Há
dias em que a sociedade parece perfeitamente funcional. As pessoas seguem
rotinas, pagam contas, discutem trivialidades, fazem planos. Tudo parece em
ordem — ou, pelo menos, suficientemente organizado para que ninguém questione
demais. Mas foi numa dessas aparências de normalidade que comecei a pensar
naquilo que Zygmunt Bauman chamaria, talvez, de a segunda face da
sociedade: aquela que não se mostra no cotidiano tranquilo, mas que nunca deixa
de existir.
Bauman,
especialmente em sua leitura do Holocausto, desmonta uma ilusão confortável: a
de que barbáries são desvios, acidentes históricos, fruto de loucura coletiva
ou de indivíduos monstruosos. Não. O que ele sugere é mais perturbador — o
Holocausto não foi uma quebra da modernidade, mas uma de suas possibilidades
internas. Não algo fora da sociedade, mas algo que emergiu dela, com suas
ferramentas, sua racionalidade, sua burocracia.
E
isso muda tudo.
Porque
gostamos de pensar que a sociedade tem uma face “boa” e outra “má”, como se
fossem separáveis. Mas Bauman insiste que elas são inseparáveis. A mesma
estrutura que organiza trens com precisão pode organizar deportações. A mesma
lógica administrativa que otimiza processos pode, em outro contexto, otimizar a
morte. A segunda face da sociedade não é o oposto da primeira — é sua
continuação em condições extremas.
Lembrei
disso outro dia numa situação banal: uma fila de atendimento onde ninguém
olhava nos olhos de ninguém. Cada pessoa era apenas mais um número, mais um
problema a ser resolvido rapidamente. Não havia maldade ali, claro. Mas havia
uma espécie de neutralidade fria. E talvez seja justamente nisso que mora o
perigo: quando o outro deixa de ser alguém e passa a ser uma função, um dado,
um obstáculo.
O
Holocausto, nesse sentido, representa o ponto em que essa neutralidade se
radicaliza. Não se tratava apenas de ódio — embora ele existisse — mas de um
sistema inteiro funcionando sem a necessidade de empatia. Pessoas cumprindo
funções, obedecendo ordens, seguindo protocolos. A desumanização não começou
nos campos; começou antes, na forma como se passou a ver certas pessoas como
categorias, como problemas a serem administrados.
É
nesse ponto que entram experiências políticas do século XX como o fascismo e o
comunismo — não como fenômenos idênticos, mas como expressões distintas de uma
mesma tentação moderna: a de organizar a sociedade de forma total, subordinando
o indivíduo a uma ideia maior. No fascismo, essa ideia se manifesta na nação,
na pureza, na ordem imposta pela força; no comunismo histórico, especialmente
em suas versões autoritárias, ela aparece na promessa de igualdade absoluta,
muitas vezes implementada por meio de controle rígido e eliminação de
dissensos. Em ambos os casos, quando levados ao extremo, há um risco comum: o
apagamento da singularidade humana em nome de um projeto coletivo. A segunda
face da sociedade emerge quando o sistema passa a valer mais do que as pessoas
que o compõem.
E
aqui a reflexão se torna incômoda: o quanto disso ainda vive entre nós?
Na
chamada modernidade líquida, as relações são frágeis, rápidas, descartáveis.
Isso cria uma outra forma de desumanização — mais sutil, menos visível, mas
ainda presente. Não eliminamos o outro fisicamente, mas o tornamos irrelevante,
substituível, invisível. É uma violência sem espetáculo, quase silenciosa.
O
sociólogo brasileiro Jessé Souza ajuda a aprofundar esse ponto quando
fala sobre como certas sociedades naturalizam a desigualdade. Para ele, há
grupos inteiros que são tratados como “menos gente”, não por decreto explícito,
mas por práticas cotidianas: o desprezo, a indiferença, a invisibilidade. É
como se a segunda face da sociedade estivesse sempre operando, mas em baixa
intensidade, integrada ao nosso dia a dia.
Talvez
seja por isso que o pensamento de Bauman incomoda tanto. Ele não permite que
coloquemos o mal em um lugar distante, histórico, encerrado. Ele sugere que as
condições que tornaram o Holocausto possível não desapareceram — elas apenas
mudaram de forma.
No
fim, a segunda face da sociedade não é um segredo escondido. Ela está ali, nas
pequenas desatenções, nas relações utilitárias, na facilidade com que
classificamos e descartamos pessoas. O Holocausto, então, não é apenas memória
— é um alerta radical sobre o que pode acontecer quando deixamos de ver o outro
como humano.
E
talvez a pergunta mais difícil não seja “como aquilo foi possível?”, mas “em
que medida ainda é?”. E isto tudo debaixo de nossos olhos e narizes...
Nenhum comentário:
Postar um comentário