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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Desorientação Contemporânea

Às vezes a gente acorda já cansado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite. Não é apenas sono — é um certo desnorteamento. As ruas parecem mais rápidas do que nossas pernas, as telas piscam mais do que nosso olhar consegue acompanhar, e a avalanche de opiniões invade até o silêncio do elevador. É nesse turbilhão que se instala a desorientação contemporânea: não saber bem para onde ir, ainda que todos os caminhos estejam iluminados pelo GPS.

O curioso é que não faltam bússolas, mas sobra excesso. O indivíduo moderno não sofre de falta de direção, mas de direções demais. Escolher torna-se angustiante, como diante de um cardápio infinito em que qualquer opção já vem acompanhada pelo medo de ter deixado passar “a melhor”. Essa desorientação não é apenas geográfica ou prática, mas existencial: quem sou eu neste mar de possibilidades?

O filósofo francês Paul Virilio falava sobre a “dromologia”, o estudo da velocidade, mostrando que o mundo contemporâneo nos arrasta para uma aceleração sem precedentes. Quanto mais rápido vamos, menos sabemos onde estamos. A desorientação não vem do vazio, mas do excesso de movimento — como numa viagem de trem em que a paisagem corre tão veloz que já não se pode distinguir nada.

No cotidiano, sentimos isso quando abrimos várias abas no computador e esquecemos por que começamos a navegar. Quando tentamos acompanhar todas as séries, notícias, mensagens, e no fim ficamos com a estranha sensação de não ter retido nada. Ou quando trocamos de emprego, de cidade, de rede social, mas o desconforto persiste, como se o problema não estivesse no mapa, mas no modo de nos movermos.

A desorientação contemporânea é, em parte, o preço de uma era que confundiu liberdade com saturação. Orientar-se, hoje, exige um gesto quase subversivo: parar, respirar, escolher menos, silenciar notificações e reaprender a se orientar pelo que nos toca de verdade. Não é voltar ao passado nem rejeitar a velocidade, mas cultivar uma bússola interior que não se deixa manipular pelo ritmo do mundo.

Virilio lembrava que “toda tecnologia inventa também um acidente”. O acidente do nosso tempo é essa perda de eixo. E talvez a filosofia tenha aí seu papel mais prático: nos lembrar de que não é preciso correr sempre para frente. Às vezes, a melhor forma de orientação é simplesmente perguntar devagar a nós mesmos: “onde estou, afinal, quando estou em mim?”.