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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Autoritarismo Intuitivo


Às vezes eu me pego observando pessoas — e me observando — tomando decisões como quem pisa no acelerador sem olhar o retrovisor. Não há dados, não há reflexão, não há debate interno. Apenas uma certeza súbita, quase orgulhosa: “é assim porque eu senti que é assim.” É curioso como, mesmo em tempos que se dizem hiper-racionais, o gesto mais autoritário se esconde atrás de uma convicção instantânea. Não é uma ordem gritante; é uma sensação que se impõe. E aí nasce o que chamo de autoritarismo intuitivo.

O que é o autoritarismo intuitivo?

O autoritarismo intuitivo é aquela tendência humana de impor um ponto de vista — ou um comportamento — não com base em argumentos, mas com base em uma impressão subjetiva que ganha status de lei. É uma convicção que não foi pensada, mas que se porta como se fosse óbvia, natural, indiscutível.

Ele nasce no atalho mental mais rápido e confortável: “se eu sinto assim, é verdade.”
E se é verdade, eu me autorizo a agir como legislador supremo do instante.

Não é necessário um Estado policialesco para que o autoritarismo exista. Ele brota no cotidiano, numa conversa familiar, numa reunião de trabalho, num grupo de amigos. E ele acontece sem consciência — às vezes com doçura, às vezes com violência —, mas sempre com a mesma raiz: a intuição absolutizada.

A psicologia do atalho: o império da sensação

Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, explica que grande parte das nossas decisões nasce do que ele chama de “Sistema 1”: rápido, impulsivo, cheio de vieses. Esse sistema, por definição, acha que sabe o que está fazendo mesmo quando não sabe.
O autoritarismo intuitivo é como se o Sistema 1 vestisse uma farda.

E isso aparece nos pequenos casos:

  • Quando alguém diz “não gostei dessa pessoa, tem algo errado nela” e pronto — o veredito está dado.
  • Quando no trabalho alguém decide “vamos fazer desse jeito porque sinto que é o certo”, ignorando dados e opiniões.
  • Ou quando alguém afirma “esse assunto está encerrado” sem jamais tê-lo aberto de verdade.

O problema não é usar a intuição — ela é parte preciosa da vida humana.
O problema é transformá-la em constituição interna, em dogma automático.

A filosofia: o retorno do mito da certeza

Do ponto de vista filosófico, esse fenômeno lembra o que Nietzsche chamava de vontade de verdade: a tendência humana de transformar seus impulsos em certezas. Só que aqui não se trata apenas de buscar uma verdade — mas de impor uma verdade sentida, não refletida.

E há também ecos de Hannah Arendt, que via no totalitarismo a transformação do “óbvio” em norma incontestável. No autoritarismo intuitivo, o “óbvio” não nasce de uma ideologia estruturada, mas de um afeto pessoal. Ainda assim, carrega o mesmo perigo: dispensa o pensamento crítico.

No Brasil, Marilena Chaui já alertava para a força das crenças naturalizadas — aquilo que se aceita sem investigar. O autoritarismo intuitivo é justamente essa naturalização acelerada: a crença toma a forma de lei antes mesmo de se tornar ideia.

A face cotidiana do comando silencioso

O autoritarismo intuitivo não grita. Ele não precisa.

Ele age com a sutileza de quem declara o fim da conversa apenas pelo peso da própria convicção.

Ele aparece quando:

  • pais dizem “não pergunte, apenas faça”, sem refletir sobre a regra;
  • chefes usam frases como “porque eu quero assim”;
  • grupos rejeitam alguém por uma “sensação ruim” que ninguém consegue explicar;
  • pessoas rejeitam argumentos porque “não bateu”.

É o poder exercido sem justificativa, sustentado apenas por uma sensação legitimada.

O remédio: o pequeno intervalo de consciência

Combater o autoritarismo intuitivo não é abandonar a intuição — isso seria desumano.
O ponto é adicionar um micro-instante filosófico entre sentir e decretar.

Um intervalo minúsculo onde eu me pergunto:

  • Por que senti isso?
  • Isso é argumento ou só impulso?
  • Posso estar confundindo sensação com verdade?
  • O outro merece participar da decisão?

Esse intervalo é a distância entre o instinto e a imposição.

É onde nasce a ética.

A coragem de desacelerar certezas

O autoritarismo intuitivo prospera na velocidade, no automatismo, no “eu sou assim”.
Ele é confortável porque dispensa explicação; é sedutor porque nos dá a ilusão de poder; é perigoso porque transforma impulsos em decretos.

Pensar — mesmo que por um segundo — é o antídoto.

Penso que talvez a verdadeira liberdade não esteja em seguir a primeira sensação, mas em não ser escravo dela. E talvez a verdadeira maturidade seja aprender que toda certeza que nasce instantânea merece, no mínimo, uma conversa interna antes de se transformar em ordem.

No fim, filosofar é basicamente isso:

desconfiar da própria intuição antes de exigir que o mundo a obedeça.