Às vezes a gente acorda já cansado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite. Não é apenas sono — é um certo desnorteamento. As ruas parecem mais rápidas do que nossas pernas, as telas piscam mais do que nosso olhar consegue acompanhar, e a avalanche de opiniões invade até o silêncio do elevador. É nesse turbilhão que se instala a desorientação contemporânea: não saber bem para onde ir, ainda que todos os caminhos estejam iluminados pelo GPS.
O
curioso é que não faltam bússolas, mas sobra excesso. O indivíduo moderno não
sofre de falta de direção, mas de direções demais. Escolher torna-se
angustiante, como diante de um cardápio infinito em que qualquer opção já vem
acompanhada pelo medo de ter deixado passar “a melhor”. Essa desorientação não
é apenas geográfica ou prática, mas existencial: quem sou eu neste mar de possibilidades?
O
filósofo francês Paul Virilio falava sobre a “dromologia”, o estudo da
velocidade, mostrando que o mundo contemporâneo nos arrasta para uma aceleração
sem precedentes. Quanto mais rápido vamos, menos sabemos onde estamos. A
desorientação não vem do vazio, mas do excesso de movimento — como numa viagem
de trem em que a paisagem corre tão veloz que já não se pode distinguir nada.
No
cotidiano, sentimos isso quando abrimos várias abas no computador e esquecemos
por que começamos a navegar. Quando tentamos acompanhar todas as séries,
notícias, mensagens, e no fim ficamos com a estranha sensação de não ter retido
nada. Ou quando trocamos de emprego, de cidade, de rede social, mas o
desconforto persiste, como se o problema não estivesse no mapa, mas no modo de
nos movermos.
A
desorientação contemporânea é, em parte, o preço de uma era que confundiu
liberdade com saturação. Orientar-se, hoje, exige um gesto quase subversivo:
parar, respirar, escolher menos, silenciar notificações e reaprender a se
orientar pelo que nos toca de verdade. Não é voltar ao passado nem rejeitar a
velocidade, mas cultivar uma bússola interior que não se deixa manipular pelo
ritmo do mundo.
Virilio
lembrava que “toda tecnologia inventa também um acidente”. O acidente do nosso
tempo é essa perda de eixo. E talvez a filosofia tenha aí seu papel mais
prático: nos lembrar de que não é preciso correr sempre para frente. Às vezes,
a melhor forma de orientação é simplesmente perguntar devagar a nós
mesmos: “onde estou, afinal, quando estou em mim?”.