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domingo, 23 de novembro de 2025

Identidade e Pertencimento

Outro dia, enquanto esperava minha vez numa fila de padaria — aquela fila onde todo mundo finge que não está reparando em ninguém, mas está — percebi algo curioso: eu me senti “em casa” ali, mesmo num ambiente que pouco frequento. Às vezes basta o cheiro de pão quente ou o modo como alguém comenta “o tempo virou, né?” para acionar uma pequena certeza silenciosa: eu pertenço a algum lugar. Mas logo em seguida veio a dúvida: pertenço ao quê, exatamente? À cidade? À cultura? Ao idioma? À memória dos lugares que habitei? Ou pertenço apenas às minhas próprias narrativas internas?

Foi nessa oscilação — tão cotidiana quanto filosófica — que percebi que identidade e pertencimento são quase como dois irmãos siameses. Um tenta se diferenciar; o outro tenta se integrar. E, curiosamente, nenhum deles vive sem o outro.

 

Identidade: quem sou quando ninguém está olhando?

A identidade não é apenas algo que temos — é algo que fazemos. O filósofo Paul Ricoeur dizia que a identidade é uma história contínua que contamos sobre nós mesmos. Não é fixa, não é imóvel; é um fio narrativo, um entrelaçamento de lembranças, esquecimentos, rupturas e continuidade.

Aristóteles já afirmava que somos aquilo que praticamos repetidamente: nossas ações criam nosso caráter. Mas Ricoeur complementa: nosso caráter não é só hábito, é memória — especialmente memória seletiva, porque ninguém lembra de tudo, e o que escolhemos lembrar já diz muito sobre quem somos.

Assim, a identidade emerge nesse espaço curioso entre práticas e narrativa; entre aquilo que fazemos e aquilo que contamos sobre o que fazemos.

 

Pertencimento: a casa invisível que construímos dentro de nós

Já o pertencimento tem outra textura. É menos sobre “quem sou” e mais sobre “onde me encaixo”. É um fenômeno ao mesmo tempo social e afetivo.
O sociólogo Anthony Giddens lembra que o indivíduo moderno não nasce simplesmente inserido num grupo estável; ele precisa continuamente negociar seus lugares de pertencimento. A modernidade liquefaz certezas.

Zygmunt Bauman, por sua vez, dizia que o pertencimento é uma das grandes buscas humanas porque fornece amparo em um mundo de fluxos, mudanças e instabilidades. Pertencer é sentir que o chão tem forma, que as histórias ressoam, que as palavras reverberam num campo compartilhado.

O curioso é que o pertencimento não precisa ser real no sentido material. Às vezes pertencemos mais a um grupo que nunca vimos presencialmente do que à família com quem convivemos diariamente. Outras vezes nos sentimos estrangeiros na própria casa e íntimos numa cidade que visitamos um único dia.

O pertencimento é, assim, uma construção afetiva e simbólica, não apenas geográfica.

 

O encontro entre identidade e pertencimento

Se a identidade é narrativa e o pertencimento é afeto compartilhado, então o encontro entre ambos é o que dá estabilidade à experiência humana.

  • A identidade precisa do pertencimento para não se dissolver.
  • O pertencimento precisa da identidade para não virar mera massa indiferenciada.

O filósofo Charles Taylor argumenta que a identidade se forma reconhecidamente: isto é, preciso que o outro reconheça, espelhe e legitime quem sou para que minha autoimagem se consolide. Não se trata de depender dos outros para existir, mas de compreender que nossa identidade é sempre relacional. Tornamo-nos alguém diante de alguém.

Portanto, pertencimento não é apenas o lugar onde eu me sinto confortável; é o lugar que me reconhece. É o cenário onde a minha narrativa encontra eco.

 

As fraturas inevitáveis

Contudo, tanto a identidade quanto o pertencimento contêm tensões inevitáveis:

  • Às vezes pertencemos a um grupo que já não corresponde à pessoa que nos tornamos.
  • Às vezes nossa identidade cresce para um lado e o grupo exige que permaneçamos pequenos.
  • Às vezes mudamos tanto que já não encontramos ambiente que acompanhe essa mudança.

E o contrário também ocorre: grupos mudam, culturas se transformam, cidades evoluem, e nós ficamos deslocados, como se tivéssemos ficado parados no tempo.

É por isso que muitos autores contemporâneos — como Stuart Hall — afirmam que a identidade moderna é fragmentada, híbrida, em constante reconstrução. Não há mais uma essência fixa; há uma obra aberta, sempre em andamento.

 

A síntese possível: pertencemos ao que nos permite continuar sendo

No fim, talvez identidade e pertencimento não sejam metas, mas processos.
Pertencemos ao que nos ajuda a crescer, ao que acolhe nossas contradições, ao que não estranha nossa mudança.

Identidade é o movimento interno; pertencimento é o espaço onde esse movimento se sustenta.

A pergunta não é:

“Quem sou?”

nem “A que pertenço?”

A questão mais profunda é:

“Onde posso continuar me tornando?”

Porque a identidade é fluxo, e o pertencimento é o rio onde esse fluxo não se perde.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Coisas pela Essência


Às vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.

Na correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a confiança.

O problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e paciência, pede coragem para atravessar as aparências.

Rubem Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no outro não só um rosto, mas um universo.

Olhar para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.

Fernando Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede em quantidade, mas em profundidade.

Então, olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o sabor mais puro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Espirito Pitagórico

Os números como essência do real em Pitágoras

Quando falamos em número, pensamos em símbolos rápidos que usamos todos os dias: 1, 2, 3… Essa linguagem, no entanto, é tardia. Pitágoras, que viveu no século VI a.C., jamais viu um “algarismo arábico”. Para ele, o número não era um sinal gráfico, mas a própria essência que dava ordem ao mundo. Era mais próximo da experiência sensível do que da escrita: podia ser mostrado com pedras colocadas em triângulo, com linhas desenhadas na areia ou com cordas que vibravam em diferentes tons musicais.

Segundo a tradição pitagórica, o número era a chave para compreender o cosmos. “Tudo é número”, diziam seus discípulos. Não no sentido de que tudo pode ser contado, mas de que tudo possui uma medida, uma proporção, uma harmonia interna que se deixa revelar por relações numéricas. Pitágoras teria descoberto, por exemplo, que os intervalos musicais mais agradáveis correspondiam a razões simples entre comprimentos de cordas. A música, que parecia arte, era também matemática. O belo era, em última instância, proporção.

Cada número possuía ainda uma qualidade própria, quase uma personalidade. O um representava o princípio, a unidade original. O dois, a dualidade, o contraste. O três, a forma estável, a tríade que se vê em tantas manifestações da vida. O quatro, o quadrado, símbolo de justiça e equilíbrio. O dez — a sagrada tétraktis — era o número perfeito, soma dos quatro primeiros e imagem da totalidade. Para Pitágoras, o número não era apenas quantidade, mas também qualidade, valor e forma.

Se olharmos com atenção, ainda hoje carregamos essa herança. Quando organizamos quatro cadeiras ao redor de uma mesa, sentimos equilíbrio, não por acaso, mas porque obedecemos a uma intuição geométrica antiga. Quando assistimos a uma peça musical, somos conduzidos pelo compasso que ordena o ritmo em dois, três ou quatro tempos — os mesmos que Pitágoras ligava a figuras geométricas e proporções. Até na arquitetura das cidades, quando admiramos a simetria de uma praça ou a repetição de janelas em uma fachada, reconhecemos a beleza da ordem numérica.

O pensamento pitagórico também tinha uma dimensão ética e espiritual. Se o universo era número, viver bem significava alinhar-se a essa ordem. O excesso, a desmedida, o desequilíbrio eram vistos como erros não apenas práticos, mas ontológicos. Assim, a justiça se associava ao número quatro, por ser quadrado perfeito, e a perfeição moral se comparava ao dez, símbolo de completude. Para Pitágoras, compreender o número era compreender a si mesmo, pois o homem era parte do cosmos ordenado.

Essa visão parece distante da nossa vida moderna, tão cheia de cálculos, estatísticas e algoritmos. No entanto, talvez Pitágoras tivesse razão em um ponto essencial: não são os símbolos que usamos — os algarismos arábicos ou as telas digitais — que fazem o número, mas a ordem que eles apontam. O número é anterior à escrita, anterior à tecnologia; está na forma como o coração pulsa em intervalos regulares, na maneira como o dia se sucede à noite, no ciclo de estações que organiza a vida no planeta.

