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sábado, 4 de julho de 2026

Tipos de Amor


Tipos de amor é uma dessas expressões que parecem simples até o momento em que tentamos vivê-las com consciência. Aí tudo se complica — e, curiosamente, se aprofunda.

Começo com uma suspeita pessoal: talvez não exista “o amor”, no singular. O que existe são modos de amar, camadas de experiência que atravessam nossa vida como estações — às vezes coexistindo, às vezes entrando em conflito.

A própria tradição filosófica já desconfiava disso. Platão, em seus diálogos, não tratava o amor como uma coisa só, mas como um movimento da alma — algo que pode começar no corpo e terminar na contemplação do eterno. Ou seja: amar é um caminho, não um ponto fixo.

O amor que deseja (Eros)

Há um tipo de amor que nasce da falta. Ele é inquieto, quase impaciente. Quer possuir, quer estar perto, quer reduzir a distância entre “eu” e “o outro”.

Esse é o amor que nos atravessa quando alguém nos tira do eixo — quando um olhar banal vira evento. É o amor que escreve mensagens longas demais, que cria expectativas, que sofre.

Mas aqui está a tensão: esse amor não ama exatamente o outro como ele é. Ama o que falta em si mesmo e projeta no outro. É um amor que constrói — às vezes até inventa.

Como diria Luiz Felipe Pondé, amar pode ser menos sobre encontrar alguém e mais sobre o tipo de ilusão que estamos dispostos a sustentar.

O amor que permanece (Philia)

Diferente do primeiro, há um amor que não nasce da urgência, mas da convivência. Ele cresce quase sem ser notado.

É o amor das amizades antigas, das conversas repetidas, do silêncio confortável. Aqui, o outro não é um enigma a ser conquistado, mas uma presença que já faz parte do mundo.

Esse amor tem menos intensidade dramática, mas mais consistência. Ele não exige espetáculo. Ele resiste.

Curiosamente, esse tipo de amor revela algo importante: amar não é só sentir — é reconhecer. Reconhecer o outro como alguém que permanece mesmo quando a emoção oscila.

O amor que cuida (Ágape)

Há ainda um amor que parece quase contraintuitivo: aquele que não depende de reciprocidade imediata.

É o amor que cuida de alguém doente, que perdoa sem garantia, que permanece mesmo quando não há retorno proporcional. Esse amor não ignora o sofrimento — ele o atravessa.

Na tradição cristã, esse tipo de amor ganha centralidade. C. S. Lewis descrevia esse amor como o mais exigente, porque ele não se apoia no prazer nem na afinidade, mas numa decisão.

É um amor que escolhe continuar.

O amor por si mesmo (e o paradoxo)

Falar de amor sem falar do amor por si mesmo é perigoso. Não no sentido superficial do “autoamor” como slogan, mas no sentido mais difícil: a capacidade de habitar a própria existência sem fuga constante.

Quem não suporta a si mesmo tende a transformar o outro em refúgio — ou em campo de batalha.

Mas há um paradoxo aqui: amar a si mesmo não é se fechar no próprio mundo, e sim tornar-se alguém capaz de encontrar o outro sem precisar usá-lo.

Uma possível síntese (ou uma inquietação)

Talvez os tipos de amor não sejam categorias separadas, mas fases, misturas, ou até tensões que coexistem dentro de cada relação.

O amor que começa como desejo pode amadurecer em amizade. A amizade pode, em momentos críticos, exigir o cuidado sacrificial do ágape. E tudo isso só se sustenta se houver alguma reconciliação consigo mesmo.

No fundo, amar talvez seja aprender a transitar entre essas formas sem se apegar a apenas uma.

E aqui fica uma pergunta — mais filosófica do que prática:

Será que o problema não é amar pouco, mas amar de forma única demais?

Porque a vida parece exigir algo mais complexo: não um tipo de amor, mas uma espécie de inteligência afetiva capaz de mudar de forma conforme o tempo, o outro e nós mesmos também mudamos.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Falta Imensa

Falta imensa não é simplesmente ausência. É uma presença invertida — algo que, mesmo não estando mais ali, ocupa espaço demais dentro da gente.

Tem dias em que ela aparece sem aviso. No meio de uma conversa qualquer, no cheiro de algo familiar, numa música que você nem lembrava que existia. E, de repente, tudo fica meio suspenso, como se o mundo continuasse andando, mas você tivesse ficado alguns passos atrás.

