Uma leitura inspirada em Kripke
Em
muitos momentos da vida usamos as palavras “necessário” e “essencial”
como se fossem a mesma coisa. Dizemos, por exemplo, que é “necessário” mudar de
cidade, trocar de profissão, ou que alguém “é essencialmente” uma coisa ou
outra. No cotidiano, essas expressões se misturam. Mas na filosofia elas podem
significar coisas bem diferentes.
O
filósofo Saul Kripke fez uma distinção famosa que muda completamente a
forma de pensar essas duas ideias. No livro Naming and Necessity (1972),
ele mostrou que necessidade e essência não são apenas palavras
fortes: elas dizem respeito ao modo como as coisas são em todos os mundos
possíveis, não apenas neste aqui.
Parece
complicado, mas no fundo a ideia aparece em situações bem simples.
Imagine
que você encontra um velho amigo na rua. Ele mudou de cidade, mudou de
profissão, talvez até tenha mudado o estilo de vida. Muitas coisas nele são
diferentes. Mas você ainda diz: “é a mesma pessoa”.
Segundo
Kripke, isso acontece porque certas características são acidentais,
enquanto outras pertencem à essência daquela pessoa.
Seu
amigo poderia ter sido professor em vez de engenheiro. Poderia ter morado em
outra cidade. Poderia até ter escolhido outra carreira completamente. Nada
disso muda quem ele é. Essas são possibilidades contingentes.
Mas
existem coisas que não poderiam ser diferentes. Por exemplo, aquela pessoa não
poderia ser outra pessoa com outro nascimento ou outra identidade. Aquilo
pertence à sua essência.
Kripke
chama isso de necessidade metafísica: certas coisas são verdadeiras não
por costume ou convenção, mas porque não poderiam ser de outro modo.
Um
exemplo famoso que ele usa envolve algo bem cotidiano: a água.
Durante
muito tempo as pessoas não sabiam que a água era formada por H₂O. Mesmo assim,
quando a ciência descobriu isso, percebemos algo curioso: água é
necessariamente H₂O. Não é apenas um fato do nosso mundo; é algo que define
o que água é.
Ou
seja, pode até existir um líquido parecido com água em outro planeta,
transparente, potável e refrescante — mas se não for H₂O, então não é água.
Esse
exemplo parece distante da vida cotidiana, mas ele revela algo importante sobre
como pensamos as coisas.
No
dia a dia confundimos facilmente aquilo que é essencial com aquilo que é
apenas habitual.
Uma
pessoa pode achar que sua identidade depende da profissão. Quando perde o
emprego, sente que perdeu a si mesma. Outra pode acreditar que seu valor
depende da aprovação social. Se não recebe reconhecimento, sente que algo
essencial desapareceu.
Mas,
olhando pela lente de Kripke, muitas dessas coisas são apenas propriedades
contingentes. Elas poderiam ser diferentes sem que a essência da pessoa
mudasse.
O
que é realmente essencial costuma ser mais profundo e mais difícil de perceber.
Talvez
seja por isso que certas mudanças radicais — mudar de cidade, de carreira ou de
estilo de vida — não transformam quem somos tanto quanto imaginamos. Elas
alteram as circunstâncias, não a essência.
Kripke
nos convida, sem dizer diretamente, a fazer uma pergunta curiosa sobre nós
mesmos:
se
todas as circunstâncias externas fossem diferentes, o que ainda seria
necessariamente “eu”?
Essa
pergunta não tem resposta rápida. Mas talvez seja justamente nela que começa a
diferença entre viver apenas respondendo às necessidades do momento… e começar
a investigar aquilo que realmente pertence à nossa essência.
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