Existe
um momento curioso nas relações sociais em que tudo parece real — mas não é. As
conversas fluem, os gestos são educados, as interações se multiplicam… e ainda
assim, algo soa oco. É como viver dentro de um cenário bem montado, onde cada
pessoa desempenha um papel esperado. É aqui que podemos falar de um
“pseudomundo”.
O
termo dialoga bastante com ideias de Jean Baudrillard, que sugeria que,
em certas condições, deixamos de lidar com o real para habitar simulacros —
cópias sem original. No pseudomundo, as relações não são exatamente falsas, mas
são mediadas por expectativas, convenções e pequenas encenações contínuas.
Pense
em situações bem cotidianas. Você encontra alguém e pergunta: “tudo bem?” — mas
a resposta já está previamente combinada. Ou quando alguém compartilha um
problema, mas o outro responde com frases prontas, quase automáticas. Não há
propriamente um encontro ali, apenas um cruzamento de roteiros sociais.
O
pseudomundo cresce justamente nesse espaço entre o que sentimos e o que
mostramos. E isso não acontece só em redes sociais (embora elas intensifiquem
muito o fenômeno), mas também em ambientes de trabalho, reuniões familiares e
até amizades antigas que se mantêm mais por hábito do que por presença real.
O
sociólogo Erving Goffman já falava, de outro modo, que a vida social tem
algo de teatral. Estamos sempre “em cena”, ajustando nossa fala, postura e até
emoções conforme o público. O problema não é o teatro em si — ele é inevitável
— mas quando esquecemos que existe um “bastidor”, um lugar onde podemos
simplesmente ser.
O
pseudomundo começa a dominar quando o bastidor desaparece. Quando já não
sabemos mais como falar sem filtros, quando toda conversa vira performance,
quando até a espontaneidade precisa ser ensaiada.
E
talvez o mais curioso seja que esse mundo não é imposto de fora. Nós o
alimentamos, aos poucos, por conveniência. É mais fácil manter a superfície do
que arriscar a profundidade. É mais seguro repetir gestos conhecidos do que
expor algo verdadeiro — que pode não ser aceito.
Mas
o custo disso aparece de forma silenciosa: uma sensação difusa de desconexão.
Como se estivéssemos cercados de pessoas, mas raramente realmente acompanhados.
O
filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos falava muito sobre a
importância da autenticidade como fundamento do ser. Sem ela, o que resta é uma
espécie de existência derivada — vivida mais em função das formas do que da
essência.
Talvez
sair do pseudomundo não exija grandes rupturas. Às vezes começa com pequenas
quebras de roteiro: uma resposta sincera onde caberia um clichê, um silêncio
verdadeiro no lugar de uma opinião automática, ou até a coragem de não
sustentar uma conversa vazia.
No
fundo, é um movimento sutil: trocar a representação pelo encontro. E isso, por
menor que pareça, já muda completamente a textura das relações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário