Pesquisar este blog

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Misoginia

O Silêncio que Molda o Mundo

Tem coisas que a gente aprende sem perceber. Não vem de um livro, nem de uma aula específica — vem do jeito como as pessoas falam, riem, interrompem, elogiam ou ignoram. A misoginia é assim: ela raramente entra pela porta da frente dizendo “sou o ódio às mulheres”. Ela prefere o disfarce. Às vezes vem como piada, às vezes como “opinião sincera”, às vezes como tradição. E quando a gente vê, já está ali, sentada à mesa, opinando sobre tudo.

Mas talvez o mais curioso da misoginia não seja sua violência explícita — essa é fácil de reconhecer — e sim sua capacidade de se infiltrar no cotidiano como algo aparentemente normal. É aí que ela se torna mais filosófica: quando deixa de ser apenas um comportamento e passa a ser uma forma de ver o mundo.


A construção invisível do desprezo

Simone de Beauvoir já dizia: “não se nasce mulher, torna-se”. O que ela nos provoca a pensar é que aquilo que entendemos como “ser mulher” não é apenas biológico, mas socialmente construído. Se o papel feminino é construído, o desprezo por esse papel também pode ser.

A misoginia, então, não nasce pronta — ela é ensinada, repetida, refinada. Está nos pequenos gestos: quem fala mais numa reunião, quem é interrompido, quem precisa provar competência o tempo todo. Ela não precisa gritar para existir; basta se repetir.

Nesse sentido, a misoginia não é apenas uma emoção (ódio), mas uma estrutura simbólica. E estruturas são perigosas justamente porque parecem naturais.


O hábito de diminuir

Pierre Bourdieu falava de algo chamado violência simbólica: uma forma de dominação que não precisa de força física, porque é aceita — muitas vezes inconscientemente — por todos os envolvidos.

A misoginia se encaixa perfeitamente aqui. Quando uma mulher duvida da própria capacidade antes mesmo de tentar, quando alguém acha “normal” que certas posições sejam ocupadas majoritariamente por homens, estamos diante de um sistema que funciona sem precisar se justificar.

É como se o mundo tivesse sido organizado de tal forma que o desequilíbrio parecesse equilíbrio.


A lógica fria do desprezo

Kate Manne propõe uma visão interessante: para ela, a misoginia não é apenas odiar mulheres, mas policiar e punir aquelas que saem do papel esperado.

Ou seja, não se trata de rejeitar todas as mulheres, mas de rejeitar aquelas que não cumprem certas regras invisíveis: a mulher que fala demais, que não aceita certas imposições, que não se encaixa.

Nesse sentido, a misoginia funciona quase como um “sistema de controle social”. Ela delimita o espaço do aceitável.

E aqui surge uma pergunta incômoda: quantas vezes o desconforto com uma mulher “difícil” não é, na verdade, desconforto com alguém que escapou desse script?


O cotidiano como palco

Não é preciso ir longe para ver isso. Está na forma como opiniões femininas são tratadas como “emocionais”, enquanto as masculinas são vistas como “racionais”. Está no elogio que vem com uma condição: “ela é boa, apesar de ser mulher”. Está no espanto diante do que deveria ser comum.

Marilena Chaui ajuda a iluminar esse ponto ao discutir ideologia: aquilo que organiza nossa visão de mundo sem que percebamos. A misoginia, nesse sentido, é ideológica — ela molda percepções antes mesmo de qualquer reflexão consciente.

Ela não precisa convencer; ela já está pressuposta.


Entre o visível e o invisível

O perigo maior da misoginia não é apenas o dano que causa — embora ele seja real e profundo —, mas sua capacidade de se esconder naquilo que parece banal.

E talvez seja por isso que combatê-la não seja apenas uma questão de leis ou regras, mas de percepção. É preciso aprender a ver o que antes passava despercebido.

Porque, no fim das contas, a misoginia não vive apenas nos grandes atos de violência. Ela sobrevive — e se fortalece — nos pequenos silêncios, nas risadas cúmplices, nas ideias que ninguém questiona.


