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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Eterna Solidão

Há dias em que estamos cercados de gente, notificações, vozes, grupos de WhatsApp — e, ainda assim, algo insiste em ecoar por dentro como um quarto vazio. Não é tristeza exatamente, nem falta de companhia. É outra coisa. Uma sensação de que, mesmo quando somos vistos, não somos alcançados. A isso costumamos chamar de solidão, mas talvez o nome correto seja eterna solidão: não um estado passageiro, e sim uma condição estrutural da existência.

Não falo aqui da solidão de quem está só num domingo à tarde. Falo daquela que permanece mesmo quando a vida “dá certo”.

 

A solidão como condição, não como falha

A tradição costuma tratar a solidão como um problema a ser resolvido: com amor, com amigos, com pertencimento, com terapia, com Deus, com likes. Mas há uma inversão possível — e necessária.

A eterna solidão não nasce da ausência do outro, mas da impossibilidade de total coincidência entre consciências.

Por mais íntima que seja uma relação, ninguém acessa diretamente a experiência interna do outro. Posso descrever minha dor, mas você nunca a sentirá exatamente como eu. Posso amar profundamente, mas meu amor sempre atravessa o filtro da minha própria história, linguagem e expectativa. Existe um intervalo irredutível entre um eu e outro eu — e é ali que a solidão mora.

A filosofia existencial já tocou nesse ponto: somos lançados ao mundo como seres singulares, sem tradução completa. Mas o aspecto inovador aqui é reconhecer que essa solidão não é defeito da vida, é seu alicerce. Ela não surge porque falhamos em nos comunicar; ela surge porque comunicar-se plenamente é ontologicamente impossível.

Em outras palavras: não estamos sós apesar dos outros, estamos sós com os outros.

 

A ilusão contemporânea: conexão sem encontro

O mundo atual promete o fim da solidão através da conexão constante. Mas o que ele oferece, na verdade, é uma anestesia. Falamos o tempo todo, mas raramente dizemos o indizível. Mostramos imagens, mas escondemos vivências. Compartilhamos opiniões, mas não abismos.

Isso cria um paradoxo cruel: quanto mais nos conectamos superficialmente, mais evidente se torna a solidão estrutural. É como acender luzes em um quarto vazio — a claridade não traz companhia, apenas revela a ausência.

A eterna solidão se intensifica quando acreditamos que ela não deveria existir.

 

Como é no cotidiano: onde a eterna solidão se revela

No relacionamento amoroso

Dois corpos deitados na mesma cama. Um silêncio confortável. Ainda assim, cada um atravessa pensamentos que o outro jamais tocará. Não é falta de amor — é a fronteira invisível entre mundos interiores.

No trabalho

Você passa o dia inteiro interagindo, sendo útil, respondendo demandas. Ao final, sente um cansaço que não vem do esforço físico, mas da sensação de não ter sido realmente visto. Sua função foi reconhecida; sua existência, não.

Em família

Risos à mesa, histórias repetidas. Mesmo assim, certos medos, desejos e arrependimentos permanecem impronunciáveis. Não por falta de confiança, mas porque não há linguagem suficiente.

Consigo mesmo

Talvez o exemplo mais perturbador: há momentos em que nem nós conseguimos nos acompanhar. Sentimos algo que não sabemos nomear. Somos estrangeiros em nossa própria casa.

 

Uma virada ética: o que fazer com a eterna solidão?

A questão não é “como acabar com a eterna solidão”, mas como habitá-la sem desespero.

Quando aceitamos que ninguém nos completará totalmente — nem pessoas, nem ideias, nem causas —, algo se pacifica. A exigência impossível cai. O outro deixa de ser um remédio e passa a ser um encontro parcial, mas real.

Curiosamente, é nesse ponto que relações se tornam mais verdadeiras: quando não pedimos ao outro que nos salve da condição humana.

A eterna solidão, então, deixa de ser um vazio e se transforma em espaço. Espaço de criação, de pensamento, de silêncio fértil. É ali que nasce a arte, a reflexão profunda, a espiritualidade não performática.

 

Solidão não como condenação, mas como dignidade

Talvez a maior dignidade do ser humano seja esta: carregar um mundo interior que nunca será totalmente traduzido. A eterna solidão não nos diminui — ela nos singulariza.

Não estamos condenados a ela; estamos constituídos por ela.

E, paradoxalmente, quando reconhecemos isso, os encontros — mesmo imperfeitos — se tornam mais honestos, mais leves, mais humanos. Porque deixam de prometer o impossível e passam a oferecer o essencial: presença, ainda que incompleta.

No fundo, talvez a eterna solidão seja apenas o nome filosófico daquilo que nos torna, definitivamente, alguém.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Desorientação Contemporânea

Às vezes a gente acorda já cansado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite. Não é apenas sono — é um certo desnorteamento. As ruas parecem mais rápidas do que nossas pernas, as telas piscam mais do que nosso olhar consegue acompanhar, e a avalanche de opiniões invade até o silêncio do elevador. É nesse turbilhão que se instala a desorientação contemporânea: não saber bem para onde ir, ainda que todos os caminhos estejam iluminados pelo GPS.

