“Se
você quiser filosofar, escreva romances” Albert Camus
Esta afirmação de Camus é verdadeira, por que? porquê é uma forma inteligente de levar a filosofia até as pessoas que ainda não haviam tido interesse ou contato com o assunto, esta é uma forma de atrair o interesse das pessoas, a filosofia que é a mãe do conhecimento não deve passar desapercebida na vida do ser humano, é preciso dialogar com ela e com seus preciosos conhecimentos, filosofar é viver intensamente sua existência.
O livro é extremamente
atual, embora tenha sido escrito em 1947, o título é bastante sugestivo, dá a
pinta do que está se referindo, está na lista dos mais vendidos, e este é o
momento ideal para se falar sobre ele, resolvi fazer esta resenha por dois
motivos, primeiro por ser muito atual em relação a epidemia narrada no livro
com a pandemia que o mundo vive e familiaridade dos eventos narrados, em
segundo lugar pela crise de representatividade política que estamos vivendo
desde muitos anos, faço relação as situações noticiadas
pela mídia e outras muitas de corrupção envolvendo políticos e politicagens.
Albert Camus foi um escritor, filósofo,
romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta franco-argelino. Ele também atuou
como jornalista militante envolvido na Resistência Francesa, situando-se
próximo das correntes libertárias durante as batalhas morais no período pós-guerra.
O livro A Peste, é a forma alegórica que o romance fez
da peste uma metáfora para todas as formas de opressão, horrores
voluntários ou não causados pela mão humana e claro de resistência em todos os
sentidos da palavra, a estória se refere ao nazismo, no pós-Guerra, mas também a
outros flagelos oriundos do absurdo, a peste surge quando ratos aos poucos vão
aparecendo mortos até tornarem-se um número imenso, junto com a morte dos ratos
as pessoas também começam a ficar doentes e a morrer aos poucos e depois aos
montes, na estória do livro os ratos que aparecem aos poucos seriam uma representação
dos soldados nazistas e a peste seria a guerra com seus horrores, em nosso caso
a relação que faço é do momento atual, estamos todos ligados ao primeiro motivo
que é a pandemia que acertou o mundo em cheio e principalmente nós brasileiros
estamos ligados ao segundo motivo, envergonhados mundialmente, faço uma relação
entre os ratos que seriam os políticos corruptos, alguns velhos conhecidos, que
chegaram para dizimar não só uma cidade, mas o país, os ratos políticos estão contaminados
não pela peste bubônica, mas pela peste da corrupção e seus horrores mostrando
do que o ser humano é capaz.
Os políticos surgem como
ratos para dizimar os recursos da sociedade, que consequentemente acabam dizimando
os direitos a saúde, a educação, a segurança, e a esperança em se acreditar que
possa haver alguém honesto e integro.
Os recursos são desviados
pelos “ratos” para atender seus próprios interesses e bolsos, o horror é tão
grande que mesmo em tempo de pandemia ouvimos relatos de superfaturamento em
vacinas e insumos, super verba para Fundo Eleitoral de 6 bilhões, sem falar no dinheiro
na cueca, em malas e etc, fatos de corrupção não faltam para ilustrar.

Os ratos políticos alegam
não haver verba para atender as necessidades da população, mas aprovam verba
para fundo Eleitoral de 2 bilhões como a que aprovaram em 2020, como viram que
é fácil, já aumentaram sua intenção para 2021 tal verba para 6 bilhões, este
absurdo é tão grande, que só podemos pensar se tratar da corrupção do bom senso
e total despreparo desta classe que deveria estar zelando pela aplicação
correta de recursos públicos, a grandiosidade do problema merece tratamento de
igual monta, não aguentamos mais, me parece haver um único caminho, é o de
exterminar com os ratos antes que eles nos exterminem, a justiça tem de ser
dura e exemplar, não é possível esperar que a peste desapareça por si só como
foi o que aconteceu na estória do livro, só a pretensão de deixar seguir em
frente tal absurdo, como já disse a magnitude da intenção se revelou o alcance
e o tamanho da corrupção nesta classe que deveria ser a mais correta por tratar
de dinheiro público.
Voltemos ao livro, o
livro contém muitas reflexões que são recorrentes em outras obras do autor,
como a absurdidade da existência, o amor, a revolta e a solidariedade humana.
Como analogia, a narrativa e a doença alertam o leitor para uma constante
ameaça política sobre sua vida e direitos, como por exemplo ao que
anteriormente foi narrado.
A familiaridade e os
pontos de contato da estória do livro com a realidade são imensos, tanto os
flagelos totalitários quanto as pandemias reais que, de tempos em tempos,
surgem “para desgraça e ensinamento dos homens”, sabemos que o tempo também
enfraquece a memória e o ensinamento acaba sendo esquecido, mesmo diante do
horror causados pela miséria e doenças há quem esteja tirando algum proveito de
forma desonesta nesta crise sanitária e econômica.
O romance A Peste foi
publicado em 1947, pouco tempo após o fim da Segunda Guerra Mundial, e conta a
história da chegada de uma epidemia à cidade argelina de Oran, ele narra a história de trabalhadores que
descobrem a solidariedade em meio à uma peste que assola a cidade, e pode ser
interpretado como metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial, assim como a
pandemia atualmente revelou o espirito de solidariedade das pessoas em ajudar
as pessoas que estão necessitadas do mínimo para sobreviverem.