Em última instância, Pitágoras nos lembra que viver é também encontrar proporção. O excesso de trabalho rompe a harmonia, assim como o excesso de ócio. Uma vida justa é como uma figura geométrica bem desenhada: cada parte tem sua medida. Nisso, os números não são apenas abstrações matemáticas, mas conselhos silenciosos sobre como encontrar equilíbrio.

Assim, se hoje olhamos para um simples “3” e pensamos apenas em contagem, Pitágoras o veria como triângulo, como forma, como estabilidade. Quando usamos um “4” para fechar um cálculo, ele o leria como quadrado, justiça, equilíbrio. A diferença revela o quanto nossa linguagem se afastou da experiência original, mas também mostra como ainda podemos recuperar esse olhar. Ao lembrar de Pitágoras, percebemos que os números não estão presos às páginas de um caderno: eles são parte do tecido invisível que sustenta o real.


quinta-feira, 3 de julho de 2025

Reflexões Curtas

O grão de areia da consciência

Vivemos num tempo em que tudo precisa caber em um parágrafo, um tuíte, um reels. Parece superficial, mas talvez estejamos diante de um fenômeno mais profundo: a era das reflexões curtas. Seriam elas sintomas da pressa ou sementes da lucidez?

Um pensamento curto não é necessariamente raso. Um haicai contém mais mundo do que muitos romances. Um provérbio pode resumir gerações de sabedoria. O silêncio entre duas frases pode falar mais do que ambas. Reflexões curtas, quando verdadeiras, não são simplificações — são condenações à essência. Cortam o que é vaidade e entregam só o núcleo.

É possível que estejamos, sem perceber, tentando reencontrar uma forma antiga de pensar: a do aforismo, do koan, do lampejo súbito que nos obriga a parar. No fundo, queremos que uma frase nos freie no meio da rotação da Terra. Algo que nos diga: “Você também sente isso, não é?” E ali, naquela fagulha, acende-se a comunhão humana.

Nietzsche escreveu aos pedaços. Cioran, como quem atira estilhaços contra o céu. Simone Weil dizia que a atenção pura é uma oração — e uma frase pode ser uma oração se vier de um pensamento inteiro.

Talvez o problema não esteja na brevidade da reflexão, mas na falta de intervalo para que ela ressoe. Um bom pensamento precisa de eco. Não é preciso escrever longo, mas é preciso demorar-se. O perigo não está nas reflexões curtas, mas na vida sem pausa para refletir.

Pensar, afinal, não é construir castelos. Às vezes, é só perceber que há vento. E isso basta.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

O Intrínseco Temporário

Entre Natureza e Metafísica da Pessoa

Existe algo em nós que sentimos como essencial, como parte do que somos. Ainda assim, há experiências, estados e modos de ser que, embora pareçam brotar do mais íntimo de nossa identidade, desaparecem com o tempo. Chamá-los de “temporários” parece simples; o problema filosófico começa quando esses estados parecem não apenas vir de dentro, mas definir quem somos naquele momento. Como, então, reconciliar a permanência do ser com a fugacidade do vivido?

Neste ensaio, vamos pensar o “intrínseco temporário” a partir de dois pensadores distintos, mas surpreendentemente complementares: C. S. Lewis, com sua defesa de uma natureza humana objetiva e uma ordem moral transcendente; e E. J. Lowe, com sua ontologia de quatro categorias e distinção entre essência e identidade pessoal.

Lewis: a essência que clama por permanência

Em A Abolição do Homem, Lewis denuncia o colapso da objetividade moral em nome de um relativismo subjetivista. Ele defende que há algo no humano que deve ser cultivado porque pertence à nossa natureza — o que ele chama de "Tao", a lei moral universal. Para Lewis, o ser humano é uma criatura com um núcleo objetivo, que reconhece a beleza, o bem e a verdade, não por construção cultural, mas por sintonização com a ordem real do universo.

Mas e quando uma experiência passageira — um amor, uma angústia, uma crise — parece tomar o lugar desse núcleo? Lewis não negaria a profundidade das emoções, mas as colocaria sob julgamento da alma racional. O que sentimos pode parecer intrínseco, mas o que é verdadeiramente nosso é aquilo que se alinha com o eterno.

E é aí que entra o problema: se nos sentimos profundamente autênticos em algo passageiro, foi aquilo parte da nossa essência — ou uma ilusão convincente?

