilha. Ele não tem épica. Não vem com trilha sonora. É feito de repetições: acordar, trabalhar, resolver pequenas pendências, cansar, dormir. Mas é justamente aí que mora algo curioso: tudo o que é decisivo passa por esse chão banal. As grandes escolhas quase sempre nascem de situações pequenas, aparentemente insignificantes.

Percebo isso quando converso com alguém no trabalho sobre um assunto qualquer e, no meio da conversa, algo se desloca por dentro. Ou quando um gesto simples — alguém segurando a porta, alguém escutando de verdade — reorganiza silenciosamente o meu dia. O mundo comum não nos transforma por choque, mas por atrito. Ele nos desgasta, mas também nos molda.

Hannah Arendt falava do mundo comum como esse espaço compartilhado onde aparecemos uns para os outros. Não é só o mundo físico, mas o mundo das relações, das palavras trocadas, das ações visíveis. Quando esse mundo se empobrece — quando ninguém escuta, quando tudo vira ruído — a vida pública adoece, e a vida interior vai junto. Sem mundo comum, cada um fica preso na própria bolha, acreditando que pensa sozinho o que, na verdade, apenas repete.

No cotidiano, isso aparece de forma quase cômica: todos reclamam das mesmas coisas, fazem as mesmas piadas, reproduzem as mesmas indignações prontas. Parece diversidade, mas é só um coro desafinado. O mundo comum vira um eco, não um encontro.

Talvez o desafio não seja fugir dele, mas reaprender a habitá-lo. Estar presente de verdade numa conversa trivial. Não tratar o dia como um intervalo entre dois momentos “importantes”. O mundo comum pede atenção — não intensidade. Pede constância, não heroísmo.

No fim das contas, não é fora do mundo comum que nos tornamos quem somos. É nele. Com suas repetições, suas pequenas frustrações, suas alegrias discretas. Quem despreza o mundo comum costuma acabar vivendo num mundo imaginário. Quem aprende a escutá-lo descobre que, mesmo silencioso, ele está sempre dizendo algo.

sábado, 23 de agosto de 2025

Saturação Totalitária

Uma reflexão curta e informal

Não é preciso viver sob um regime autoritário declarado para sentir a opressão de uma presença constante: mensagens, alertas, comandos, imagens, algoritmos, opiniões, exigências. Estamos sempre conectados, e ainda assim, cada vez mais confinados. Não por grades de ferro, mas por um excesso. Há algo sufocante na abundância que nos cerca. O excesso de tudo – informação, visibilidade, escolhas, cobrança – pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de dominação.

Vivemos um tipo de saturação totalitária: não o totalitarismo clássico dos partidos únicos e dos líderes carismáticos, mas uma saturação difusa, sutil, tecnificada, que atua por excesso e não por proibição. Aqui, o controle não se dá por censura, mas por inundação. Não se manda calar, mas se fala tanto que o silêncio se torna impossível.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, já apontava para esse novo modelo de dominação: não vivemos mais sob um “poder disciplinar” repressivo, mas sob uma “sociedade do desempenho”, onde cada um se explora a si mesmo em nome da produtividade. O indivíduo se transforma em empreendedor de si, e nesse processo, se torna cúmplice da própria opressão. A saturação totalitária é o modo como esse novo poder se manifesta: pela multiplicação das possibilidades, pela superexposição, pela aceleração do tempo e pela constante pressão para estar presente, atualizado e otimizado.

O totalitarismo do século XXI é amigável, colorido e eficiente. Ele se traveste de liberdade e se infiltra nas estruturas mais íntimas da vida: na saúde, no lazer, nos relacionamentos e até na forma como nos percebemos. Não nos diz o que fazer, mas nos apresenta tantas opções que qualquer escolha parece errada. No fim, somos exauridos não por falta de opções, mas por não conseguirmos suportar a abundância delas.

Talvez resistir a essa saturação passe por reaprender a escolher o silêncio, o intervalo, o limite. Passa por um ato revolucionário simples: desconectar-se. E lembrar que, às vezes, a liberdade não está em ter tudo, mas em poder dizer “não” a quase tudo.