Nunca estivemos tão juntos e tão sós
Nunca
foi tão fácil falar com alguém. Uma mensagem resolve, um áudio aproxima, uma
chamada mata a saudade. Ainda assim, muita gente termina o dia com a sensação
estranha de não ter estado com ninguém.
Não
é falta de contato. É falta de presença.
Conectados,
mas não encontrados
A
promessa da tecnologia era simples: aproximar. E ela cumpriu — parcialmente.
Aproximou corpos distantes, mas não garantiu encontros.
Martin
Buber ajuda a entender o que se perdeu ao distinguir dois modos de
relação:
- Eu–Isso:
quando o outro é meio, função, utilidade
- Eu–Tu:
quando o outro é presença, mistério, encontro
Grande
parte das nossas interações hoje opera no modo Eu–Isso. Conversamos para
informar, resolver, reagir, responder. Pouco para simplesmente estar com.
A
comunicação sem risco
A
hiperconexão reduz o risco do encontro. Dá para sumir, editar, ignorar,
responder depois. Isso protege — mas também empobrece.
Hannah
Arendt lembrava que o encontro humano verdadeiro envolve
imprevisibilidade. O outro pode nos contrariar, nos silenciar, nos
desorganizar. A comunicação digital, ao contrário, permite controle. E onde
tudo é controlável, nada atravessa profundamente.
Cotidiano:
grupos cheios, vínculos vazios
Grupos
de mensagens cheios, aniversários lembrados automaticamente, conversas
constantes. Ainda assim, quando algo dói de verdade, surge a dúvida: pra
quem eu ligo?
A
solidão contemporânea não é isolamento físico. É a ausência de alguém diante de
quem não precisamos explicar tudo. Falta o espaço onde o silêncio não
constrange.
O
medo de ser peso
Quanto
mais funcional a comunicação, menos espaço para fragilidade. Ninguém quer
“atrapalhar”, “incomodar”, “pesar o clima”.
A
pessoa sofre sozinha porque aprendeu que só deve aparecer quando está bem.
Byung-Chul
Han observa que a sociedade da positividade não sabe lidar com a dor. O
sofrimento não engaja, não performa, não circula bem. Ele é tolerado apenas se
for superado rapidamente — de preferência com uma lição inspiradora no final.
A
solidão em público
O
paradoxo é cruel: estamos expostos o tempo todo, mas raramente acolhidos.
Fala-se muito, escuta-se pouco. Reage-se rápido, permanece-se pouco.
A
solidão surge não da ausência de olhares, mas da falta de um olhar que
permaneça.
O
desaparecimento da escuta
Escutar
exige tempo e suspensão de si. Em um mundo acelerado, isso vira luxo.
Conversas viram trocas de opinião, não partilhas. Cada um espera a vez de falar
— não de compreender.
Walter
Benjamin já alertava para o desaparecimento da experiência
compartilhada. Sem escuta, não há narrativa comum. Apenas relatos paralelos.
Existe
saída?
Talvez
não uma solução estrutural, mas gestos pequenos e quase invisíveis:
- conversas sem objetivo
- encontros sem registro
- presença sem resposta imediata
A
intimidade não nasce da frequência, mas da disponibilidade.
Concluindo
A
solidão hiperconectada não é um problema técnico. É existencial.
Ela não se resolve com mais mensagens, mas com mais presença real —
mesmo que rara.
Talvez
a pergunta mais honesta hoje não seja:
com
quantas pessoas eu falo?
Mas:
diante
de quem eu posso simplesmente ser?