Uma Ideia Incômoda
Outro
dia me peguei olhando para algo banal — uma sacola de lixo esquecida num canto.
Nada demais. Mas havia ali um leve desconforto, quase físico. Não era só o
cheiro, nem a aparência. Era uma sensação mais estranha: como se aquilo não
devesse estar ali… ou talvez, como se eu não devesse estar perto daquilo.
Foi
aí que me veio à cabeça Julia Kristeva, com sua ideia incômoda de
abjeção. E, sinceramente, depois que você começa a enxergar isso no cotidiano,
fica difícil “desver”.
Abjeção
não é apenas o que causa nojo. Se fosse só isso, resolveríamos com um simples
afastar de olhar. O problema é que o abjeto não fica só do lado de fora — ele
parece rondar uma fronteira muito íntima, como se ameaçasse algo em nós.
Pense
numa situação comum: você está comendo tranquilamente e, de repente, percebe
que a comida está estragada. O corpo reage antes do pensamento. Há um recuo
imediato, quase violento. Mas o curioso é que aquela comida, segundos antes,
fazia parte do seu mundo — talvez até do seu desejo. O que mudou tão rápido?
Kristeva
diria: ali surgiu o abjeto. Algo que atravessa a linha entre o que pode fazer
parte de você e o que precisa ser expulso.
E
isso não fica só na comida. Está em pequenos episódios do dia a dia:
Você
já percebeu como ficamos desconfortáveis quando alguém ultrapassa certos
limites invisíveis? Aquela pessoa que fala demais sobre a própria intimidade,
que expõe detalhes que “não deveriam” ser compartilhados. Não é só falta de
educação — é quase uma sensação física de invasão. Como se algo estivesse fora
do lugar.
Ou
então ambientes. Há lugares que não são apenas sujos — eles parecem “errados”.
Você entra e quer sair. Não porque alguém mandou, mas porque algo ali ameaça
uma ordem silenciosa que você carrega dentro.
É
nesse ponto que a ideia de abjeção começa a ficar interessante — e um pouco
perturbadora.
Porque,
no fundo, o que está em jogo não é o objeto em si. É você.
A
gente costuma pensar que o “eu” é algo sólido, bem definido. Mas, olhando de
perto, ele parece mais uma construção frágil, mantida à base de exclusões
constantes. Eu sou isso… porque não sou aquilo. Eu permaneço inteiro… porque
certas coisas são mantidas do lado de fora.
O
problema é que algumas dessas coisas não ficam totalmente fora.
O
corpo é o melhor exemplo disso. Sangue, suor, secreções — tudo isso é “nosso”,
mas ao mesmo tempo nos causa repulsa quando aparece fora do lugar. Como se o
corpo revelasse algo que preferíamos não ver: que essa separação entre “eu” e
“não-eu” é muito mais instável do que gostaríamos.
O
caso extremo é o cadáver. Não é apenas a morte que incomoda. É o fato de que
ali está um corpo que, até pouco tempo atrás, era alguém. O limite se dissolve.
E isso é difícil de suportar.
Se
a gente puxar um pouco mais para o lado cultural, a coisa se amplia. Regras
sociais, normas de convivência, rituais de limpeza — tudo isso parece funcionar
como um grande sistema de contenção do abjeto. Uma tentativa coletiva de manter
o mundo organizado.
Nesse
ponto, dá vontade de imaginar uma provocação no estilo de Friedrich Nietzsche:
“E
se tudo isso for só uma forma de você se proteger de algo que não consegue
encarar?”
Talvez
ele estivesse certo em parte. Mas Kristeva provavelmente responderia que não se
trata apenas de fraqueza — é uma necessidade estrutural. Sem essas fronteiras,
o “eu” simplesmente se dissolve.
E
aí surge uma ideia meio desconfortável, mas honesta:
Talvez
a gente precise daquilo que rejeita para continuar sendo quem é.
O
abjeto, nesse sentido, não é só o que afastamos. É aquilo que nos ajuda,
silenciosamente, a manter alguma forma de identidade.
Voltando
àquela sacola de lixo no canto — ela não era só lixo. Era um lembrete. De que
existe uma linha invisível organizando tudo: o corpo, a casa, as relações, a
própria ideia de quem somos.
E
que, de vez em quando, essa linha vacila.
Quando
isso acontece, não sentimos apenas nojo.
Sentimos
algo mais profundo — uma espécie de vertigem.
Como
se, por um instante, o mundo deixasse de estar completamente no lugar.
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