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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Contemplação Catártica

Reflexões sobre ver, reconhecer e se libertar

Em meio ao barulho cotidiano, há um gesto antigo e revolucionário: contemplar. Mas nem toda contemplação é passiva. Existe uma forma de olhar que purifica, que destrava o que está entalado no peito — chamemo-la de contemplação catártica. É quando ver se torna uma experiência de libertação.

Diferente da mera observação estética ou da apreciação descomprometida do belo, a contemplação catártica é intensa, quase incômoda. Não se limita a quadros, paisagens ou sinfonias. Pode acontecer diante do rosto de alguém adormecido, de uma casa em ruínas ou de um silêncio que pesa. Nesse olhar, algo se move dentro de nós. E o que antes era represado se dissolve.

Aristóteles, na Poética, descreve a catarse como o processo pelo qual o espectador da tragédia se liberta das paixões por meio do medo e da piedade. Mas podemos ir além do palco. Em nossa vida ordinária, também assistimos a dramas reais. E há momentos em que ver — verdadeiramente ver — nos limpa por dentro. A contemplação catártica ocorre quando reconhecemos a dor do outro, a finitude das coisas, ou até mesmo nossa insignificância diante do tempo, e isso nos transforma. Sentimos tristeza, mas não ficamos presos nela; sentimos espanto, mas não fugimos. Saímos modificados.

Nas relações humanas, a contemplação catártica se manifesta no momento raro em que olhamos alguém sem o filtro do julgamento, do interesse ou da distração. É o instante em que enxergamos o outro como um ser ferido, complexo e igualmente vulnerável. Às vezes, basta ver um amigo chorar em silêncio ou notar a hesitação na fala de um parente para que algo em nós ceda. Contemplar, nesse caso, é acolher a presença do outro sem tentar consertá-lo, é permitir-se ser tocado pela verdade alheia. E isso nos liberta de papéis, máscaras e defesas, criando um espaço de conexão onde, por um segundo, somos profundamente humanos juntos.

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, em A Salvação do Belo, aponta que na sociedade atual a estética foi domesticada e anestesiada. O belo perdeu sua capacidade de ferir, de comover, de exigir algo de nós. A contemplação virou consumo rápido. No entanto, Han também sugere que o verdadeiro belo ainda pode nos desestabilizar. A contemplação catártica resgata esse poder: ver algo com tal profundidade que nos obriga a sair de nós mesmos — e, assim, nos reencontrar.

Não se trata de procurar grandes espetáculos. A catarse pode nascer ao assistir a queda de uma folha, ao ouvir alguém contar sua história sem interromper. Trata-se de sustentar o olhar, deixar-se afetar, deixar cair as defesas. Nesse sentido, contemplar é um ato de coragem e de abertura ao que excede o eu.

Em tempos de aceleração e distração, a contemplação catártica é uma forma de resistência. É quando não nos contentamos com o que salta aos olhos, mas permitimos que o mundo nos toque de maneira profunda — e, por isso mesmo, nos purifique. Ela não nos salva do sofrimento, mas nos devolve à inteireza de quem sente, compreende e atravessa.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Pensamento Livre

Reflexões sobre a educação nos dias atuais

Estou passando por aqui para refletirmos, de antemão digo que não se trata de dar razão para um ou para outro. Lembro que nos últimos meses, o Brasil tem assistido a episódios que reacendem um debate fundamental sobre o papel da educação. Estas são noticias que chegaram a nossos ouvidos através da mídia.

Em Santa Catarina, obras clássicas como Laranja Mecânica e It: A Coisa, dentre outra dezena foram removidas das escolas públicas, numa ação de governo que muitos apontam como censura literária.

Site consultado 04/08/2025: (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/sem-justificar-governo-de-sc-retira-9-livros-das-escolas-publicas/)

Em Minas Gerais, denúncias surgiram de tentativas do poder público de impedir manifestações estudantis e professorais, sob o argumento de “preservar a imagem da escola”. Enquanto isso, uma nova lei federal proibiu o uso de celulares nas salas e corredores escolares.