O curioso é que não faltam bússolas, mas sobra excesso. O indivíduo moderno não sofre de falta de direção, mas de direções demais. Escolher torna-se angustiante, como diante de um cardápio infinito em que qualquer opção já vem acompanhada pelo medo de ter deixado passar “a melhor”. Essa desorientação não é apenas geográfica ou prática, mas existencial: quem sou eu neste mar de possibilidades?

O filósofo francês Paul Virilio falava sobre a “dromologia”, o estudo da velocidade, mostrando que o mundo contemporâneo nos arrasta para uma aceleração sem precedentes. Quanto mais rápido vamos, menos sabemos onde estamos. A desorientação não vem do vazio, mas do excesso de movimento — como numa viagem de trem em que a paisagem corre tão veloz que já não se pode distinguir nada.

No cotidiano, sentimos isso quando abrimos várias abas no computador e esquecemos por que começamos a navegar. Quando tentamos acompanhar todas as séries, notícias, mensagens, e no fim ficamos com a estranha sensação de não ter retido nada. Ou quando trocamos de emprego, de cidade, de rede social, mas o desconforto persiste, como se o problema não estivesse no mapa, mas no modo de nos movermos.

A desorientação contemporânea é, em parte, o preço de uma era que confundiu liberdade com saturação. Orientar-se, hoje, exige um gesto quase subversivo: parar, respirar, escolher menos, silenciar notificações e reaprender a se orientar pelo que nos toca de verdade. Não é voltar ao passado nem rejeitar a velocidade, mas cultivar uma bússola interior que não se deixa manipular pelo ritmo do mundo.

Virilio lembrava que “toda tecnologia inventa também um acidente”. O acidente do nosso tempo é essa perda de eixo. E talvez a filosofia tenha aí seu papel mais prático: nos lembrar de que não é preciso correr sempre para frente. Às vezes, a melhor forma de orientação é simplesmente perguntar devagar a nós mesmos: “onde estou, afinal, quando estou em mim?”.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Contrato Social

Visão Contemporânea do Contrato Social

Todo mundo já assinou contrato sem ler. Seja na hora de comprar um celular, alugar um apartamento ou baixar um aplicativo. A gente rola a tela, clica em “aceito” e segue a vida. O curioso é que, em certo sentido, a vida em sociedade funciona do mesmo jeito: há um contrato social tácito que todos nós “aceitamos”, mesmo sem ter lido as letras miúdas.

Esse contrato não está impresso em papel timbrado nem reconhecido em cartório. Ele se manifesta quando paramos no sinal vermelho, quando respeitamos a fila do mercado, quando sabemos que não podemos atravessar a cidade tocando música em volume máximo de madrugada. São regras silenciosas que permitem a convivência entre diferentes.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau tornou célebre essa ideia ao afirmar que, para escapar da selva de interesses individuais, os homens decidiram se unir em um pacto que não anula a liberdade, mas a transforma em liberdade civil. Em vez de viver submetido apenas à força bruta, o indivíduo passa a viver segundo leis criadas por todos. O paradoxo é bonito: ao abrir mão de uma parte da liberdade natural, ganhamos uma liberdade maior, sustentada pela coletividade.

Na prática, isso aparece o tempo todo. No trânsito, quando paramos diante de uma faixa de pedestres, cumprimos o pacto de que a vida do outro tem valor. Já quando alguém fura o sinal ou dirige bêbado, rompe o acordo e põe todos em risco. No trabalho, respeitar horários, dividir responsabilidades e reconhecer o esforço alheio é parte do contrato invisível que sustenta a confiança no ambiente coletivo. Quando alguém burla essas regras, mina o espírito de cooperação. E nas redes sociais, embora não pareça, também vigora um contrato: falar, discordar, compartilhar — tudo isso faz parte da liberdade, mas sem transformar a tela em campo de agressão, pois o pacto social não desaparece só porque estamos atrás de um avatar.

Mas esse contrato contemporâneo enfrenta rachaduras. Cresce o individualismo, e muitos preferem usufruir das vantagens do pacto sem reconhecer os deveres. A pergunta que Rousseau fez no século XVIII continua atual: como manter a liberdade individual sem destruir a base comum que a sustenta?

O pensador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda ajuda a iluminar essa questão ao lembrar, em Raízes do Brasil, que o “homem cordial” nem sempre respeita o contrato social, pois tende a privilegiar laços pessoais em detrimento das regras impessoais. O desafio brasileiro, portanto, é tornar efetivo o pacto num país onde a amizade, a simpatia ou o “jeitinho” muitas vezes se sobrepõem ao cumprimento da lei.

O contrato social, longe de ser um acordo assinado no passado, é uma negociação viva. Ele depende de cada gesto cotidiano, de cada escolha ética, de cada reconhecimento do outro como parte do mesmo pacto. Afinal, viver junto nunca é automático: é sempre uma tarefa em andamento.