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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Édipo Rei


Quando descobrir a verdade é o maior choque

Eu sempre achei curioso como a história de Édipo não começa com o erro — começa com a tentativa de evitá-lo. E isso já diz muito sobre a vida real.

A tragédia escrita por Sófocles se passa em Tebas, que está sendo devastada por uma peste. O rei Édipo promete descobrir a causa do mal para salvar o povo.

Ao investigar, ele descobre que a cidade está sendo punida porque o assassino do antigo rei, Laio, nunca foi punido. Determinado a encontrar o culpado, Édipo consulta o oráculo e interroga testemunhas.

Pouco a pouco, a verdade emerge: anos antes, tentando fugir de uma profecia que dizia que mataria o pai e se casaria com a mãe, Édipo abandonou sua terra natal. No caminho, matou um homem numa encruzilhada — sem saber que era seu verdadeiro pai, Laio. Mais tarde, ao libertar Tebas da Esfinge, foi coroado rei e casou-se com a rainha viúva, Jocasta — que era sua mãe.

Quando a revelação se completa, Jocasta se suicida.

Édipo, devastado ao perceber que ele próprio é a causa da desgraça que tentava combater, cega-se e pede exílio.

A peça termina com a queda daquele que começou como herói salvador — não por maldade, mas por ignorância diante do próprio destino.

E talvez seja isso que torna essa história tão perturbadora:

Édipo só cai porque teve coragem de buscar a verdade até o fim.

Como vimos, o rei tenta fugir do destino, toma decisões racionais, consulta oráculos, investiga a verdade com método… e, mesmo assim, caminha exatamente para aquilo que mais teme. É quase irônico: quanto mais ele quer clareza, mais se aproxima da revelação que o destruirá.

E aqui entra o ponto que me pega no cotidiano.

A gente vive como pequenos investigadores de nós mesmos.

Perguntamos: “por que isso sempre acontece comigo?”, “onde foi que errei?”, “quem eu realmente sou?”.
Mas nem sempre estamos preparados para a resposta.

Édipo quer salvar Tebas. Quer justiça. Quer verdade.

E não percebe que está, na prática, julgando a si mesmo.

Quantas vezes fazemos isso sem notar?

No trabalho, quando criticamos um ambiente tóxico e depois percebemos que também alimentamos o clima.

Na família, quando buscamos culpados para conflitos antigos e, de repente, entendemos que participamos silenciosamente deles.

Na vida pessoal, quando descobrimos que certas escolhas “inevitáveis” eram, na verdade, padrões nossos.

O mais perturbador em Édipo não é o destino trágico.

É o autoconhecimento forçado.

Ele não é punido por ser mau — ele é devastado por enxergar.

E isso é profundamente humano.

Existe uma ideia filosófica forte ali: a verdade não é sempre libertadora no sentido confortável. Às vezes, ela reorganiza toda a nossa identidade. É como quando percebemos que a imagem que tínhamos de nós mesmos não corresponde à realidade. Não é só uma informação nova; é um abalo existencial.

Lembro de algo muito próximo ao que o filósofo Mário Sérgio Cortella costuma sugerir em reflexões sobre consciência: conhecer a si mesmo não é um ato leve, é um processo que exige coragem para lidar com aquilo que se revela.

Édipo investiga com coragem.

Mas não controla o resultado.

E talvez seja isso que torna a peça tão atual:

nós queremos respostas, mas raramente pensamos no custo delas.

No fundo, “Édipo Rei” não é apenas sobre destino.

É sobre responsabilidade, percepção e o desconforto de perceber que, muitas vezes, a vida não nos engana — somos nós que não queremos ver certos sinais enquanto eles ainda são pequenos.

E quando finalmente vemos… já não dá para voltar ao ponto anterior da ignorância.

Fica aí uma dica de leitura!