Lowe: identidade, essência e persistência no tempo

E. J. Lowe, por sua vez, nos oferece ferramentas mais analíticas. Em sua ontologia, ele propõe quatro categorias: substâncias, atributos, modos e universais. Uma pessoa é uma substância, dotada de atributos (como inteligência), modos (como ser introvertido num certo momento da vida), e relação com universais (como a justiça ou a coragem).

Para Lowe, a identidade pessoal não se confunde com a essência, e tampouco com os atributos passageiros. Um sujeito pode ser, num período da vida, corajoso, mas não ter a coragem como parte de sua essência. Ainda assim, naquele intervalo, a coragem se manifesta como se fosse uma verdade absoluta.

É aqui que encontramos o espaço para o “intrínseco temporário”: aquilo que, por um tempo, participa da essência, sem fazer parte dela. Uma espécie de modo existencial intenso que parece definidor, mas é apenas um episódio profundamente enraizado — como uma tatuagem que desaparece.

Intrínseco, mas não essencial

Ao unir Lewis e Lowe, podemos afirmar: o “intrínseco temporário” é um modo de ser que se aloja profundamente na identidade, mas não a define para sempre. É um estado que vem de dentro, mas não é o centro. Ele revela, mas não fixa. Como se certas experiências tivessem a capacidade de ficar essenciais por um tempo, antes de se dissolverem na continuidade do ser.

Não é que elas não tenham importância — pelo contrário, talvez sejam as que mais nos transformam. Elas atuam como pontes entre o efêmero e o eterno, entre o modo e a substância, entre o sentimento e a vocação. E podem nos preparar para compreender aquilo que, no fundo, deveria ser intrínseco e eterno.

A alma em transição

O conceito de “intrínseco temporário” pode parecer contraditório à primeira vista. Mas talvez ele seja o melhor retrato da condição humana: somos seres em formação, com breves moradas do eterno dentro do transitório.

Lewis nos lembra da necessidade de ancorar nosso ser num bem permanente. Lowe nos ajuda a ver que a identidade é complexa, feita de camadas que se revelam e se esvaem. Entre os dois, emerge a figura da alma em transição — moldada por paixões, marcada por dores, aberta ao que é maior que ela.

Ser, afinal, talvez seja isso: viver estados que parecem essenciais, apenas para descobrir, mais tarde, que nos preparavam para o que realmente é.

sábado, 15 de março de 2025

Poder da Abstração

Entre o Vago e o Essencial

Abstrair é um pouco como fazer uma mala para uma viagem: nem tudo cabe, nem tudo é necessário. A arte de selecionar o que importa e deixar de lado o excesso é um movimento que define não apenas nosso pensamento, mas a própria maneira como nos relacionamos com o mundo.

Imagine um pintor que deseja capturar a essência de uma paisagem. Ele não pinta cada folha, cada grão de areia ou cada reflexo d'água. Ele reduz formas, sintetiza cores, sugere detalhes. Esse processo, que parece tão intuitivo, é na verdade um dos fundamentos mais sofisticados do pensamento humano: a abstração.

O Caminho da Abstração: Do Concreto ao Universal

Desde criança aprendemos por abstração. Quando reconhecemos um cachorro, mesmo que cada cachorro seja diferente, já abstraímos sua "cachorridade". Esse processo ocorre também na linguagem, na matemática, na arte e na filosofia. Mas abstrair não significa apenas simplificar, e sim capturar padrões, conectar ideias, ver além da aparência imediata das coisas.

Os antigos gregos já sabiam disso. Platão, por exemplo, propôs que o mundo sensível é uma sombra imperfeita do mundo das ideias, onde está o verdadeiro conhecimento. Aristóteles, por outro lado, defendia que a abstração surge da experiência: conhecemos a partir do que observamos, e extraímos conceitos universais do particular.

Abstração e Realidade: O Perigo do Distanciamento

Se a abstração é uma ferramenta poderosa para entender o mundo, também pode se tornar um labirinto. Quando nos afastamos demais do concreto, corremos o risco de perder o contato com a realidade. Conceitos excessivamente abstratos podem tornar-se vazios, desconectados da prática, como acontece em certas teorias acadêmicas que poucos conseguem aplicar na vida real.

Em nossa era digital, a abstração tomou uma nova dimensão. Mapas não são territórios, e algoritmos moldam nosso cotidiano sem que possamos enxergar suas engrenagens. O mundo virtual é uma abstração extrema, onde relações sociais são mediadas por signos e avatares. O problema surge quando esquecemos que a vida não é apenas código, dados e representações.

