Era fim de tarde e o céu ameaçava chuva, mas sem decidir se realmente iria chover. Algumas pessoas aceleravam o passo, outras seguiam tranquilas, confiando que daria tempo. Um vendedor de rua começava a recolher suas coisas, enquanto, logo ao lado, alguém abria uma cadeira como se fosse ficar ali por horas. Em menos de cinco minutos, o vento mudava, as primeiras gotas caíam — fracas — e depois paravam de novo, como se o clima também estivesse indeciso.
Nada
extraordinário. Só mais um daqueles momentos em que tudo parece em suspensão.
É
curioso como a gente costuma imaginar a vida como algo que deveria se
estabilizar em algum ponto — como se existisse um estado ideal onde tudo
finalmente se organiza, se resolve, se aquieta. Mas a experiência cotidiana
insiste em mostrar o contrário: as coisas oscilam, mudam de direção, escapam
das previsões. Até o que parecia firme revela pequenas rachaduras com o tempo.
A
inerente instabilidade não é um acidente — é a própria condição das coisas.
A
gente sente isso nas relações, que mudam sem aviso. No trabalho, onde o que era
certo ontem já não serve hoje. Dentro de nós mesmos, quando opiniões, vontades
e certezas se transformam sem pedir permissão. Há sempre um leve descompasso
entre o que esperamos e o que acontece.
Heráclito
já sugeria algo semelhante ao afirmar que não se entra duas vezes no mesmo rio.
Não porque o rio seja caprichoso, mas porque tudo está em fluxo — inclusive
quem entra nele. A instabilidade, nesse sentido, não é falha do mundo; é o seu
modo de existir.
Talvez
o incômodo venha do nosso desejo de fixar o que, por natureza, escapa. Queremos
garantias, continuidade, previsibilidade. Mas a vida parece operar em outro
ritmo — mais próximo daquele céu indeciso do fim de tarde do que de um roteiro
bem definido.
No
fim, não se trata de eliminar a instabilidade, mas de reconhecê-la sem
desespero. Como quem aprende a caminhar num chão que nunca é totalmente sólido
— e, ainda assim, segue.
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