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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Falta Imensa

Falta imensa não é simplesmente ausência. É uma presença invertida — algo que, mesmo não estando mais ali, ocupa espaço demais dentro da gente.

Tem dias em que ela aparece sem aviso. No meio de uma conversa qualquer, no cheiro de algo familiar, numa música que você nem lembrava que existia. E, de repente, tudo fica meio suspenso, como se o mundo continuasse andando, mas você tivesse ficado alguns passos atrás.

A falta imensa não grita — ela sussurra. E talvez seja isso que a torna tão poderosa.

A gente costuma pensar que sentir falta é sinal de apego, de fraqueza até. Mas, olhando com mais cuidado, talvez seja o contrário: sentir falta é prova de que algo foi vivido de verdade. Só sentimos falta daquilo que, de alguma forma, nos atravessou.

O filósofo Luiz Felipe Pondé costuma provocar dizendo que amar é sempre correr o risco da perda. E ele não fala isso como um alerta pessimista, mas como uma constatação quase inevitável: tudo que importa, em algum momento, escapa. Pessoas mudam, rotinas se dissolvem, versões de nós mesmos deixam de existir.

E aí sobra esse vazio estranho — que não é exatamente vazio.

É curioso como a falta imensa não é só sobre o outro. Muitas vezes, ela é sobre quem éramos quando aquele outro estava ali. Sentimos falta de conversas, de risadas, de silêncios… mas também sentimos falta da versão de nós que cabia naquele cenário.

Como quando você passa por um lugar antigo e percebe que não é só o lugar que mudou — você também não cabe mais ali do mesmo jeito.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas coisas:

— aquela mensagem que você não manda mais,

— o hábito que perdeu sentido,

— o nome que você evita mencionar em voz alta.

A falta vai se infiltrando nesses detalhes, como quem não quer chamar atenção, mas transforma tudo.

E, no entanto, há algo quase bonito nisso.

Porque a falta imensa também organiza a memória. Ela seleciona o que importa, destaca o que marcou, dá contorno ao que foi vivido. Sem ela, talvez tudo fosse apenas um amontoado indiferente de experiências.

Sentir falta é, de certa forma, continuar em relação — mesmo que de um jeito invisível.

Talvez o problema não seja a falta em si, mas a nossa resistência a ela. Queremos preencher rápido, substituir, distrair. Como se fosse possível tapar um buraco que, na verdade, não foi feito para ser fechado.

Algumas ausências não pedem solução. Pedem espaço.

E, com o tempo — não aquele tempo apressado, mas o tempo silencioso — a falta imensa muda de forma. Ela deixa de ser um peso constante e vira uma espécie de presença calma, quase como uma lembrança que já não dói tanto, mas ainda importa.

No fim, talvez seja isso:

a falta imensa não vai embora — ela amadurece com a gente.

E, de algum jeito estranho, nos ensina a reconhecer o valor do que passa… justamente porque passou.

domingo, 10 de maio de 2026

Paixão pela Ausência


Tem um tipo de sentimento que é meio contraditório — e, justamente por isso, difícil de admitir: a paixão pela ausência.

Não é simplesmente saudade. Saudade é falta que dói e quer ser preenchida. A paixão pela ausência é outra coisa. É quando a falta vira presença. Quando aquilo que não está ali ocupa mais espaço do que aquilo que está.

Eu percebo isso em situações bem comuns.

Você abre uma conversa antiga no celular. A pessoa não está mais na sua vida, mas a memória está inteira ali — intacta, até mais organizada do que quando era real. Você relê mensagens, revive tons, imagina desfechos diferentes. E, por um instante, parece melhor assim: sem atrito, sem contradição, sem risco.

A ausência começa a ser mais confortável do que a presença.

Sigmund Freud já sugeria que a mente humana tem uma tendência curiosa: ela não apenas sofre com a perda, mas também a reorganiza. A gente molda a lembrança, suaviza as falhas, intensifica o que era bom. No fim, o que fica não é exatamente a pessoa — é uma versão editada dela.

E aí nasce algo estranho: um apego não ao outro, mas à ideia do outro.

No cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis.

Aquela música que você evita… mas não apaga.

O lugar que você não frequenta mais… mas também não substitui.

O hábito que ficou suspenso no tempo, como se estivesse esperando alguém voltar.

É como se a ausência criasse um espaço sagrado — intocável.

Roland Barthes, no seu jeito delicado de olhar para o amor, falava sobre isso ao tratar da espera e da falta. Para ele, o sujeito apaixonado vive muito mais no intervalo do que no encontro. A ausência não é só sofrimento — ela é também um campo fértil de imaginação.

E talvez seja aí que mora o perigo.

Porque a ausência não discute.

Ela não decepciona.

Ela não muda de ideia.

Ela permite que você projete tudo o que quiser.

