É segunda-feira, a semana começa e me pergunto em minha obsessão qual é o propósito?
Tem dias em que parece que todo mundo acordou com uma missão secreta — menos a gente.
Você
abre o celular e lá está: alguém “descobrindo seu propósito”, outro “vivendo
sua melhor versão”, alguém pedindo demissão para “seguir o chamado”. E aí, no
meio disso tudo, você só queria tomar um café em paz e decidir o que fazer com
a tarde. Mas de repente isso parece pouco. Pequeno demais. Quase errado.
E é aí
que a coisa começa a pesar.
A
obsessão por propósito não nasce do nada. Ela vem embalada como algo bonito —
quase nobre. Afinal, quem não quer uma vida com sentido? O problema é quando o
sentido vira obrigação. Quando viver deixa de ser experiência e passa a ser
projeto.
No
cotidiano, isso aparece de formas bem silenciosas. Você está num trabalho
estável, nada extraordinário, mas também nada ruim. Ainda assim, algo cutuca:
“isso aqui não pode ser tudo”. Ou então você gosta de várias coisas — ler,
conversar, caminhar — mas nenhuma delas parece grande o suficiente para ser “o
propósito”. Como se a vida precisasse de um eixo central grandioso para
justificar sua existência.
Só que
talvez essa exigência seja o verdadeiro peso.
Friedrich
Nietzsche desconfiava profundamente dessas ideias totalizantes. Para
ele, a vida não vem com um sentido pronto — ela é algo que se constrói, se
experimenta, se afirma. Em vez de um propósito fixo, ele falava em criação de
valores, em viver de forma que a própria vida se torne justificável. Não como
missão, mas como afirmação.
Traduzindo
para o nosso dia a dia: talvez o problema não seja não ter propósito, mas
acreditar que ele precisa existir como uma coisa única, clara e definitiva.
Porque,
honestamente, a vida real não funciona assim.
Ela
acontece em pedaços.
No
almoço de domingo que se estende sem pressa. Na conversa inesperada que muda
seu humor. No trabalho que não é “sua paixão”, mas paga suas contas e, de vez
em quando, até te dá algum orgulho. No silêncio de uma noite comum, onde nada
grandioso acontece — e mesmo assim há algo ali.
Mas a
obsessão por propósito tem um efeito curioso: ela transforma tudo isso em
insuficiente.
É como
se a vida cotidiana fosse apenas um rascunho de algo maior que nunca chega. E,
nessa lógica, o presente sempre perde. Porque ele nunca é épico o bastante.
A ironia
é que, ao buscar um grande sentido, a gente começa a perder os pequenos — que
talvez sejam os únicos que realmente existem.
Pense
naquela sensação de terminar algo simples, como arrumar a casa ou resolver um
problema pequeno. Não é grandioso. Não muda o mundo. Mas há uma espécie de
completude ali. Um micro-sentido. E talvez a vida seja mais feita disso do que
de grandes revelações.
Só que
isso não rende postagem inspiradora.
E aí
entra outro ponto: será que essa obsessão é realmente nossa — ou é também um
produto do ambiente em que vivemos?
Vivemos
cercados de narrativas de sucesso que sempre têm um “porquê” bem definido.
Histórias organizadas, limpas, coerentes. Mas o que não aparece é o intervalo —
a dúvida, o tédio, a falta de direção. A vida real é cheia desses espaços
vazios, mas aprendemos a escondê-los, como se fossem falhas.
E talvez
não sejam.
Talvez
estar sem propósito, por um tempo, não seja um erro — mas uma fase legítima da
existência. Um intervalo onde a vida ainda não se organizou em narrativa. E
tudo bem.
Porque
há um perigo sutil nessa busca incessante: transformar o propósito em mais uma
forma de controle. Como se a vida só fosse válida quando explicável. Como se o
valor dela dependesse de um plano claro.
Mas e se
não houver plano?
Ou
melhor: e se houver vários, mudando o tempo todo?
Talvez o
propósito não seja algo que se encontra como um objeto perdido. Talvez ele
apareça em fragmentos, em momentos, em relações. E talvez ele também desapareça
— e precise desaparecer — para dar lugar a outros.
No
fundo, a obsessão por propósito pode ser uma tentativa de fugir de algo mais
incômodo: a abertura da vida. O fato de que ela não vem pronta, não tem roteiro
fixo, e que cabe a nós lidar com essa liberdade meio desconfortável.
E
liberdade, como já perceberam muitos filósofos, nem sempre é leve.
Então,
talvez a pergunta não seja “qual é o meu propósito?”, mas algo mais simples e,
ao mesmo tempo, mais honesto:
— O que,
hoje, faz sentido suficiente para continuar?
Sem
precisar ser definitivo.
Sem
precisar virar missão.
Sem
precisar caber numa frase bonita.
Só
suficiente.
E,
curiosamente, às vezes é justamente quando a gente para de procurar um grande
propósito… que a vida começa a fazer mais sentido.
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