Falta imensa não é simplesmente ausência. É uma presença invertida — algo que, mesmo não estando mais ali, ocupa espaço demais dentro da gente.
Tem
dias em que ela aparece sem aviso. No meio de uma conversa qualquer, no cheiro
de algo familiar, numa música que você nem lembrava que existia. E, de repente,
tudo fica meio suspenso, como se o mundo continuasse andando, mas você tivesse
ficado alguns passos atrás.
A
falta imensa não grita — ela sussurra. E talvez seja isso que a torna tão
poderosa.
A
gente costuma pensar que sentir falta é sinal de apego, de fraqueza até. Mas,
olhando com mais cuidado, talvez seja o contrário: sentir falta é prova de que
algo foi vivido de verdade. Só sentimos falta daquilo que, de alguma forma, nos
atravessou.
O
filósofo Luiz Felipe Pondé costuma provocar dizendo que amar é sempre
correr o risco da perda. E ele não fala isso como um alerta pessimista, mas
como uma constatação quase inevitável: tudo que importa, em algum momento,
escapa. Pessoas mudam, rotinas se dissolvem, versões de nós mesmos deixam de
existir.
E
aí sobra esse vazio estranho — que não é exatamente vazio.
É
curioso como a falta imensa não é só sobre o outro. Muitas vezes, ela é sobre
quem éramos quando aquele outro estava ali. Sentimos falta de conversas, de
risadas, de silêncios… mas também sentimos falta da versão de nós que cabia
naquele cenário.
Como
quando você passa por um lugar antigo e percebe que não é só o lugar que mudou
— você também não cabe mais ali do mesmo jeito.
No
cotidiano, isso aparece nas pequenas coisas:
—
aquela mensagem que você não manda mais,
—
o hábito que perdeu sentido,
—
o nome que você evita mencionar em voz alta.
A
falta vai se infiltrando nesses detalhes, como quem não quer chamar atenção,
mas transforma tudo.
E,
no entanto, há algo quase bonito nisso.
Porque
a falta imensa também organiza a memória. Ela seleciona o que importa, destaca
o que marcou, dá contorno ao que foi vivido. Sem ela, talvez tudo fosse apenas
um amontoado indiferente de experiências.
Sentir
falta é, de certa forma, continuar em relação — mesmo que de um jeito
invisível.
Talvez
o problema não seja a falta em si, mas a nossa resistência a ela. Queremos
preencher rápido, substituir, distrair. Como se fosse possível tapar um buraco
que, na verdade, não foi feito para ser fechado.
Algumas
ausências não pedem solução. Pedem espaço.
E,
com o tempo — não aquele tempo apressado, mas o tempo silencioso — a falta
imensa muda de forma. Ela deixa de ser um peso constante e vira uma espécie de
presença calma, quase como uma lembrança que já não dói tanto, mas ainda
importa.
No
fim, talvez seja isso:
a
falta imensa não vai embora — ela amadurece com a gente.
E,
de algum jeito estranho, nos ensina a reconhecer o valor do que passa…
justamente porque passou.