Site consultado 04/08/2025: (https://www.brasildefato.com.br/2025/05/13/ato-em-bh-denuncia-aumento-da-violencia-nas-escolas-e-tentativa-de-censura-do-governo-zema/)

E o Supremo Tribunal Federal decidiu responsabilizar plataformas digitais pela circulação de discursos de ódio — medida vista por uns como necessária, por outros como potencialmente limitadora da liberdade de expressão. Em comum, todos esses casos apontam para um cenário em que o controle sobre o saber, a fala e o pensamento volta a rondar o espaço educativo.

Sites Consultados em 04/08/2025:

(https://www.oabsp.org.br/jornaldaadvocacia/24-11-29-1603-marco-civil-da-internet-responsabilizar-as-plataformas-por-conteudos-de-terceiros-pode-instituir-a-censura-privada-no-pais)

(https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/presidente-do-stf-explica-decisao-sobre-plataformas-digitais-exemplar-para-o-mundo/)

Nesse contexto, nossas reflexões nos leva a pensar, a educação se encontra num dilema profundo: formar sujeitos obedientes ou formar sujeitos pensantes. As paredes da escola, antes vistas como abrigo do saber, hoje muitas vezes parecem muros que protegem um modelo de ensino voltado à repetição e à obediência. Mas é possível educar sem sufocar o pensamento livre?

O filósofo Immanuel Kant já dizia que a maioridade do ser humano se dá quando ele é capaz de pensar por si mesmo. Isso exige coragem. Mas quem educa, muitas vezes, prefere o conforto de uma disciplina silenciosa à inquietação das perguntas. Afinal, um aluno crítico desafia, pergunta, cria — e, ao fazer isso, coloca em risco as certezas de quem ensina.

Paulo Freire, educador brasileiro, denunciava a chamada “educação bancária”, aquela em que o professor deposita conteúdo no aluno, como se este fosse um cofre vazio. Para Freire, a educação deve ser um ato de libertação, onde o aluno é sujeito do próprio aprendizado, e não objeto da vontade do sistema.

Na lógica atual, no entanto, educa-se muitas vezes para a conformidade: seguir regras, entregar tarefas, obter notas, competir. Pensar virou obstáculo, e não meta. Não é raro encontrar jovens inteligentes que têm medo de errar, medo de se expressar, medo de não se encaixar. A educação que forma para o mercado também forma para o silêncio.

Michel Foucault já alertava: onde há educação, há também um jogo de poder. A escola não é neutra. Ela organiza os corpos, os horários, os comportamentos. Mas poderia organizar também a escuta, o debate, a dúvida. Uma escola que ensina a duvidar pode parecer perigosa — e de fato é. Perigosa para os que lucram com a ignorância.

O que dizer: Aos professores, esse momento exige mais do que conteúdo: exige postura ética e escuta ativa. O desafio não está apenas em cumprir currículo, mas em criar espaço para a autonomia dos alunos. Ser educador hoje é um ato político, mesmo sem bandeira: é decidir se se quer manter o mundo como está ou formar quem possa reinventá-lo.

O que dizer: Aos alunos, pensar por si mesmos é o primeiro gesto de liberdade. É possível — e necessário — errar, discordar, perguntar. Não é falta de inteligência mudar de ideia: é sinal de que a mente está viva. O pensamento livre começa quando você deixa de repetir e começa a compreender.

O que dizer: Aos pais, a escola não deve ser apenas um meio de ascensão social, mas um ambiente de formação humana. Cobrar notas é justo, mas é ainda mais importante perguntar: "O que você pensa sobre isso?" Quando o lar valoriza o pensamento, a escola encontra terreno fértil para florescer.

