As portas invisíveis da vida social
Há
dias em que a gente percebe que a sociedade é feita de portas. Algumas
escancaradas, outras apenas entreabertas — e muitas que parecem não existir até
que alguém tente atravessá-las.
Foi
numa situação banal que pensei nisso. Estava lembrando de uma conversa entre colegas
de aula do curso de Filosofia, foi através de uma provocação feita por nosso
querido professor mestre Attico Chassot, perguntou-nos qual de nossos
pais haviam conseguido ingressar e concluir um curso superior. A maioria dos
colegas contou que era o primeiro da família a entrar na universidade. Lembro
de um colega dizer que o pai era pedreiro, a mãe trabalhava como doméstica.
Enquanto ele falava, havia uma mistura curiosa de orgulho e estranhamento. Não
parecia apenas uma conquista acadêmica. Era quase como se ele tivesse
atravessado uma fronteira invisível.
Ali
estava, sem ninguém usar o termo técnico, um exemplo de permeabilidade
social, então vamos refletir a respeito.
Quando
a sociedade deixa passar
Permeabilidade
social é o nome que os sociólogos dão à capacidade de uma sociedade permitir
que as pessoas mudem de posição social.
Em
algumas sociedades, as fronteiras entre classes são rígidas. Em outras, elas
são mais flexíveis. Não desaparecem, claro — mas permitem passagem.
A
diferença aparece em situações muito comuns.
Um
motorista de aplicativo que antes era metalúrgico.
Uma
filha de agricultores que se torna médica.
Um
jovem da periferia que entra num espaço cultural tradicionalmente elitizado.
Esses
movimentos são pequenos deslocamentos no grande mapa social. Cada um deles abre
um corredor por onde outros talvez passem depois.
O
segredo que ninguém explica
O
problema é que atravessar essas fronteiras raramente depende apenas de esforço.
O
sociólogo Pierre Bourdieu mostrou que as classes sociais não se
distinguem só pelo dinheiro, mas por algo mais sutil: o que ele chamou de capital
cultural.
Isso
inclui:
- o jeito de falar
- as referências culturais
- a forma de argumentar
- até o modo de se comportar em certos
ambientes
Quem
cresce dentro de determinados círculos aprende esses códigos naturalmente. Quem
vem de fora precisa decifrá-los.
É
como entrar numa sala onde todos conhecem a música que está tocando — menos
você.
Os
sinais silenciosos do pertencimento
Esses
códigos aparecem em detalhes aparentemente irrelevantes.
Numa
entrevista de emprego, por exemplo, às vezes o que pesa não é apenas o
currículo, mas a familiaridade com o ambiente.
A
pessoa que cresceu frequentando certos espaços reconhece intuitivamente o tom
da conversa, a postura esperada, as referências implícitas.
Já
quem chega pela primeira vez pode sentir algo difícil de explicar:
uma
sensação de estar ligeiramente deslocado, como um visitante em
território alheio.
A
permeabilidade social, portanto, não depende apenas de oportunidades formais.
Ela depende também de quanto os ambientes aceitam quem vem de fora.
As
pequenas travessias
Apesar
de tudo, a história das sociedades é cheia dessas travessias discretas.
O
sociólogo Anthony Giddens observa que a modernidade ampliou muito as
possibilidades de mobilidade social. Educação, urbanização e novos mercados de
trabalho criaram caminhos que antes simplesmente não existiam.
Mas
esses caminhos não são avenidas largas. Muitas vezes são trilhas estreitas.
Ainda
assim, cada pessoa que consegue atravessar abre um precedente.
Mostra
que aquela passagem — antes improvável — é possível.
A
sociedade como um sistema de portas
Talvez
a melhor imagem para entender a permeabilidade social seja pensar na sociedade
como um prédio cheio de corredores.
Algumas
portas estão abertas.
Outras
exigem senha.
Outras
parecem trancadas — até que alguém descobre que bastava empurrar.
E
o curioso é que, muitas vezes, o primeiro que atravessa não apenas muda de
sala. Ele muda a percepção de todos os outros sobre aquela porta.
De
repente, aquilo que parecia impossível passa a parecer apenas difícil.
No
fundo, a pergunta é outra
Quando
olhamos para uma sociedade, a pergunta sociológica mais interessante talvez não
seja quem está em cada posição, mas o quanto é possível mudar de
posição.
Porque
uma sociedade verdadeiramente viva não é aquela onde todos ocupam o mesmo lugar
— isso nunca aconteceu.
É
aquela onde as paredes não são definitivas.
Onde
alguém, de vez em quando, olha para uma porta aparentemente invisível, gira a
maçaneta… e descobre que ela sempre esteve aberta.
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