Na vida real, o outro chega atrasado, fala algo que você não gosta, muda de humor, não corresponde exatamente. Na ausência, não. Na ausência, o outro cabe perfeitamente no seu desejo.

E, sem perceber, a gente pode começar a preferir isso.

Já viu alguém que nunca “supera” completamente uma história? Que mantém sempre um pedaço guardado, como se fosse um refúgio? Às vezes não é incapacidade de seguir em frente — é escolha silenciosa. Porque, no fundo, aquela ausência virou um lugar seguro.

Não exige negociação. Não exige presença real.

Mas também não devolve vida.

Jean-Paul Sartre dizia que o ser humano está condenado à liberdade — e isso inclui a responsabilidade de lidar com o real, com o que é imperfeito, imprevisível. A ausência, nesse sentido, pode ser uma fuga: um espaço onde nada nos confronta.

Só que tem um detalhe importante: viver preso à ausência é viver em suspensão.

É como manter uma cadeira vazia na mesa. No começo, é um gesto bonito, quase simbólico. Mas, com o tempo, aquela cadeira começa a impedir que alguém novo se sente.

E a vida continua acontecendo — com ou sem esse lugar ocupado.

Talvez a questão não seja eliminar a ausência. Ela faz parte. Toda relação, em algum momento, deixa um rastro. O problema é quando a gente se apaixona por esse rastro e esquece do caminho.

No fim, a paixão pela ausência é uma forma de permanência — mas uma permanência sem troca, sem surpresa, sem transformação.

E viver, no fundo, exige exatamente o contrário.

Exige presença.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

O Impessoal

Uma Reflexão sobre o Impessoal em Heidegger

Sabe aquele momento em que a gente está numa conversa, mas parece que quem fala é uma voz que não tem rosto, nem nome, uma voz que fala “por si só”, como se viesse do ar, do vento, do vácuo, ou de algum lugar além de qualquer pessoa? Às vezes, a gente sente que o que importa não é quem está falando, mas o que está sendo dito — como se o sentido existisse num espaço neutro, impessoal, onde todo mundo pode se encontrar. Essa sensação pode parecer meio estranha, até meio fria, mas para o filósofo alemão Martin Heidegger, esse “impessoal” tem um papel fundamental para entender a existência.

 

Heidegger e o Impessoal: O “Da-Sein” para além do Eu

Heidegger não é fácil de ler — e nem quis ser. Ele propôs uma revolução no modo de pensar o ser humano e sua existência no mundo. Em vez de falar do “eu” como uma entidade fechada, ele preferiu um conceito que abre espaço para algo que é ao mesmo tempo “aqui” e “lá”, “alguém” e “ninguém”: o Da-Sein — o “ser-aí”.

O Da-Sein não é uma pessoa, um sujeito com características fixas. Ele é, antes, a existência que sempre está lançada num mundo comum, compartilhado, onde a individualidade só aparece como um momento dentro de algo mais amplo e impessoal. A existência humana, para Heidegger, é primeiramente “ser-no-mundo”, e esse mundo é um campo de sentido aberto, que não pertence a ninguém, mas que é vivido por todos.

Assim, o impessoal não é uma negação do sujeito, mas a condição para que o sujeito apareça. Antes que eu diga “eu”, já existe um “aqui” comum, uma linguagem comum, um modo comum de estar no mundo, um modo impessoal onde a existência humana se desdobra.

 

O Impessoal como Condição de Possibilidade da Autenticidade

Parece contraditório, mas para Heidegger, para eu ser realmente eu, preciso primeiro me reconhecer como parte de algo impessoal, que é o “mundo”, a “comunidade” da linguagem, do tempo e do espaço. O impessoal é a base, o fundo onde minha individualidade pode emergir.

Por exemplo, quando dizemos “o homem é mortal”, não estamos falando de um indivíduo em particular, mas de uma verdade impessoal que vale para todos os seres humanos. Essa “verdade impessoal” revela um aspecto essencial da existência, a finitude, que nenhum “eu” pode escapar.

Quando vivemos de modo autêntico — como Heidegger chama —, aceitamos essa condição impessoal: reconhecemos que não somos donos do mundo, que somos “jogados” nele, e que nossa vida é uma “tarefa” que emerge dentro dessa impessoalidade existencial.

 

A Voz do Impessoal na Linguagem e no Tempo

Outro aspecto fascinante é o modo como Heidegger entende a linguagem como uma manifestação do impessoal. A linguagem não é propriedade privada, ela “fala” antes mesmo de falarmos. É por meio da linguagem que o impessoal se revela e nos convoca para o ser.

Também o tempo, para Heidegger, não é uma sequência objetiva de instantes medidos pelo relógio, mas uma estrutura impessoal que sustenta toda existência. O passado, o presente e o futuro não são “meus”, são modos de ser do tempo que todos partilhamos.

 

Uma Perspectiva Contemporânea: O Impessoal e a Era Digital

Para finalizar essa reflexão, vamos dar um passo para o hoje: o impessoal de Heidegger tem ecos surpreendentes na era digital. Pense nas redes sociais, nos fóruns, nas conversas em grupo onde a autoria se dilui, onde as ideias circulam de forma quase impessoal — as vozes se confundem, ninguém é dono da verdade, mas todos participam da construção do sentido.

Talvez a experiência contemporânea da internet nos ajude a entender, na prática, o que Heidegger queria dizer com o impessoal como condição da existência: estamos todos conectados num mundo comum, onde a individualidade não desaparece, mas se manifesta dentro de uma rede impessoal de relações, linguagens e tempos compartilhados.

O impessoal, para Heidegger, não é um vazio, nem uma perda do eu. É o espaço primordial onde o ser humano aparece, o campo onde a existência ganha sentido e autenticidade. Entender o impessoal é, assim, entender que viver é, antes de tudo, estar inserido num mundo que fala, convoca e sustenta a vida humana — muito além do “eu” e do “meu”.

E você? Já sentiu essa voz impessoal te chamando para além do seu nome?


domingo, 13 de abril de 2025

Territoriais e Egoístas

Outro dia, entre um café passado na hora e um barulho qualquer vindo da rua, percebi que não precisava de muito para me incomodar. Bastava alguém sentar onde costumo sentar. Um desconhecido, ali, naquele canto que sempre foi meu. Claro que não era meu de fato — a cadeira é do mundo, o espaço é livre —, mas aquilo mexeu comigo. Um incômodo quase infantil, como se tivessem me tirado o cobertor preferido. E foi aí que a pulga filosófica mordeu: será que somos, todos nós, essencialmente territoriais e egoístas?

O ego no centro: um velho conhecido

Não é novidade dizer que o ego gosta de espaço. Não só espaço físico, mas simbólico: lugar na conversa, nas decisões, no mundo. O ego quer ser notado, lembrado, preferido. Quer um canto para chamar de seu. Freud já apontava isso quando falava do ego como mediador entre nossos impulsos internos e o mundo externo. Mas mesmo esse mediador às vezes se esquece da diplomacia e bate o pé: “isso é meu”.

Ser territorial é mais do que proteger um pedaço de chão. É proteger uma narrativa: “aqui sou eu, aqui está a minha marca, aqui é onde eu existo de forma mais plena.” Isso vale pro assento do ônibus, pro lugar na fila, pro armário da cozinha, pro afeto de uma pessoa. A territorialidade tem menos a ver com geografia e mais com identidade.

Egoísmo: autodefesa ou vício?

Somos treinados desde pequenos para entender que dividir é bonito. Mas entre o discurso e o gesto há um abismo. Quando chega a hora de repartir o último pedaço de pizza ou dar atenção ao problema alheio enquanto estamos exaustos, o egoísmo aparece com suas garras bem polidas. E não necessariamente como maldade — às vezes ele é só um mecanismo de sobrevivência.

Thomas Hobbes diria que o ser humano, no estado natural, é competitivo por necessidade. "O homem é o lobo do homem", dizia ele, numa sociedade onde todos lutam por segurança, reconhecimento e posse. Egoísmo, nesse contexto, é estratégia. É o modo que encontramos de garantir nossa permanência num mundo onde tudo parece escasso: tempo, amor, respeito.

Mas será que o mundo é realmente escasso, ou nós é que o dividimos com cercas invisíveis?

A ilusão da posse e os muros que criamos

Quando alguém ocupa "nosso" espaço, sentimos que perdemos algo. Mas o que exatamente? Um conforto? Uma ilusão de controle? A verdade é que muito do nosso egoísmo nasce da crença de que temos domínio sobre algo que, na prática, nunca foi só nosso.

Nietzsche dizia que “o egoísmo é a base de toda moralidade saudável”, o que soa controverso. Mas ele se referia a um egoísmo criativo, vital, que nos impulsiona a afirmar a própria existência. O problema é quando esse impulso vira exclusão. Quando, para que eu exista, o outro precisa desaparecer.

Nesse ponto, a territorialidade se torna um espelho do medo. Medo de não ser visto, de ser substituído, de ser irrelevante. Protegemos territórios como quem protege a própria sombra.

Um caminho possível: desapegar do centro

Se somos todos territorialistas e egoístas por natureza, talvez o desafio não seja negar isso, mas entender como equilibrar. Dar lugar ao outro sem perder o nosso. Compartilhar sem desaparecer. Habitar um mundo onde a existência não precise ser uma disputa constante.

A sabedoria budista fala de não-apego, de reconhecer que tudo é fluxo. Nada é fixo — nem o assento do café, nem as pessoas que amamos, nem as ideias que defendemos com unhas e dentes. Ser menos territorial talvez seja entender que o espaço que realmente importa é aquele que abrimos dentro de nós para o outro existir.