Pesquisar este blog

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Inerente Instabilidade


Era fim de tarde e o céu ameaçava chuva, mas sem decidir se realmente iria chover. Algumas pessoas aceleravam o passo, outras seguiam tranquilas, confiando que daria tempo. Um vendedor de rua começava a recolher suas coisas, enquanto, logo ao lado, alguém abria uma cadeira como se fosse ficar ali por horas. Em menos de cinco minutos, o vento mudava, as primeiras gotas caíam — fracas — e depois paravam de novo, como se o clima também estivesse indeciso.

Nada extraordinário. Só mais um daqueles momentos em que tudo parece em suspensão.

É curioso como a gente costuma imaginar a vida como algo que deveria se estabilizar em algum ponto — como se existisse um estado ideal onde tudo finalmente se organiza, se resolve, se aquieta. Mas a experiência cotidiana insiste em mostrar o contrário: as coisas oscilam, mudam de direção, escapam das previsões. Até o que parecia firme revela pequenas rachaduras com o tempo.

A inerente instabilidade não é um acidente — é a própria condição das coisas.

A gente sente isso nas relações, que mudam sem aviso. No trabalho, onde o que era certo ontem já não serve hoje. Dentro de nós mesmos, quando opiniões, vontades e certezas se transformam sem pedir permissão. Há sempre um leve descompasso entre o que esperamos e o que acontece.

Heráclito já sugeria algo semelhante ao afirmar que não se entra duas vezes no mesmo rio. Não porque o rio seja caprichoso, mas porque tudo está em fluxo — inclusive quem entra nele. A instabilidade, nesse sentido, não é falha do mundo; é o seu modo de existir.

Talvez o incômodo venha do nosso desejo de fixar o que, por natureza, escapa. Queremos garantias, continuidade, previsibilidade. Mas a vida parece operar em outro ritmo — mais próximo daquele céu indeciso do fim de tarde do que de um roteiro bem definido.

No fim, não se trata de eliminar a instabilidade, mas de reconhecê-la sem desespero. Como quem aprende a caminhar num chão que nunca é totalmente sólido — e, ainda assim, segue.


Nenhum comentário:

Postar um comentário