O autor como sabemos
conviveu com a tuberculose, ele conviveu com a proximidade da morte, falando
bastante sobre a morte, mas fala também sobre a vida, amor e resistência de
todos os tipos e sentidos da palavra.
A peste de nossa estória
é a peste bubônica ou peste negra, ou ainda simplesmente peste, é uma doença
grave e muitas vezes fatal causada pela bactéria Yersinia pestis, que é
transmitida através das pulgas de animais roedores aos seres humanos, ou
ferimentos e arranhões de animais domésticos infectados, não tem vacina para
esta doença, o que existe são medicamentos para combater a doença, combater a
doença é combater e exterminar os ratos, com o aquecimento global já há estudos
que apontam para uma infestação global destes animais.
A estória narra como a
peste bubônica se manifesta nos seres humanos, seu nome vem justamente de um dos sintomas que causa: um inchaço
doloroso do linfonodo, que atinge os tecidos da axila ou da virilha, formando
uma espécie de bolha, conhecida como "bubão", as cenas narradas são
extremamente realistas, as pessoas vão morrendo aos poucos, fisicamente e
psicologicamente em razão das medidas sanitárias, como o estado de sitio e o
isolamento dos contaminado.
A cidade de oran onde se passa
nossa estória é uma cidade comum e pacata, é uma cidade francesa na costa
argelina, os detalhes da descrição da cidade nos dão conta que é uma cidade
feia, sem pombos, sem arvores, sem jardins, as pessoas são pacatas demais, numa
mesmice e monotonia imensa, sem altos e baixos em suas vidas, são como autômatos,
é uma visão imaginária sombria, a monotonia só é quebrada pela chegada da peste
com seus horrores.
Os ratos começam a
aparecer mortos, aos poucos e depois aos montes, em seguida as pessoas também
começam a aparecer mortos, até se darem conta de se tratar de uma doença, a
descrição da morte é uma coisa horrorosa, em detalhes de como a doença destrói
o corpo e a mente.
A metáfora é representada
pelos ratos que vão surgindo aos poucos está relacionado com a chegadas dos
soldados durante a segunda guerra, por aí já podemos entender a relação que
Camus está fazendo com a guerra.
O autor tem ares de
visionário, o medo da população em torno da peste, a insegurança, a dúvida de
ficar em casa, é uma doença desconhecida por ser relativamente nova, o médico
toma medidas sanitárias e a cidade é colocada em estado de sitio, as pessoas
são separadas, vidas são separadas por conta da peste, há mortes de pessoas
jovens e crianças, é uma estória na qual nos identificamos muito, há a saudade
das pessoas isoladas, a saudade da rua, saudade de sair para o mundo, a sensação
no mal invisível, a desconfiança de que tudo pode estar contaminado, surgem
teorias bizarras como apocalipse como praga bíblica, ao ler percebemos haver um
paralelismo com nossa situação atual.
Como sabemos a morte traz
uma carga emocional muito dura, o livro traz histórias muito tristes e tenho
certeza que os corações mais duros se sensibilizarão, talvez sensibilizem alguns
mais quem lê a história do livro do que com uma história da vida real, é estranho,
mas isto existe.
A medida que o livro
avança, os horrores vão acontecendo e a esperança das pessoas vai esmorecendo
até que num dia a peste simplesmente some, o sol nasce belo e maravilhoso, no
entanto a peste continua lá, está escondida em algum lugar, em algum canto, á
espreita, para um dia talvez abocanhar
novamente aquela cidade, poderia através de um lenço, dentro de um baú, em
algum lugarzinho inocente.
A ideia do livro também
carrega a ideia do mal no mundo, numa perspectiva diferente da religião, ele
não quer que a religião mascare a situação, ele chega a duvidar da bondade, a
fé é questionada ainda mais quando a doença começa a atingir as crianças e este
seria o pior sofrimento que é o sofrimento da criança, a dúvida se Deus existe,
por ver Deus deixar as crianças morrerem.
O autor pensa que é o
homem o responsável moralmente por tudo que ocorre, sem a figura de Deus, os
personagens do livro incorporam as ideias de Camus, nesta ideia da luta contra
o mal, pode ser a violência, a corrupção, suas atitudes não são pacifistas, é
uma ideia de luta, ele na vida real deu seu o exemplo, ele trabalhou como
jornalista junto a resistência contra os nazistas, ele não é um cara pessimista,
ele é realista, o mundo é absurdo pelas mortes desnecessárias e inúteis, mas
não é atroz, mas é um mundo que vale a pena lutar, ele tem uma visão mediterrânea
pagã, ele tinha uma ideia contra a pena de morte, ele é a favor da ideia que o
ser humano sempre deve ter uma chance de mudar.
Com a Peste (1947),
Albert Camus tenta a demonstração de um novo cogito cartesiano: “Eu me revolto,
portanto nós somos.” Pois a revolta (individual) contra o absurdo é também
revolta (coletiva) a favor dos valores que a própria revolta revela. Vamos direcionar
nossa revolta contra estes absurdos políticos que estão devorando nosso pais
com a gente dentro dele.
Fonte:
Camus, Albert. A Peste/Albert Camus: tradução de Valerie Rumjanek Chaves – 31ª
ed- Rio de Janeiro: Record 2020.