Às
vezes eu me pego observando pessoas — e me observando — tomando decisões como
quem pisa no acelerador sem olhar o retrovisor. Não há dados, não há reflexão,
não há debate interno. Apenas uma certeza súbita, quase orgulhosa: “é assim
porque eu senti que é assim.” É curioso como, mesmo em tempos que se dizem
hiper-racionais, o gesto mais autoritário se esconde atrás de uma convicção
instantânea. Não é uma ordem gritante; é uma sensação que se impõe. E aí nasce
o que chamo de autoritarismo intuitivo.
O
que é o autoritarismo intuitivo?
O
autoritarismo intuitivo é aquela tendência humana de impor um ponto de vista —
ou um comportamento — não com base em argumentos, mas com base em uma impressão
subjetiva que ganha status de lei. É uma convicção que não foi pensada, mas que
se porta como se fosse óbvia, natural, indiscutível.
Ele
nasce no atalho mental mais rápido e confortável: “se eu sinto assim, é
verdade.”
E se é verdade, eu me autorizo a agir como legislador supremo do instante.
Não
é necessário um Estado policialesco para que o autoritarismo exista. Ele brota
no cotidiano, numa conversa familiar, numa reunião de trabalho, num grupo de
amigos. E ele acontece sem consciência — às vezes com doçura, às vezes com
violência —, mas sempre com a mesma raiz: a intuição absolutizada.
A
psicologia do atalho: o império da sensação
Daniel
Kahneman, em Rápido e Devagar, explica que grande parte das nossas
decisões nasce do que ele chama de “Sistema 1”: rápido, impulsivo, cheio de
vieses. Esse sistema, por definição, acha que sabe o que está fazendo mesmo
quando não sabe.
O autoritarismo intuitivo é como se o Sistema 1 vestisse uma farda.
E
isso aparece nos pequenos casos:
- Quando alguém diz “não gostei dessa
pessoa, tem algo errado nela” e pronto — o veredito está dado.
- Quando no trabalho alguém decide
“vamos fazer desse jeito porque sinto que é o certo”, ignorando dados e
opiniões.
- Ou quando alguém afirma “esse assunto
está encerrado” sem jamais tê-lo aberto de verdade.
O
problema não é usar a intuição — ela é parte preciosa da vida humana.
O problema é transformá-la em constituição interna, em dogma automático.
A
filosofia: o retorno do mito da certeza
Do
ponto de vista filosófico, esse fenômeno lembra o que Nietzsche chamava de vontade
de verdade: a tendência humana de transformar seus impulsos em certezas. Só
que aqui não se trata apenas de buscar uma verdade — mas de impor uma
verdade sentida, não refletida.
E
há também ecos de Hannah Arendt, que via no totalitarismo a transformação do
“óbvio” em norma incontestável. No autoritarismo intuitivo, o “óbvio” não nasce
de uma ideologia estruturada, mas de um afeto pessoal. Ainda assim, carrega o
mesmo perigo: dispensa o pensamento crítico.
No
Brasil, Marilena Chaui já alertava para a força das crenças
naturalizadas — aquilo que se aceita sem investigar. O autoritarismo intuitivo
é justamente essa naturalização acelerada: a crença toma a forma de lei antes
mesmo de se tornar ideia.
A
face cotidiana do comando silencioso
O
autoritarismo intuitivo não grita. Ele não precisa.
Ele
age com a sutileza de quem declara o fim da conversa apenas pelo peso da
própria convicção.
Ele
aparece quando:
- pais dizem “não pergunte, apenas
faça”, sem refletir sobre a regra;
- chefes usam frases como “porque eu
quero assim”;
- grupos rejeitam alguém por uma
“sensação ruim” que ninguém consegue explicar;
- pessoas rejeitam argumentos porque
“não bateu”.
É
o poder exercido sem justificativa, sustentado apenas por uma sensação
legitimada.
O
remédio: o pequeno intervalo de consciência
Combater
o autoritarismo intuitivo não é abandonar a intuição — isso seria desumano.
O ponto é adicionar um micro-instante filosófico entre sentir e decretar.
Um
intervalo minúsculo onde eu me pergunto:
- Por que senti isso?
- Isso é argumento ou só impulso?
- Posso estar confundindo sensação com
verdade?
- O outro merece participar da decisão?
Esse
intervalo é a distância entre o instinto e a imposição.
É
onde nasce a ética.
A
coragem de desacelerar certezas
O
autoritarismo intuitivo prospera na velocidade, no automatismo, no “eu sou
assim”.
Ele é confortável porque dispensa explicação; é sedutor porque nos dá a ilusão
de poder; é perigoso porque transforma impulsos em decretos.
Pensar
— mesmo que por um segundo — é o antídoto.
Penso
que talvez a verdadeira liberdade não esteja em seguir a primeira sensação, mas
em não ser escravo dela. E talvez a verdadeira maturidade seja aprender que
toda certeza que nasce instantânea merece, no mínimo, uma conversa interna
antes de se transformar em ordem.
No
fim, filosofar é basicamente isso:
desconfiar
da própria intuição antes de exigir que o mundo a obedeça.







