Uma reflexão curta e informal
Não
é preciso viver sob um regime autoritário declarado para sentir a opressão de
uma presença constante: mensagens, alertas, comandos, imagens, algoritmos,
opiniões, exigências. Estamos sempre conectados, e ainda assim, cada vez mais
confinados. Não por grades de ferro, mas por um excesso. Há algo sufocante na
abundância que nos cerca. O excesso de tudo – informação, visibilidade,
escolhas, cobrança – pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de dominação.
Vivemos
um tipo de saturação totalitária: não o totalitarismo clássico dos
partidos únicos e dos líderes carismáticos, mas uma saturação difusa, sutil,
tecnificada, que atua por excesso e não por proibição. Aqui, o controle não se
dá por censura, mas por inundação. Não se manda calar, mas se fala tanto que o
silêncio se torna impossível.
O
filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, já
apontava para esse novo modelo de dominação: não vivemos mais sob um “poder
disciplinar” repressivo, mas sob uma “sociedade do desempenho”, onde cada um se
explora a si mesmo em nome da produtividade. O indivíduo se transforma em
empreendedor de si, e nesse processo, se torna cúmplice da própria opressão. A
saturação totalitária é o modo como esse novo poder se manifesta: pela
multiplicação das possibilidades, pela superexposição, pela aceleração do tempo
e pela constante pressão para estar presente, atualizado e otimizado.
O
totalitarismo do século XXI é amigável, colorido e eficiente. Ele se traveste
de liberdade e se infiltra nas estruturas mais íntimas da vida: na saúde, no
lazer, nos relacionamentos e até na forma como nos percebemos. Não nos diz o
que fazer, mas nos apresenta tantas opções que qualquer escolha parece errada.
No fim, somos exauridos não por falta de opções, mas por não conseguirmos
suportar a abundância delas.
Talvez
resistir a essa saturação passe por reaprender a escolher o silêncio, o
intervalo, o limite. Passa por um ato revolucionário simples: desconectar-se.
E lembrar que, às vezes, a liberdade não está em ter tudo, mas em poder dizer
“não” a quase tudo.