Abstrair para Compreender, Mas Nunca Para Esquecer

A abstração é uma forma de ver além, mas também exige equilíbrio. Não podemos nos perder em conceitos puros e esquecer a concretude do mundo. Se um bom artista sabe o que omitir para ressaltar o essencial, um bom pensador deve saber até onde pode abstrair sem se desconectar da realidade.

No fim das contas, a vida também é uma grande abstração. Cada um de nós faz recortes, escolhe o que lembrar, o que ignorar, o que valorizar. E talvez a grande sabedoria esteja exatamente nisso: saber o que deixar de fora para que o que resta brilhe com mais intensidade.


domingo, 22 de dezembro de 2024

Acreditar Pela Metade

Acreditar pela metade é uma atitude que habita a zona cinzenta entre o ceticismo e a fé, entre o "sim" completo e o "não" absoluto. Trata-se de uma postura que nos convida a investigar o espaço onde a confiança vacila e onde a dúvida se insinua. Mas o que significa, realmente, acreditar pela metade? E o que essa condição revela sobre nós mesmos e sobre o mundo que habitamos?

O Espaço da Dúvida

Na prática cotidiana, acreditar pela metade pode se manifestar em situações simples, como confiar parcialmente em um amigo que já nos decepcionou ou acreditar em uma proposta de trabalho que parece boa demais para ser verdade. Nesses momentos, estamos simultaneamente abertos e fechados, criando uma barreira interna que nos protege, mas que também nos isola.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard sugeriu que a fé verdadeira é um salto no desconhecido, um compromisso total com algo que transcende a razão. Quando acreditamos pela metade, nos recusamos a dar esse salto; ficamos presos na borda do penhasco, hesitando entre o medo de cair e a promessa de voar.

A Sociedade e a Crença Fragmentada

No contexto social, acreditar pela metade é quase uma norma. As redes sociais, por exemplo, nos expõem a uma avalanche de informações que rapidamente consumimos e descartamos. Compartilhamos manchetes, mas raramente lemos o conteúdo. Acreditamos apenas o suficiente para validar nossas opiniões, mas não o bastante para mudar nossas perspectivas. Esse fenômeno é descrito pelo filósofo brasileiro Milton Santos, que alerta sobre a superficialidade das conexões em um mundo globalizado e fragmentado.

Essa crença fragmentada pode ser vista como uma defesa contra a sobrecarga de informações. Afinal, é impossível dedicar nossa confiança plena a tudo o que vemos ou ouvimos. No entanto, esse hábito também nos torna cínicos, desconfiados e, às vezes, incapazes de nos engajarmos profundamente com algo ou alguém.

Acreditar Pela Metade e o Eu

No plano pessoal, acreditar pela metade muitas vezes reflete uma luta interna. Quando não confiamos plenamente em nossas capacidades ou em nossos sonhos, nos tornamos espectadores de nossas próprias vidas. Ficamos à margem, aguardando uma prova definitiva de que é seguro avançar. Hannah Arendt, ao discutir a condição humana, enfatizou que a ação é o que define o ser humano no mundo. Mas, para agir, é necessário acreditar, ao menos por um momento, que o que fazemos importa.

O Que Fazer com a Metade?

Acreditar pela metade pode ser visto tanto como uma limitação quanto como um convite. Por um lado, nos impede de experimentar a totalidade de uma ideia, de uma relação ou de uma escolha. Por outro, nos permite manter um pé no chão enquanto exploramos novas possibilidades. Talvez a questão não seja eliminar a crença parcial, mas aprender a usá-la como uma ponte para algo maior.

O filósofo e educador Rubem Alves costumava dizer que a dúvida é a mãe da sabedoria, pois nos mantém curiosos e dispostos a aprender. Assim, acreditar pela metade não precisa ser um estado permanente, mas um estágio transitório, uma pausa reflexiva antes do próximo passo.

Acreditar pela metade é, em essência, um reflexo da nossa condição humana: ambígua, insegura e constantemente em busca de sentido. Reconhecer essa dualidade pode nos ajudar a navegar melhor pelos dilemas da vida, cultivando a coragem de dar saltos de fé quando necessário e a paciência de permanecer na incerteza quando prudente. Afinal, como disse Fernando Pessoa, "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena." E, às vezes, até acreditar pela metade já é um começo.