Feminicídios

No entanto, quando saímos do plano das ideias e olhamos para a realidade concreta — especialmente aqui no Rio Grande do Sul — em nosso estado, a misoginia deixa de ser apenas um conceito e se revela como tragédia cotidiana: mulheres estão sendo mortas, muitas vezes, por aqueles que deveriam protegê-las. Os dados são duros e não permitem romantização: em 2025, cerca de 80 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado, muitas delas assassinadas dentro de casa, no espaço que deveria ser de segurança ; e o início de 2026 já aponta um crescimento alarmante, com aumento de mais de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior . Mais perturbador ainda é o padrão: a maioria desses crimes é cometida por parceiros ou ex-companheiros, revelando que o perigo não está no desconhecido, mas na intimidade. Trata-se de uma inversão brutal do sentido de cuidado — onde o vínculo afetivo se transforma em domínio, e o amor, distorcido, vira posse. Filosoficamente, isso expõe uma contradição radical da nossa sociedade: construímos discursos de proteção enquanto toleramos estruturas que permitem que a violência floresça justamente onde deveria haver abrigo. E talvez o mais inquietante seja perceber que esses números não são exceções — são sintomas de um sistema que ainda não aprendeu a reconhecer plenamente a vida das mulheres como inviolável. Constatamos que o sistema é falho e insuficiente para protegê-las, é urgente criarmos outros mecanismos mais eficientes, condizentes com nossa triste e alarmante realidade.


O que Podemos Fazer

Se a tragédia já revelou o tamanho do problema, então a resposta precisa ser mais do que reativa — precisa ser estrutural, contínua e inteligente. Proteger melhor as mulheres não depende de uma única medida, mas de um conjunto de mecanismos que funcionem como uma rede, não como pontos isolados.

Um primeiro eixo fundamental é antecipar a violência, e não apenas puni-la depois. Isso significa fortalecer o uso de monitoramento eletrônico de agressores, com tornozeleiras integradas a aplicativos que alertem a vítima e a polícia quando há aproximação indevida. Em paralelo, medidas protetivas precisam deixar de ser apenas documentos formais e se tornarem instrumentos ativos, com acompanhamento em tempo real e resposta policial rápida — algo que ainda falha na prática.

Outro ponto decisivo é a proteção no momento mais perigoso: a ruptura. Estatísticas mostram que o risco aumenta quando a mulher tenta sair da relação. Aqui, políticas públicas poderiam oferecer abrigos seguros e discretos, apoio financeiro emergencial e suporte jurídico imediato. Não basta dizer “denuncie”; é preciso garantir que, ao denunciar, ela tenha para onde ir e como recomeçar.

Também é essencial investir na integração de dados. Muitas vezes, diferentes órgãos já têm sinais do risco — histórico de violência, ameaças, denúncias anteriores —, mas essas informações não conversam entre si. Um sistema unificado permitiria identificar padrões e agir antes que o pior aconteça. É a lógica da prevenção baseada em evidências, não em suposições.

No campo cultural, a mudança é mais lenta, mas indispensável. Como aponta Pierre Bourdieu, estruturas simbólicas sustentam práticas concretas. Isso implica trabalhar desde cedo, nas escolas e na mídia, para desmontar a ideia de posse sobre o outro. Já Marilena Chaui nos lembraria que a ideologia se combate tornando visível o que parecia “normal” — ou seja, questionando comportamentos naturalizados no cotidiano.

Por fim, há um ponto delicado, mas crucial: responsabilizar e reeducar agressores. Programas obrigatórios de acompanhamento psicológico e grupos reflexivos para homens que já apresentaram comportamento violento podem reduzir reincidência. Punir é necessário, mas interromper o ciclo é ainda mais.

No fundo, proteger mulheres exige uma mudança de lógica: sair de um modelo que reage à violência para um que previne, acompanha e sustenta. Porque, se o perigo nasce muitas vezes dentro de relações íntimas, a proteção também precisa entrar nelas — com presença do Estado, da comunidade e de uma consciência social que não tolere mais o intolerável.


Um último desconforto

Talvez o exercício mais difícil seja reconhecer que ninguém está totalmente fora desse sistema. Todos fomos, em alguma medida, expostos a ele. A questão não é apontar culpados absolutos, mas perceber padrões.

E aqui a filosofia cumpre seu papel mais incômodo: não oferecer respostas confortáveis, mas revelar aquilo que preferíamos não ver.

A misoginia, quando observada de perto, deixa de ser apenas um problema “dos outros” e passa a ser um espelho — imperfeito, mas insistente — da forma como organizamos nossas relações, nossos valores e, no fundo, nossa própria ideia de humanidade.

E talvez seja justamente aí que começa qualquer mudança: quando o que era invisível finalmente se torna impossível de ignorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário