Vira
e mexe volta à tona a questão das cotas sociais. As cotas sociais
costumam gerar debate acalorado porque mexem numa ferida antiga: a ideia de
igualdade num país profundamente desigual. Penso que dá pra falar delas sem
slogan — nem demonizando, nem romantizando.
Em
termos simples, cotas sociais são políticas de acesso (principalmente à
educação e ao serviço público) que levam em conta condições socioeconômicas,
como renda familiar, tipo de escola frequentada (pública ou privada), local de
moradia, entre outros fatores. A lógica é direta: não basta tratar todos
como iguais quando as largadas são radicalmente diferentes.
O argumento central
Quem defende cotas
sociais parte de uma constatação básica:
mérito não nasce no
vácuo.
Um
estudante que estudou a vida inteira em escola pública precária, trabalhou
cedo, pegou ônibus lotado e nunca teve aula particular competiu em condições
muito diferentes de alguém que teve acesso a capital cultural, tempo livre
e estrutura. As cotas não eliminam o mérito — elas tentam corrigir a
assimetria do ponto de partida.
“Mas isso não abaixa o
nível?”
Esse
é um medo comum. Na prática, o que se viu (especialmente nas universidades
públicas brasileiras) foi o contrário, pelo que sei é que:
- alunos cotistas acompanham o curso,
- taxas de evasão são semelhantes (ou
menores),
- e muitos têm desempenho acadêmico
equivalente aos não cotistas.
Ou seja, oportunidade não
é sinônimo de facilitação.
Cotas sociais × cotas
raciais
Aqui vale uma distinção
importante:
- cotas sociais
focam renda e escolaridade;
- cotas raciais
reconhecem que, além da pobreza, o racismo estrutural cria barreiras
específicas, mesmo para pessoas negras que não são pobres.
No
Brasil, essas duas dimensões se sobrepõem muito — mas não totalmente. Por isso,
o modelo adotado costuma combinar critérios sociais e raciais, tentando
capturar melhor a realidade.
Um desconforto necessário
Cotas
sociais incomodam porque quebram a narrativa confortável da meritocracia
pura. Elas nos obrigam a admitir que talento existe em todo lugar, mas o
acesso às condições para desenvolvê-lo não.
No fundo, a pergunta que
elas levantam não é “quem merece mais”, mas:
quanta desigualdade uma
sociedade aceita antes de chamar isso de injustiça?
Não são uma solução
mágica. Não substituem uma educação básica forte, nem resolvem sozinhas o
problema da desigualdade. Mas funcionam como ponte — imperfeita,
provisória, mas necessária — entre o país real e o país que gosta de se
imaginar justo.
As
cotas sociais deixam de ser necessárias quando o ponto de partida
deixa de ser desigual, o que exige uma educação básica pública de alta
qualidade e homogênea, redução consistente da pobreza, acesso real a saúde,
alimentação, cultura e tempo para estudar, além de políticas econômicas que não
naturalizem a herança da miséria; em outras palavras, quando o lugar onde
alguém nasce deixa de determinar, com tanta força, o lugar a que pode chegar.
As
cotas raciais existem porque, mesmo quando a desigualdade econômica é
controlada, a cor da pele continua operando como filtro social,
produzindo desvantagens que não aparecem apenas na renda ou na escola
frequentada; elas reconhecem que o racismo não é só um preconceito individual,
mas um mecanismo estrutural que afeta expectativas, oportunidades,
tratamento institucional e trajetórias de vida, e por isso não são um
privilégio, mas uma ferramenta corretiva provisória, necessária enquanto
a sociedade insistir em tratar pessoas de forma diferente antes mesmo de saber
quem elas são.