A falta imensa não grita — ela sussurra. E talvez seja isso que a torna tão poderosa.

A gente costuma pensar que sentir falta é sinal de apego, de fraqueza até. Mas, olhando com mais cuidado, talvez seja o contrário: sentir falta é prova de que algo foi vivido de verdade. Só sentimos falta daquilo que, de alguma forma, nos atravessou.

O filósofo Luiz Felipe Pondé costuma provocar dizendo que amar é sempre correr o risco da perda. E ele não fala isso como um alerta pessimista, mas como uma constatação quase inevitável: tudo que importa, em algum momento, escapa. Pessoas mudam, rotinas se dissolvem, versões de nós mesmos deixam de existir.

E aí sobra esse vazio estranho — que não é exatamente vazio.

É curioso como a falta imensa não é só sobre o outro. Muitas vezes, ela é sobre quem éramos quando aquele outro estava ali. Sentimos falta de conversas, de risadas, de silêncios… mas também sentimos falta da versão de nós que cabia naquele cenário.

Como quando você passa por um lugar antigo e percebe que não é só o lugar que mudou — você também não cabe mais ali do mesmo jeito.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas coisas:

— aquela mensagem que você não manda mais,

— o hábito que perdeu sentido,

— o nome que você evita mencionar em voz alta.

A falta vai se infiltrando nesses detalhes, como quem não quer chamar atenção, mas transforma tudo.

E, no entanto, há algo quase bonito nisso.

Porque a falta imensa também organiza a memória. Ela seleciona o que importa, destaca o que marcou, dá contorno ao que foi vivido. Sem ela, talvez tudo fosse apenas um amontoado indiferente de experiências.

Sentir falta é, de certa forma, continuar em relação — mesmo que de um jeito invisível.

Talvez o problema não seja a falta em si, mas a nossa resistência a ela. Queremos preencher rápido, substituir, distrair. Como se fosse possível tapar um buraco que, na verdade, não foi feito para ser fechado.

Algumas ausências não pedem solução. Pedem espaço.

E, com o tempo — não aquele tempo apressado, mas o tempo silencioso — a falta imensa muda de forma. Ela deixa de ser um peso constante e vira uma espécie de presença calma, quase como uma lembrança que já não dói tanto, mas ainda importa.

No fim, talvez seja isso:

a falta imensa não vai embora — ela amadurece com a gente.

E, de algum jeito estranho, nos ensina a reconhecer o valor do que passa… justamente porque passou.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Disfarce na Normalidade


Tem gente que acha que o extraordinário vem com barulho: um rompimento, uma crise, uma epifania digna de filme. Mas, na prática, o mais inquietante costuma vestir jeans, pegar fila no mercado e dar bom dia sem olhar nos olhos. O disfarce da normalidade é talvez o mais sofisticado de todos — porque ninguém suspeita.

A vida cotidiana é um excelente figurino. Acordar, trabalhar, responder mensagens, rir de memes, reclamar do trânsito… tudo isso constrói uma aparência de estabilidade. Só que, por baixo dessa coreografia previsível, muitas vezes mora um desalinho silencioso. Não é exatamente infelicidade — isso seria explícito demais. É uma espécie de anestesia existencial.

O curioso é que esse disfarce não é só social, é íntimo também. A gente aprende a parecer normal para si mesmo. “Tá tudo bem”, repetimos, enquanto algo não nomeado fica ecoando. Não chega a ser dor, mas também não é paz. É como se a vida estivesse funcionando, mas não acontecendo.

Em ambientes de trabalho, isso se torna quase uma arte. Pessoas eficientes, pontuais, produtivas — e completamente desconectadas do que fazem. O desempenho mascara o vazio. Ninguém questiona porque tudo está “dando certo”. E, no entanto, algo essencial pode estar sendo perdido ali: o sentido.

Nas relações, o disfarce ganha outra camada. Conversas superficiais mantêm vínculos aparentemente intactos. Rimos, compartilhamos histórias, fazemos planos… mas evitamos o que realmente nos atravessa. Não por maldade, mas por hábito. A normalidade vira um pacto silencioso: não mexer muito nas coisas.

O filósofo Luiz Felipe Pondé costuma provocar dizendo que a busca obsessiva por bem-estar pode nos tornar frágeis diante da vida real. Talvez o disfarce da normalidade seja justamente isso: uma tentativa de manter tudo sob controle, evitando o desconforto que revelaria verdades mais profundas.

Mas há um preço. Quando tudo parece normal demais, corre-se o risco de perder o contato com aquilo que é vivo — e o que é vivo, por definição, é instável. A inquietação, o conflito, a dúvida… tudo isso faz parte da experiência humana. Ao esconder isso sob o tapete da rotina, a gente não elimina — só adia.

Curiosamente, pequenos “desajustes” às vezes funcionam como rachaduras nesse disfarce. Um silêncio estranho numa conversa, um cansaço que não passa, uma pergunta inesperada. São momentos em que a normalidade falha — e é justamente aí que algo verdadeiro pode emergir.

Talvez o desafio não seja abandonar a normalidade, mas enxergar através dela. Perceber que o cotidiano não precisa ser um esconderijo, mas pode ser um campo de revelação. Que o café de sempre, a caminhada de sempre, a conversa de sempre — tudo isso pode ganhar outra densidade se a gente estiver realmente presente.

No fim, o disfarce só funciona enquanto não é percebido. Quando você começa a notar, algo muda. E talvez seja esse o começo de uma vida menos automática — não necessariamente mais fácil, mas certamente mais real.


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Preso à Narrativa


Há uma prisão silenciosa que poucos reconhecem: não tem grades, não tem muros, mas tem roteiro. É a narrativa que contamos sobre nós mesmos — aquela história repetida tantas vezes que começa a parecer verdade absoluta. “Eu sou assim”, “minha vida sempre foi assim”, “as coisas nunca dão certo pra mim”. E, sem perceber, deixamos de viver a vida como experiência e passamos a vivê-la como confirmação de uma história já escrita.

O curioso é que essa prisão não foi imposta de fora. Ela foi construída com fragmentos de memória, interpretações e, principalmente, com a necessidade humana de dar sentido ao caos. Como já sugeria Friedrich Nietzsche, não existem fatos, apenas interpretações. Mas o problema começa quando esquecemos que estamos interpretando — e passamos a acreditar que nossa versão é a realidade em si.

No cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis. A pessoa que falha uma vez em público e decide: “não sou bom com pessoas”. O trabalhador que recebe críticas e conclui: “não sou capaz”. O casal que enfrenta uma crise e sela o destino: “não fomos feitos um para o outro”. Em todos esses casos, não é o fato que aprisiona — é a narrativa construída a partir dele.

E há um conforto nisso. Narrativas são previsíveis. Elas organizam o mundo, reduzem a ansiedade do desconhecido. Estar preso à própria história, paradoxalmente, pode parecer mais seguro do que admitir que tudo ainda está em aberto. Afinal, reescrever a narrativa exige responsabilidade — e liberdade demais também assusta.

Mas há um ponto de ruptura. Um instante em que algo não encaixa mais. A narrativa começa a falhar, como um roteiro mal escrito que já não convence nem o próprio autor. E é nesse momento que surge uma pergunta incômoda: e se eu não for isso que venho dizendo que sou?

Essa pergunta tem algo de libertador e algo de perigoso. Libertador porque rompe o determinismo psicológico. Perigoso porque dissolve identidades. O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé costuma lembrar que o ser humano tem uma relação complicada com a verdade — preferimos histórias que nos confortam a verdades que nos desestabilizam. E abandonar uma narrativa é, inevitavelmente, perder um tipo de conforto.

Mas talvez viver não seja confirmar histórias — seja experimentá-las. Talvez identidade não seja uma definição, mas um movimento. Um verbo, não um substantivo.

No fundo, estar preso à narrativa é confundir memória com destino. É esquecer que o passado é matéria-prima, não sentença. E que, a qualquer momento — mesmo agora — algo pode acontecer que não cabe na história que você vem contando.

E então surge a possibilidade mais radical de todas:

não a de encontrar quem você é,

mas a de deixar de ser apenas aquilo que você contou até aqui.


domingo, 21 de junho de 2026

Rir de Quê?

Exatamente? — um ensaio sobre o racismo recreativo

Tem um tipo de riso que não é leve. Ele parece leve, soa leve, circula leve — mas carrega um peso antigo. É o riso que acontece quando alguém conta uma “piada” e, logo depois, precisa completar: “é brincadeira”.

No fundo, ninguém está tão seguro de que é só brincadeira assim.

No churrasco de domingo, alguém solta uma frase sobre o cabelo de um conhecido. Risos. No grupo de WhatsApp, um meme associa cor de pele a comportamento. Risos. No ambiente de trabalho, um comentário “espontâneo” sugere que certa pessoa “não tem cara” de ocupar aquele cargo. Risos — ou silêncio, que às vezes pesa mais que o riso.

É aqui que entra o tal do racismo recreativo. Não como um monstro escancarado, mas como uma névoa fina que se espalha sem pedir licença. Ele não precisa gritar; basta repetir. Não precisa convencer; basta circular.

O conceito de racismo recreativo foi desenvolvido pelo jurista brasileiro Adilson Moreira, que chama atenção para esse tipo específico de discriminação que opera por meio do humor e da informalidade. Segundo ele, não se trata de um desvio ocasional ou de “exagero interpretativo”, mas de uma engrenagem social bem funcional: o riso serve como mecanismo de manutenção de hierarquias raciais, tornando o preconceito mais aceitável, mais difuso — e, por isso mesmo, mais difícil de combater.

A grande sacada — e talvez o maior perigo — é que ele se esconde no território mais desarmado que existe: o humor. Porque quando rimos, suspendemos o julgamento. O riso cria uma espécie de trégua moral temporária. É como se disséssemos: “isso não vale como verdade, é só piada”. Mas a pergunta incômoda permanece: se não vale como verdade, por que funciona tão bem?

Talvez porque, no fundo, ela já encontra um terreno preparado.

No cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis. Ninguém acorda de manhã pensando: “vou reproduzir um sistema de desigualdade hoje”. Mas repete-se uma frase aqui, compartilha-se uma imagem ali, e pronto — mais uma camada foi adicionada. Pequena demais para causar escândalo, mas suficiente para manter tudo no lugar.

O curioso é que quem reage costuma ser visto como o problema. “Nossa, mas não pode brincar com nada hoje em dia?” — essa frase é quase um ritual. Ela revela algo importante: o incômodo não é com o preconceito em si, mas com a interrupção do conforto.

E aqui talvez caiba um olhar mais ácido, no estilo de Pondé: a gente gosta de se ver como moralmente decente sem abrir mão dos pequenos prazeres cruéis. Rir do outro, quando socialmente permitido, dá uma sensação de pertencimento. É como se dissesse: “estamos do lado certo — e aquele ali, não”.

O racismo recreativo, então, não é só sobre quem é alvo da piada. É também sobre quem ri junto. Sobre o pacto silencioso que se forma ali: um acordo informal de que certas hierarquias continuam válidas, desde que embaladas em humor.

E talvez o ponto mais desconfortável seja este: ele não depende de más intenções claras. Ele sobrevive muito bem na ambiguidade. No “foi sem querer”, no “nem pensei nisso”, no “é só costume”.

Mas o hábito também educa. E às vezes, deseduca.

No fim, a questão não é proibir o riso — isso seria impossível e até indesejável. A questão é perguntar: de que estamos rindo? E, principalmente, quem paga o preço desse riso?

Porque há risos que aproximam, e há risos que organizam distâncias.

E esses últimos, mesmo quando parecem pequenos, têm uma longa história por trás.

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Sentido em Tudo

O direito de não entender

A gente tem uma mania curiosa: aconteceu alguma coisa, e já queremos saber o porquê. Como se a vida fosse uma narrativa bem escrita, com começo, meio e fim — e, de preferência, uma moral no final.

Perdeu o ônibus? “Era pra ser.” Terminou um relacionamento? “Tinha um aprendizado aí.” Algo dá errado? “O universo quis assim.” A gente não apenas vive — a gente interpreta. O tempo todo.

Mas e se isso for um excesso?

E se nem tudo tiver sentido — não por falha nossa, mas porque a vida, em si, não funciona como um sistema lógico?

É aqui que o incômodo começa. Porque admitir isso não é elegante. Não tem frase de efeito, não tem conforto imediato. Há um certo vazio nessa ideia — e talvez seja justamente por isso que a evitamos.

Albert Camus chamava isso de absurdo: o desencontro entre a nossa necessidade de sentido e o silêncio do mundo. A vida não responde. E o problema é que a gente insiste em fazer perguntas.

Mas talvez a coisa fique ainda mais desconfortável se dermos um passo além, como sugere Luiz Felipe Pondé: e se essa obsessão por sentido não for uma busca nobre, mas uma forma de autoengano?

Talvez a gente não queira sentido. Talvez a gente queira anestesia.

Criamos narrativas bonitas — “tudo acontece por um motivo”, “isso vai me fazer crescer”, “era destino” — não necessariamente porque acreditamos nelas, mas porque elas aliviam o peso de viver num mundo que não se explica. É uma espécie de maquiagem existencial.

E aqui mora uma armadilha sutil: até o discurso de aceitar o caos pode virar mais uma narrativa confortável. Dizer “a vida não faz sentido” pode ser só mais um jeito sofisticado de dar sentido à falta de sentido.

No fundo, a gente continua tentando organizar o caos — só que agora com palavras mais profundas.

Enquanto isso, a vida acontece de um jeito muito mais simples e muito mais estranho.

Um café tomado sem pressa, sem reflexão nenhuma, só o gesto. Um dia que não ensina nada. Uma conversa que não leva a lugar algum. Um erro que não se transforma em lição. Há algo quase proibido nisso: viver sem traduzir imediatamente.

Clarice Lispector parecia entender esse ponto como poucos. Em vez de explicar, ela rondava o mistério. Seus textos não entregam sentido — eles desmancham a expectativa de que o sentido esteja ali, pronto.

E talvez seja esse o ponto mais difícil de aceitar: há experiências que não precisam ser compreendidas para serem legítimas.

Nem tudo é mensagem. Nem tudo é sinal. Nem tudo é parte de um plano.

Às vezes, é só o que é.

E isso não diminui a vida — isso a torna mais crua, mais direta, até mais honesta. Porque, ao abrir mão da necessidade de sentido constante, a gente também abre mão de um certo controle ilusório.

A vida deixa de ser um enigma a ser resolvido e passa a ser algo que simplesmente se atravessa.

E atravessar exige menos explicação e mais presença.

Talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar sentido em tudo, mas suportar que algumas coisas nunca terão nenhum — e ainda assim continuar vivendo sem transformar isso numa crise permanente.

No fim, o direito de não entender pode ser uma das formas mais radicais de liberdade.


quinta-feira, 10 de julho de 2025

Qualia

O que é sentir vermelho?

Você já tentou explicar a alguém o que é “vermelho”? Não o nome da cor, nem o comprimento de onda da luz, mas o que é ver vermelho. O que é essa sensação que acontece entre o olhar e o entendimento? A dificuldade em explicar isso revela algo curioso: há experiências que só podem ser sentidas, não traduzidas. Os filósofos deram a isso um nome estranho, mas elegante: qualia.

Os qualia são as tintas invisíveis que coloram nossa consciência. Quando você toma um café amargo e quente, o sabor é mais do que química na língua. É uma sensação sua, que só você sabe como é. Quando escuta a risada de um filho, o que brota dentro de você não é apenas um som identificado pelo cérebro, mas algo que vibra por dentro, com um tom que só você reconhece. E quando sente dor, medo ou alegria, há uma qualidade que escapa a qualquer análise de sangue, a qualquer exame de imagem. Ela não é mensurável. É vivida.

Link do youtube de músicas agradáveis para ouvir enquanto lê:

https://www.youtube.com/watch?v=cIZp868Eeic&list=RDcIZp868Eeic&start_radio=1

Prosseguindo. Isso cria situações engraçadas: você pode saber que alguém está vendo a mesma flor que você, mas nunca saberá se ela está vendo a mesma cor. Pode até discordar. “Isso é rosa-choque.” “Não, é fúcsia!” Mas a discussão é só sobre nomes. A verdadeira dúvida é: será que o que você sente como rosa é o que eu sinto como rosa?

No cotidiano, os qualia aparecem nos momentos mais comuns — e mais misteriosos. Um gosto que traz saudade de infância. Um cheiro que evoca uma pessoa. O som de uma música que parece tocar um lugar exato dentro de você. Nenhuma inteligência artificial, por mais avançada, sente isso. Ela pode dizer “isto é jazz melancólico”, mas nunca vai sentir a melancolia.

O mais espantoso é que todos nós vivemos cercados de qualia, mas raramente nos damos conta. É como respirar: só notamos quando falta. E, às vezes, nos afastamos tanto de nós mesmos que deixamos de escutar esse mundo sensível que pulsa por dentro. Sentimos menos, ou sentimos no automático. Quando isso acontece, a vida vira apenas sequência de tarefas. Tudo continua funcionando… mas perde a cor.

O filósofo Thomas Nagel provocou o mundo com uma pergunta simples: “Como é ser um morcego?”. Não para entender o animal, mas para lembrar que há uma diferença entre saber tudo sobre uma coisa e sentir a coisa. A ciência explica muita coisa. Mas os qualia são um lembrete de que o mundo vivido não cabe todo em fórmulas. Como diz o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé:

      “A experiência não é o fato em si, mas o modo como ele nos atravessa.”

No fim das contas, os qualia são como janelas para dentro: ninguém vê o que você sente, mas é isso que te faz ser quem você é.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Mágoas da Criação

Lembro quando estávamos almoçando num dia normal do trabalho quando minha amiga desabafou:

 

— Sabe, às vezes acho que minha mãe não me amava. Quer dizer, ela cuidava de mim, me educou, mas nunca houve carinho, nunca um abraço espontâneo, uma palavra de afeto. Só exigência, cobrança. Hoje, adulta, me pego sem saber como demonstrar afeto, como se isso fosse uma língua estrangeira.

 

Fiquei em silêncio por um instante, lembrei que ela não foi a primeira pessoa a desabafar sobre esta mesma mágoa. Esse tipo de confissão não pede respostas prontas. O que dizer? Que ela deveria superar? Que sua mãe fez o melhor que podia? Que o amor pode estar presente mesmo sem demonstração? Tudo isso pode ser verdade, mas nenhuma dessas frases apaga a ferida de uma infância sem afeto.

 

O Peso da Ausência

A filosofia há tempos se debruça sobre a influência da criação na formação do indivíduo. Freud já apontava que as relações primárias moldam nosso inconsciente de maneiras profundas. Simone de Beauvoir, por outro lado, questionava a construção social do papel materno e como certas mulheres viam a maternidade mais como um dever do que como uma experiência afetiva.

 

O problema é que, para a criança, o afeto é a primeira forma de reconhecimento. Sem ele, o mundo pode parecer hostil, frio, mecânico. A criança aprende a se proteger, mas, ao fazer isso, constrói muros internos que podem durar uma vida inteira. Crescer sob um olhar que apenas julga, mas não acolhe, forma um adulto que pode passar anos tentando provar seu valor—às vezes, sem saber exatamente para quem.

 

O Ciclo da Carência

É curioso como esse tipo de criação dura pode gerar duas respostas opostas. Alguns replicam o mesmo padrão, tornando-se pais rígidos e distantes, pois foi assim que aprenderam a amar. Outros, ao contrário, se tornam exageradamente afetuosos, como se quisessem compensar o que não tiveram. E há aqueles que ficam no meio do caminho, sempre inseguros sobre como se conectar emocionalmente.

 

O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé fala sobre como as relações humanas são marcadas pela falta. Ele sugere que o amor materno é muitas vezes idealizado, mas, na realidade, está cheio de falhas, limitações e até ressentimentos. Isso significa que, talvez, nossa sociedade precise aceitar que nem toda mãe consegue amar da forma esperada, seja por suas próprias dores, por sua história, ou simplesmente por ser humana demais.

 

O Que Fazer com Essa Mágoa?

Minha amiga perguntou, depois de um tempo:

 

— E agora? Como eu curo isso?

 

Acho que ninguém tem uma resposta definitiva. Algumas pessoas buscam terapia, outras tentam encontrar figuras maternas substitutas, e há quem aprenda a se dar o carinho que nunca recebeu. O importante talvez seja reconhecer que a falta de afeto não define o nosso valor.

 

No fim, olhar para trás sem rancor pode ser o maior ato de liberdade. E, quem sabe, aprender a demonstrar afeto, ainda que aos poucos, seja a maior revolução para quem cresceu sem ele.