O que dizer: Aos gestores, a liberdade de pensamento precisa estar na base dos projetos pedagógicos. Isso não se resolve com slogans, mas com práticas cotidianas que respeitem a diversidade, que acolham a escuta e que permitam que o saber não seja um produto, mas uma experiência. Uma escola crítica é aquela que ousa refletir sobre si mesma.

Pensar por si mesmo não é fácil. Mas é o que dá dignidade ao ser humano. Uma educação verdadeiramente libertadora não prepara apenas para o vestibular ou para o emprego: prepara para a vida comum, para o encontro com o outro, para o exercício da liberdade. E liberdade, como já sabiam os antigos gregos, é o fundamento da polis — a cidade de todos.

Educar para o pensamento livre é, portanto, uma urgência. Porque conformar é mais rápido, mais barato e mais útil. Mas pensar é mais humano. E o humano é o que a escola não pode esquecer de formar. Somos todos responsáveis de um jeito ou de outro, nós nos encaixamos em algum papel, ou seja, não somos apenas expectadores, somos atores deste grande teatro trágico, cômico, drama, tragicomédia, farsa, melodrama, teatro do absurdo e auto chamado Planeta Terra.

sábado, 10 de agosto de 2024

Competição Silenciosa

A competição é muitas vezes vista como um campo de batalha ruidoso, cheio de conflitos visíveis e declarações de vitória ou derrota. No entanto, há uma forma mais sutil de competição que permeia nossas vidas diárias - a competição silenciosa. Esta não é uma guerra travada com armas ou palavras afiadas, mas com olhares, pequenos gestos e decisões aparentemente insignificantes.

Imagine um dia típico no escritório. João chega cedo, cumprimenta todos com um sorriso e começa a trabalhar. Maria, que chega alguns minutos depois, repara no entusiasmo de João e, sem dizer uma palavra, sente a necessidade de igualar ou superar seu desempenho. Não há discussão ou confronto direto, mas uma competição silenciosa se instala.

No supermercado, Ana observa o carrinho de compras de outra pessoa e, inconscientemente, compara suas escolhas. Ela pega uma marca mais cara de café, não porque prefere, mas porque quer se sentir à altura do que imagina ser o padrão do outro. Novamente, sem uma palavra trocada, uma competição silenciosa está em andamento.

Esta competição pode ser encontrada em quase todos os aspectos da vida. Nas redes sociais, a comparação de likes e seguidores cria uma pressão interna para se destacar, mesmo que isso signifique apenas postar uma foto um pouco mais elaborada. Nas relações pessoais, pequenas atitudes podem ser motivadas pela necessidade de se afirmar, de mostrar que se é melhor de alguma forma, mesmo que ninguém esteja explicitamente avaliando.

Comentário de um Filósofo:

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard oferece uma perspectiva interessante sobre essa competição silenciosa. Ele acreditava que a inveja era uma força poderosa e destrutiva na sociedade, algo que muitas vezes nos leva a medir nosso valor em comparação com os outros. Para Kierkegaard, a verdadeira liberdade e autenticidade vêm de se libertar dessas comparações constantes e viver de acordo com nossos próprios valores e objetivos.

Ele diria que a competição silenciosa é uma manifestação da nossa insegurança interna, uma busca incessante por validação externa. A chave para superar isso, segundo ele, é encontrar satisfação em quem somos e no que fazemos, independentemente do que os outros pensem ou façam.

Reflexão Final:

A competição silenciosa pode parecer inofensiva, mas pode corroer nossa autoestima e nos desviar de nossos verdadeiros objetivos. Reconhecer sua presença é o primeiro passo para se libertar de suas garras. Ao invés de competir em silêncio, talvez devêssemos focar em colaborar em silêncio - ajudando, apoiando e celebrando as conquistas uns dos outros sem a necessidade de comparação. Então, quando você sentir aquela pontada de competição silenciosa, pergunte-se: estou buscando ser melhor para mim mesmo ou apenas tentando ser melhor do que os outros? A resposta pode ser reveladora e libertadora.