Outro dia me peguei pensando que, em muitas histórias que vemos por aí — no noticiário, nas redes, nas brigas de família ou até no trabalho — o problema já não é só quem fez, mas quem parece ter feito. O perpetrador virou uma figura estranha: às vezes real demais, às vezes completamente encenada. Em certos casos, ninguém sabe mais onde termina a ação e começa a representação.
Vivemos
um tempo curioso: o mal já não precisa acontecer de fato para produzir seus
efeitos. Basta que ele seja simulado. E é aí que surge essa figura
inquietante: o simulacro do perpetrador. Não o autor do ato, mas a
imagem funcional de alguém que ocupa o lugar da culpa, da agressão, da
transgressão — mesmo quando o ato é difuso, coletivo ou até inexistente.
Baudrillard
entra em cena
Jean
Baudrillard é praticamente inevitável aqui. Quando
ele fala de simulacro, não está falando de uma simples cópia falsa de
algo verdadeiro. O simulacro é mais radical: é aquilo que não remete mais a
nenhum original, mas que funciona como se fosse real.
Aplicando
isso ao perpetrador, chegamos a uma ideia desconfortável:
em muitos contextos contemporâneos, o perpetrador não é mais alguém que cometeu
um ato, mas alguém que encarna uma narrativa de culpa.
Baudrillard
diria que, no regime da hiper-realidade, a sociedade precisa de figuras claras
para organizar seus medos. O perpetrador vira um signo. Um personagem
necessário para que o sistema continue operando com a ilusão de justiça, ordem
e controle.
Não
importa tanto o que aconteceu. Importa quem pode ser apontado.
René
Girard e o eco do bode expiatório
Aqui
vale puxar René Girard para a conversa. O simulacro do perpetrador é, muitas
vezes, uma atualização moderna do bode expiatório. A diferença é que,
agora, o sacrifício não acontece na praça, mas no feed.
Girard
falava do mecanismo pelo qual uma comunidade transfere suas tensões internas
para uma vítima simbólica. No mundo atual, essa vítima pode ser:
- o funcionário “problemático” que
concentra falhas estruturais da empresa
- o aluno rotulado como “difícil” numa
escola que não sabe lidar com diferenças
- o personagem público cancelado por
representar tudo aquilo que a coletividade não quer admitir em si mesma
O
simulacro do perpetrador não precisa ser inocente — mas também não precisa ser
culpado. Ele só precisa ser funcional.
Situações
do cotidiano: onde isso aparece sem avisar
No
trabalho
Quando
um projeto dá errado, quase sempre surge “o responsável”. Não o sistema mal
planejado, não a comunicação truncada, não a pressão absurda — mas uma pessoa.
Ela vira o simulacro do erro. Mesmo que sua falha seja mínima, ela passa a
representar todo o fracasso.
Na
família
Toda
família tem, ou já teve, “aquele” parente. O difícil, o problemático, o que
estraga o clima. Muitas vezes ele carrega conflitos que são coletivos, mas que
ninguém quer elaborar. Ele não é só alguém que erra — ele vira a imagem do
erro, a ovelha negra da família.
Nas
redes sociais
Aqui
o simulacro do perpetrador atinge seu auge. Um tweet mal formulado, um vídeo
fora de contexto, uma frase deslocada no tempo. A pessoa vira um símbolo do que
“não pode ser dito”, mesmo que milhões pensem algo parecido em silêncio. O ato
vira secundário. O espetáculo da punição é o que importa.
Um
deslocamento inquietante
O
mais perturbador é que, nesse processo, o verdadeiro perpetrador — quando
existe — desaparece. Sistemas, estruturas, incentivos perversos, dinâmicas
econômicas ou culturais ficam intactos. O simulacro absorve tudo.
Como
diria Baudrillard, a simulação não esconde a verdade. Ela esconde que não há
mais uma verdade simples para ser revelada.
Fechamento:
um espelho desconfortável
Pensar
no simulacro do perpetrador não é relativizar a culpa nem absolver violências
reais. É perceber que, muitas vezes, estamos mais interessados em administrar
símbolos do que em compreender causas.
Talvez
a pergunta incômoda seja esta:
quantas
vezes apontamos um perpetrador não porque ele explica o problema, mas porque
ele nos poupa de olhar para algo mais profundo?
No
fim das contas, o simulacro do perpetrador é um espelho. Ele não mostra apenas
o rosto de quem acusamos, mas o formato das nossas próprias fugas.